Opinião

Satélites Sentinel, os novos cartógrafos da Terra

Serão gerados mapas virtuais do planeta, com grande precisão, quase um por cada dia.

Hoje, dia 16 de Fevereiro, a ESA (Agência Espacial Europeia) lança o satélite Sentinel 3 que leva a bordo sensores que irão medir parâmetros essenciais para o conhecimento do nosso planeta, tais como a temperatura da superfície do mar, a topografia da superfície do oceano, a cor do mar, ou a cobertura vegetal dos continentes. Este satélite representa um avanço tecnológico em relação aos anteriores e, sobretudo, pretende dar continuidade aos programas de observação da Terra.

O Sentinel 3 é o terceiro satélite da família dos Sentinel, e integra-se no plano Copernicus que tem como objectivo estabelecer um programa autónomo de observação da Terra para monitorização do ambiente, avaliação de riscos, melhoria da segurança dos cidadãos e mitigação dos efeitos das alterações climáticas. São lançados dois satélites para cada Sentinel. Este vai ser o Sentinel 3A e posteriormente será lançado o 3B. O Sentinel 3 está preferencialmente vocacionado para a observação do oceano e zonas costeiras, enquanto o anterior, o Sentinel 2, se ocupa principalmente com variáveis ambientais terrestres.

Este programa é uma aposta forte da Europa. Os dados recolhidos podem ser usados gratuitamente (de facto, já foram pagos pelos nossos impostos), e destinam-se tanto à comunidade científica, como a empresas ou cidadãos em geral. Com efeito, os dados podem ser obtidos em vários níveis de complexidade, sendo os mais simples fornecidos sob a etiqueta “user friendly”, de modo a serem usados com várias finalidades, e desejavelmente para estimular o desenvolvimento de novo conhecimento e de novas tecnologias.

A órbita do Sentinel 3 localiza-se a 814 quilómetros de altitude, sendo síncrona em relação ao Sol, passando sempre cerca das 10h em cada local. Ou seja, é uma órbita polar, e à medida que a Terra roda, o satélite vai recolhendo imagens de faixas perpendiculares ao equador (com 1270 quilómetros de largura), cobrindo toda a superfície da Terra. Quando os dois Sentinel 3 estiverem operacionais, a resolução temporal será de 2-3 dias no oceano e 1-2 dias sobre os continentes e áreas de gelo (não considerando a cobertura de nuvens, que impede a obtenção de imagens de cor). A resolução espacial é de 300 metros.

Alguns dados serão fornecidos em tempo real (3h), como por exemplo os da topografia do oceano, que serão integrados nas previsões meteorológicas e do estado do mar.

O sensor de cor – no visível e no infravermelho –, OLCI (Ocean and Land Instrument Colour, Sensor de Cor para Oceano e Continentes), está capacitado para observar e quantificar as comunidades vegetais terrestres e o fitoplâncton oceânico (microalgas da coluna de água), através do registo da concentração em clorofila. Estas observações possibilitam avaliar com acuidade o papel da vegetação e do fitoplâncton no sequestro do carbono atmosférico, cujo aumento acelerado da sua concentração na atmosfera, devido às actividades humanas, é sem dúvida um dos grandes desafios atuais da sociedade.

Mas várias outras questões poderão ser abordadas. Nomeadamente, nos ecossistemas marinhos: o efeito do excesso de nutrientes nas zonas costeiras, o alerta de blooms de microalgas tóxicas para os aquacultores, a localização de frentes oceânicas, onde é mais provável a presença de mamíferos marinhos, etc. Nos ecossistemas terrestres, parâmetros como a cobertura das florestas, áreas ardidas pelo fogo, estado das culturas agrícolas, fracção de energia luminosa absorvida pelas plantas, constituem informação preciosa para várias finalidades, algumas com elevadíssimo e óbvio valor económico. Estes últimos parâmetros são também registados pelo Sentinel 2, com resolução espacial superior, 20-30 metros, mas resolução temporal inferior (cada cinco dias). Ou seja, para as superfícies dos continentes, os dados fornecidos pelos Sentinel 2 e 3 irão viabilizar a elaboração de mapas de grande rigor espacial, em escalas de tempo muito curtas.

Com efeito, serão gerados mapas virtuais do planeta, com grande precisão, quase um por cada dia. O valor da informação gerada é colossal. A capacidade para gerar esta cartografia da Terra com tamanha precisão, faz lembrar o belo texto de Jorge Luís Borges “Del rigor de la ciência”: “Naquele império, a Arte da Cartografia alcançou tal Perfeição que o mapa duma Província ocupava uma Cidade inteira, e o mapa do Império uma Província inteira. Com o tempo esses Mapas Desmedidos não bastaram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o Tamanho do Império e coincidia com ele ponto por ponto. Menos Dedicadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes decidiram que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedades entregaram-no às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos Desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa habitadas por Animais e Mendigos; em todo o País não há outra relíquia das Disciplinas Geográficas.

Mas o devir da observação da Terra pelos satélites, ao contrário do miniconto de Borges, não estará ameaçado, creio, dado que as nossas gerações seguintes serão cada vez mais dependentes da tecnologia e da informação.

E como sempre, como com qualquer mapa, há infinitos caminhos possíveis, cabe ao navegador, ao estudá-lo, decidir qual o seu destino.

Professora catedrática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, MARE