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Retrato de Mariella Furrer Mary-Ann Palmer
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Mariella Furrer

Abuso sexual de menores: o olhar das vítimas e dos agressores

O livro “My Piece of Sky” reúne testemunhos de vítimas, abusadores e agentes da autoridade. O livro resulta do trabalho de dez anos da fotógrafa Mariella Furrer, também vítima de abuso sexual na infância

“Sofri muito com o abuso sexual de que fui vítima. Durou segundos, ou poucos minutos, não sei ao certo, mas a vergonha acompanha-me até hoje.” Mariella tinha 5 anos, não conhecia o seu abusador. “Na altura, não compreendi o que me tinha acontecido, mas de algum modo sabia que era errado. Senti culpa por deixar que aquele homem me tocasse.”

É através da compilação de fotografias, excertos de diários, desenhos e testemunhos de vítimas, abusadores, familiares, polícia, pessoal médico, activistas, que a fotógrafa retrata um fenómeno que considera “epidémico” na África do Sul. Durante 10 anos Mariella Furrer investigou, entrevistou, fotografou e editou para que “My Piece of Sky” se tornasse realidade. O motivo é simples: “Quando fui abusada, se soubesse que outras crianças também tinham sido, ter-me-ia sentido muito melhor.”

Venus foi violada aos oito anos de idade

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Reparação cirúrgica de danos internos provocados por violação Mariella Furrer

Venus (nome fictício) tinha oito anos de idade quando o vizinho Steven lhe pediu que o seguisse. Ela assentiu e foi arrastada para o meio de uns arbustos, onde ele tentou violá-la. “Ela ofereceu resistência e ele esfaqueou-a no coração e pulmões com uma tesoura, violou-a e sodomizou-a. De seguida, arrastou-a para uma área mais escondida e deixou-a à sua sorte”, contou a fotógrafa de origem suíço-libanesa ao P3, em entrevista via Skype. “Era Inverno, as temperaturas estavam abaixo dos zero graus. As pessoas procuraram-na e ela conseguia ouvi-las chamar, mas as suas cordas vocais não respondiam devido ao estrangulamento, estavam temporariamente danificadas.” Nessa noite, segundo testemunho da mãe de Venus, Steven, seu vizinho há dez anos, perguntou o que se passava, revelando preocupação. Na manhã seguinte tornou a perguntar: “Já a encontraram?”.

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Menor vítima de abuso sexual no banco de trás de um carro da Polícia Mariella Furrer

Venus perdeu os sentidos após o ataque e acordou apenas na manhã seguinte. Rastejou numa direcção aleatória e apenas por sorte se deparou com uma estrada. “Foi encontrada por uma mulher que, por acaso, conhecia a sua mãe. Se ela tivesse rastejado na direcção oposta, nunca teria sido encontrada e teria morrido”, garantiu Mariella.

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Grupo de terapia para agressores sexuais Mariella Furrer

Foi através da Unidade de Protecção de Menores e da clínica Teddy Bear, na África do Sul, que a fotógrafa teve acesso à maioria dos casos que documentou. Compõem o livro, no total, 17 depoimentos de vítimas e dos seus familiares e seis testemunhos de abusadores sexuais. “Conheci outra menina pequena que foi submetida a uma intervenção cirúrgica. Ela foi violada ainda muito nova, não tinha ainda três anos de idade. É algo que as pessoas não sabem. As crianças pequenas que sofrem este tipo de violência são normalmente submetidas a cirurgia para reparação de danos internos. Demorei seis ou sete anos até conseguir fotografar uma cirurgia” e isso foi importante para poder revelar um lado da história que raras vezes merece menção quando se trata o assunto nos media. 

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Perpetrador fala dos seus crimes num programa de televisão sul africano Mariella Furrer

"Nem todos os pedófilos são abusadores sexuais"

Nem todos os casos de abuso sexual de crianças acontecem em contexto de violência. Mariella Furrer trabalhou muitos anos com vítimas, sobreviventes, polícia, técnicos e activistas e garante que, contactando com as vítimas, é impossível não odiar os agressores. Mas, confessa, “ao conhecê-los, percebi que a questão é muito mais complexa do que parecia à partida".

A maioria dos agressores sexuais que conheceu não era do tipo violento. Eram aquilo que se denomina de “groomers”, pessoas que “cuidam” da criança, que estabelecem com ela uma relação de proximidade e afecto. “Isso torna tudo mais confuso para a criança, porque existe efectivamente uma relação de confiança entre ela e o agressor. Deparei-me com o exemplo do Grant, que dizia: 'Este homem era a única pessoa que me amava, mas também me violou’”. Grant tinha apenas oito anos e vivia no seio de uma família negligente. “O meu pai embriagava-se muitas vezes e a minha mãe tinha a sua própria vida para cuidar”, disse Grant a Mariella.

“O Creasey era muito bom para mim. Dizia-me sempre que era bonito e que tinha um óptimo corpo. Tirava-me fotografias, revelava-as e mostrava-me como funcionava o ampliador.” Darren, abusador sexual, confirma em depoimento: “Muitas das crianças [de quem abusei] não tinham uma figura parental forte e nesses casos eu assumia esse papel — à minha maneira”. As crianças que encaixam neste tipo de perfil são mais vulneráveis a este tipo de “predação”, o que não significa que as que provêm de lares estruturados e famílias atenciosas sejam imunes.

“É importante ressalvar que nem todos os pedófilos são abusadores sexuais”, alerta a fotógrafa. A atracção sexual por crianças pode existir sem que a agressão se verifique. “Conheci um homem velho, já nos seus setenta anos. Abusava de crianças desde os nove anos de idade. Sempre na mesma faixa etária. Há quinze anos, teve um esgotamento nervoso, procurou ajuda e passou a frequentar um grupo de terapia para agressores sexuais, que nunca mais abandonou desde então. Garante que há mais de vinte anos que não toca numa criança. O que me chocou mais foi ter-me dito que, apesar desse auto-controlo, não havia um só dia que não acordasse a fantasiar com uma criança”, relatou Furrer.

“A raiz de todo o abuso é o abuso”

Teresa, agressora sexual, não é um exemplo clássico desse grupo em que as mulheres estão em minoria. “A minha dependência do sexo começou quando era ainda muito nova. Desde as minhas primeiras memórias que ambos os meus pais abusavam sexualmente de mim com regularidade. Quando tinha oito anos estava envolvida na violação da bebé da nossa empregada doméstica — com o seu consentimento. Ao tentar calar a criança — por ordem do meu pai — sufoquei-a com uma almofada e ela foi enterrada no nosso jardim. Senti tanta culpa e tanta raiva e medo que simplesmente bloqueei qualquer forma de sentimento, enterrei tudo de forma a nunca mais pensar nisso.” Teresa viria mais tarde a abusar sexualmente das suas duas filhas, Petra e Anna. “Fiz exactamente as mesmas coisas que me fizeram odiar os meus pais. Abusei também do filho da minha irmã, Johann. Odiei-me por tê-lo feito. Odiava olhar para o meu próprio corpo, limpá-lo ou cuidar dele, sabia que era apenas usado para destruir vidas inocentes.”

O assédio em contexto familiar não é incomum. O abusador tem, nesse caso, contacto privilegiado com a criança e mais poder sobre ela. “Se acontece dentro da família, as consequências podem ser devastadoras, o que leva muitas crianças a não revelar o abuso”. Mesmo quando o abuso é confessado a outro familiar, existem factores que podem desencorajar uma queixa às autoridades: dependência financeira do abusador, vergonha, descrença no sistema judicial, medo de que a criança seja excluída. “Conheci o caso de uma menina de 12 anos que foi enviada pela mãe para uma outra cidade para dar à luz. A mãe escondeu a gravidez de toda a gente. Em vez de ajudar a criança e de ser feito um aborto, preferiu que a menina mantivesse a gravidez e que o recém-nascido fosse dado para adopção. Não acredito que ela quisesse prejudicar a própria filha, mas…” “O silêncio foi mais fácil do que a vergonha”, concluiu Mariella. Em alguns países, onde o matrimónio depende da virgindade da mulher, as queixas formais de abuso sexual de menores são ainda mais raras.

Mariella acredita que na génese de todo o abuso sexual está alguma forma de abuso sofrida pelo perpetrador. “Um historial de abuso físico ou psicológico é comum a todos os agressores que conheci. Não quero com isto dizer que todos os que sofrem abuso se tornam agressores, quero apenas frisar que o abuso é o denominador comum a todos os agressores.” Acredita que a comunidade escolar pode ter um papel importante na detecção de casos de risco e que, para tal, deverá receber formação suplementar. “É urgente um investimento nesse campo por parte dos governos. Nos Estados Unidos, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças diz que o custo a longo prazo de apenas um ano de casos reportados de abuso sexual de crianças custa ao estado 124 biliões de dólares. Estas pessoas irão lidar com depressão, problemas psicológicos e psiquiátricos, suicídio, consume de álcool ou drogas. Se esse dinheiro fosse investido em prevenção e formação de profissionais escolares…”

Mariella Furrer nasceu no Líbano, em Beirute, e vive desde os primeiros anos de vida no Quénia. O livro auto-publicado “My Piece of Sky” recebeu diversos prémios: a última atribuição foi feita pela International Photography Award, que o considerou o segundo melhor fotolivro do ano de 2015. Mariella trabalha como fotojornalista "freelancer" entre países africanos e europeus e o seu trabalho já conheceu publicação “Sunday Times Magazine of London”, “Time Magazine, “Newsweek”, “Life Magazine” e “New York Times”. Mariella Furrer foi também júri da última edição do World Press Photo.