Esta semana deu-se mais um passo na associação do vírus com a microcefalia Ueslei Marcelino/Reuters
Reportagem

Depois da euforia do Carnaval, o Nordeste do Brasil regressa ao pesadelo do Zika

Recife é a capital do estado nordestino de Pernambuco e a sede de um terço dos casos de microcefalia registados no Brasil. Nos bairros pobres, o lixo e a falta de água da rede pública criam condições óptimas para a proliferação do mosquito que transmite o vírus.

Na tarde tórrida da última segunda-feira uma pequena multidão com pessoas de todas as idades e cores dançava freneticamente no largo em frente à Igreja da Conceição, num dos morros da zona Leste do Recife. Em pleno Carnaval, a folia tomou conta da população e colocou a terrível ameaça do vírus Zika sob um breve compasso de espera. A poucos metros do grupo compacto que dançava sob os jorros de água lançada por dois homens com mangueiras em cima de um camião-cisterna, o perigo estava, porém, à vista. Num pequeno monte de lixo num canto da praça principal do morro era impossível não notar uma pequena nuvem de mosquitos. Alguns poderiam ser vulgares e inofensivos pernilongos; outros poderiam ser da espécie Aedes Aegypty, o mosquito que transmite não apenas o vírus do Zika, suspeito de estar na origem de um surto de casos de microcefalia em recém-nascidos, mas também o dos vírus que provocam a febre do dengue e do chikungunya.

O calor tropical, as chuvas curtas mas repetidas e as carências quotidianas da população desfavorecida como a que vive no morro da Conceição criaram condições ideais para a proliferação do Aedes e colocaram o Recife no epicentro da “emergência mundial de saúde pública” declarada na semana passada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Dos 4783 casos de microcefalia de bebés que estão a ser investigados no Brasil, 1447 foram registados no Recife e no estado do qual a cidade é capital – Pernambuco, um território pouco maior do que Portugal, onde vivem 9,3 milhões de pessoas. Depois de ter sido fortemente atacada pela febre do dengue, que só este ano pode ter atingido 7120 pessoas no estado (mais 190% do que em igual período do ano passado), o novo pesadelo dos moradores do Recife é um vírus do qual quase ninguém ouvira falar até há apenas três ou quatro meses.

“O Zika vem substituir o dengue, está escrito na Bíblia”, grita, irado, um morador do morro quando o PÚBLICO lhe pergunta pela doença. Trata-se, portanto, de “uma mensagem de Deus” que ele como homem se recusa comentar. Descendo calmamente uma das ladeiras do morro, entre um pequeno caminho de cimento marginado por duas valas por onde as chuvas copiosas escorrem e por sacos de lixo à espera de recolha, Ana Santos acusa nos seus passos as últimas dores da dengue nas articulações. Sobre a febre do dengue, Ana sabe tudo por experiência própria; sobre o Zika, sabe apenas que “é mau para as gestantes”. É por isso um perigo distante para quem, como ela, já entrou nos 60 anos de idade. “No bairro, meio mundo sofreu de dengue”, diz Lúcia Maria, uma moradora preocupada com a enteada grávida que mora no cabo de Santo Agostinho, a sul da capital; do Zika, para lá das campanhas de informação, pouco ou nada se sabe. “Tem lá no Alto do Bonifácio uma menina que teve um filho com microcefalia, aqui não tem ninguém não”, diz Lúcia. Sentada na escada de cimento que dá acesso à sua casa térrea, a sua vizinha Rosa Amador tem razões especiais para estar a par de “um problema muito grande”: a sua neta teve um bebé há um mês e, até nascer, a família viveu a angústia da incerteza sobre as suas condições de saúde. “Felizmente ela nasceu direitinha”, comove-se Rosa Amador.

Se a dengue ou o chikungunya se instalaram no quotidiano do bairro, o Zika parece ainda confinado às famílias das mulheres grávidas. Afinal, regra geral os seus sintomas “são mais leves do que os apresentados pelos outros vírus: febres baixas, prurido e dores nas articulações mais ligeiras do que as do chikungunya”, explica Ângela Rocha, titular da cadeira de Doenças Infectológicas e Parasitárias do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, da Universidade Federal de Pernambuco, uma das maiores especialistas mundiais no conhecimento do Zika. Mas se no morro da Conceição, que faz parte do bairro da Casa Amarela, o Zika parece ainda mais um fantasma do que uma realidade, entre a comunidade científica e as autoridades políticas estabeleceu-se um consenso que a OMS veio subscrever: o vírus originário de uma floresta do Uganda e conhecido desde 1947 pode ter efeitos devastadores. Os seus danos sobre os fetos humanos em gestação e sobre a natalidade estão a um passo da confirmação; e o registo, nesta quinta-feira, da morte de uma jovem de 20 anos alimentam a suspeita de que os seus impactes no sistema nervoso podem causar a morte de adultos em condições normais de saúde – estão confirmados três óbitos por Zika no Brasil.

O problema maior do Zika neste momento é o escasso conhecimento que a medicina tem sobre a forma como se instala no corpo humano e como provoca danos na gestação ou no sistema nervoso. Sobre o Zika não haverá mais de 250 estudos publicados em revistas científicas internacionais; já sobre o dengue há mais de 19 mil. O sistema público de saúde brasileiro é capaz de diagnosticar o vírus da dengue em poucas horas; no caso do Zika, o processo está ainda em curso. Esta quarta-feira deu-se mais um passo na associação do vírus com a microcefalia, depois de análises ao líquido cefalorraquidiano de 12 crianças terem provado a existência do Zika. “A literatura científica informa-nos sobre muito poucas coisas”, reconhece Ângela Rocha, mas “vamos começando a perceber o tipo de lesões que as agressões [do vírus] causam no sistema nervoso”. Sabe-se, por exemplo, que são diferentes das que a toxoplasmose ou o citomegalovirus, duas origens provadas de microcefalia, provocam. “Estamos ainda a aprender”, nota Ângela Rocha, que com a sua equipa e com médicos de outras disciplinas se prepara para publicar um primeiro estudo com 38 casos de lesões.

Um mundo novo
Para os cidadãos, como para as autoridades políticas e para a comunidade científica, a prioridade é encontrar rapidamente soluções para uma emergência nova e inesperada. O Zika foi durante décadas um vírus considerado inofensivo. Em 2007 foram sinalizados alguns casos de doença na Polinésia, sem que o seu perigo potencial fosse percebido. Terá chegado ao Brasil apenas em 2014, na sequência do Campeonato Mundial de Futebol ou de uma competição internacional de canoagem na qual participaram atletas da Polinésia. No final de 2014 vêm ao conhecimento os primeiros casos de uma “doença misteriosa” provenientes do estado do Rio Grande do Norte, vizinho do Pernambuco. Só em Maio do ano passado cientistas da Universidade da Bahia esclareceram o mistério ao identificar o vírus. O ministro da Saúde do Brasil na época, Artur Chioro, dizia na altura: “O Zika não nos preocupa. É uma doença benigna que tem cura”.

A perspectiva muda rapidamente em Outubro. Vanessa van der Linden, uma neuro-pediatra, de 46 anos, confronta-se num único dia com três casos de bebés com microcefalia (quando o perímetro encefálico é inferior a 32 centímetros), quando por vezes se passavam dois ou três meses sem que qualquer caso lhe chegasse às mãos. A sua mãe, também médica, telefona-lhe um dia a dar conta do registo de mais sete casos. As tomografias que realizou nos bebés afectados provavam tipos de calcificação do cérebro até então desconhecidas. Um grupo de médicos decide então comunicar ao governo do estado de que uma nova ameaça à saúde pública pairava no ar. O governador, Paulo Câmara, toma acções de imediato: “Fomos o primeiro estado a alertar a união sobre a gravidade da situação”, diz Câmara em entrevista ao PÚBLICO. A obrigatoriedade de um registo de notificações de casos novos e os primeiros protocolos para liderar com doentes infectados ou com bebés com microcefalia são dados logo em Novembro. Pernambuco torna-se o primeiro estado a organizar uma recolha organizada de notificações e a lançar os primeiros passos para combater a doença

Perante o desconhecimento de terapias eficazes para debelar os efeitos do Zika, principalmente nas mulheres grávidas, a prioridade das autoridades foi atacar o problema na sua origem, tentando reduzir o vector de transmissão, o mosquito Aedes. Esta guerra ficou a cargo das autoridades municipais, que para o efeito contam com a cooperação dos governos estadual e federal. “Logo em Novembro colocámo-nos na linha da frente do combate ao insecto”, recorda Jailson Correia, secretário de Saúde da Prefeitura do Recife. “O prefeito reuniu todos os secretários e pediu um plano para atacarmos o mosquito”, acrescenta Jailson. Dois meses mais tarde, quando o Zika se tinha tornado assustador em todo o mundo, a Presidente Dilma Rousseff entra na campanha oferecendo o serviço de 220 mil militares.

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Luciele Souza, de 23 anos, grávida de nove meses. O novo pesadelo dos moradores do Recife é um vírus do qual ninguém ouvira falar até há três ou quatro meses Nacho Doce/Reuters

Na rua do morro da Conceição onde mora Vera Santana ainda não passaram as brigadas sanitárias que, para lá de lançarem “fumacê” (um insecticida) nas áreas suspeitas, se empenham em sensibilizar a população para a necessidade de um combate colectivo contra os mosquitos. “É fundamental que cada pessoa olhe pela sua casa. Precisamos de muita comunicação, muito esclarecimento. Precisamos da ajuda de organizações civis e da igreja. Quem faz a leitura da água e da luz ajuda a informar as pessoas. O trabalho que temos pela frente é imenso”, diz o governador Paulo Câmara.

Os meios empregues nesta guerra pela Prefeitura do Recife são impressionantes. Jailson Correia fala de 672 agentes de saúde, de 220 soldados do Exército e da Força Aérea, que contam com o apoio da rede de dois mil agentes comunitários espalhados pelos 94 bairros da cidade com 1,6 milhões de habitantes. Cálculos da secretaria estadual de Saúde indicam que mais de 80% dos focos de infecção do dengue (logo também do Zika, já que o mosquito é o mesmo) estão dentro das habitações, pelo que a fumigação se faz também no espaço íntimo. Regra geral, “a colaboração das pessoas é boa”, diz Jailson Correia, embora “por vezes haja alguns casos de resistência”.

No morro da Conceição, casos desses, que por vezes envolvem ameaças de conflitos com os agentes sanitários e com os soldados, são conhecidos. Por vezes há encontros azedos e tensos. “Tem gente que não deixa entrar o Exército e isso é errado. Porque o mosquito não pica só a gente que tem a casa suja; pica também o que tem casa limpa”, indigna-se Rosa Aparecida. Nos casos de propriedades abandonados, sejam casas ou terrenos, o Exército tem cobertura legal para forçar a entrada após a notificação de uma primeira visita.

Mas, mais importante que a fumigação é o combate às larvas do mosquito. O insecticida só faz efeito quando o Aedes está a voar, pelo que a sua acção é reduzida. Atacar a origem tornou-se uma questão crítica, principalmente nas zonas onde se acumula lixo de plástico e em áreas residenciais sem abastecimento regular de água. Ou seja, numa grande parte do território do Recife e do Pernambuco habitada pelas classes mais desfavorecidas. “Nos bairros mais pobres há um conjunto de factores que favorece a proliferação dos mosquitos e das doenças: há uma mais alta densidade demográfica, há problemas com a educação, a falta de árvores eleva a temperatura e a falta de abastecimento regular de água leva as pessoas a conservá-la em depósitos”, diz Jailson Correia.  

A guerra de cada um
Em consequência de campanhas de sensibilização nas quais o governo do Estado já gastou cinco milhões de reais (1,2 milhões de euros), muitos moradores das zonas pobres começaram a preocupar-se com o controlo dos focos de infestação. As fêmeas do Aedes tanto podem depositar as larvas em tampas de garrafas, como em pneus abandonados, como nos depósitos de água para abastecimento humano. Augusto Silva, morador no bairro de Santo Amaro, acaba de recuperar de um ataque de dengue e introduziu nas suas rotinas semanais uma vigilância do seu depósito de água. “Quando liberto a tampa, se tiver larvas elas vêm à superfície por causa da luz. Então, eu jogo a água fora, mas tem de ser no asfalto para evaporar e matar as larvas. E depois limpo bem o depósito com cloro que a prefeitura dá a toda a gente”, diz. “Se todo o mundo tivesse o mesmo cuidado, teríamos já menos mosquito”, acrescenta Augusto.

Há cerca de um mês, Dilma Rousseff lamentava que o Brasil estava em risco de perder a guerra contra o Aedes, mas tudo indica que, para já, os focos identificados no Recife estejam a diminuir. Em 2010, sublinha Jailson Correia, 5% dos lares fiscalizados pelas autoridades municipais eram pontos de desenvolvimento do mosquito; esse valor tinha descido para 2,5% em Janeiro de 2015; e no passado mês recuara para 1,2%. Resta no entanto saber se estes valores são capazes de traduzir uma efectiva redução da população do Aedes na cidade. Artur Timerman, infecciologista e presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arboviroses, lembrava na última edição da revista Veja que “o Aedes tem uma capacidade de adaptação biológica sofisticada, superior à de qualquer insecto” – precisa de pouca água para se reproduzir; não está preso à luz natural e agora voa sob luz artificial; as suas larvas sobrevivem já não apenas três meses mas até um ano; antes voava dez metros e agora atinge os 50. Para este especialista é impossível derrotar um inimigo com este poder.

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Jackeline, de 26 anos, segura o filho que nasceu com microcefalia, em Olinda, perto de Recife Nacho Doce/Reuters

Certo é que, nas últimas semanas, “as notificações sobre novos casos de microcefalia têm diminuído”, nota Ângela Rocha. As autoridades sanitárias do estado reforçaram a sua capacidade de diagnosticar novos casos através da instalação de centros de tomografia espalhados por todo o Pernambuco. E o combate ao Aegis vai ser reforçado, porque, nota a infecciologista “o período crítico para a proliferação do mosquito vem aí, entre os meses de Março e Abril, com a chegada da estação das chuvas”. Os habitantes do Recife, porém, começam a “ficar cansados de falar no Zika e no dengue” e sentem-se cada vez mais “desanimados”, diz Augusto Silva. Durante o Carnaval, toda a cidade se dedicou à folia e, exceptuando casos raros de disfarces com a aparência do mosquito ou de grávidas que enfrentaram a euforia nas ruas protegendo-se dentro de redes mosquiteiras, e o problema ficou suspenso. Mas o desafio com que se confrontam no futuro próximo impede-as de esquecer. Depois da dura crise económica e do caos político que ameaça culminar com a destituição de Dilma Rousseff, o Zika tornou-se em mais um fardo a pesar num país com cada vez mais dramas e cada vez menos razões para festejar.

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