Turquia começa a bombardear curdos na Síria

Ancara considera terrorista grupo que os EUA apoiam no combate aos jihadistas e que controla cada vez mais território junto à sua fronteira.

Os curdos têm sido os principais aliados da coligação internacional no combate aos jihadistas na Síria
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Os curdos têm sido os principais aliados da coligação internacional no combate aos jihadistas na Síria Fabio Bucciarelli/AFP

Entre o anúncio de uma possível ofensiva e a caída dos primeiros projécteis passou pouco mais de uma hora. A artilharia turca bombardeou este sábado zonas sob o controlo do grupo armado curdo mais forte da Síria, incluindo um aeródromo a partir do qual estas forças planeavam lançar ataques contra os jihadistas do Daash, o autodesignado Estado Islâmico.

“Se for necessário, quando houver uma ameaça real à Turquia, podemos tomar na Síria as mesmas medidas que tomámos no Iraque e em Qandil”, dissera num discurso transmitido pela televisão o primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu. Como já fizera no passado, em 2015 a Turquia lançou ataques contra as bases do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) nas montanhas de Qandil, na região autónoma iraquiana do Curdistão, perto da fronteira iraniana.

“Esperamos dos nossos amigos e aliados que nos apoiem”, acrescentou Davutoglu. Nada menos provável. Afinal, o alvo da Turquia são as Unidades de Protecção do Povo (YPG), a milícia do Partido da União Democrática (PYG), as mesmas forças que reconquistaram a cidade de Kobani aos jihadistas em Janeiro do ano passado, com o apoio aéreo dos Estados Unidos e dos seus aliados na coligação formada meses antes para combater o Daash.

A artilharia turca disparou contra diferentes alvos no Norte da província de Alepo, onde o PYG controla desde 2012 uma vasta aérea de onde expulsou o regime de Bashar al-Assad, aproveitando a revolta que irrompera noutras zonas do país. Os ataques concentraram-se em redor de Azaz, junto à fronteira, e visaram especificamente a base aérea de Menagh, reconquistado a 10 de Fevereiro pelos curdos a grupos de rebeldes islamistas que integram o Exército Livre da Síria.

É verdade que há ligações entre o PKK e o PYG (aliás, muitos curdos sírios combatiam antes do conflito sírio ao lado dos curdos turcos). Não é certo o que motivou esta ofensiva neste momento, mas o Governo turco está à beira de um ataque de nervos à medida que os curdos conquistam cada vez território junto à sua fronteira com a Síria, ao mesmo tempo que o regime ameaça recuperar as zonas mais a Ocidente que estão nas mãos de outros grupos rebeldes.

Isto quando a ofensiva lançada no início do mês por Assad com apoio russo para recuperar a cidade de Alepo já levou mais de 50 mil civis a tentaram passar a fronteira – ao todo, 100 mil pessoas estão agora em campos improvisados pelos turcos do lado sírio da fronteira (na Turquia há 2,6 milhões de refugiados sírios). Na quarta-feira, o Presidente Recep Erdogan denunciara o apoio militar dos EUA aos seus “inimigos curdos na Síria”.

“A Turquia (um membro da NATO) está a bombardear as YPG (apoiadas pelos EUA e pela Rússia) por atacarem o Exército Livre da Síria (apoiado pelos EUA, pela Turquia e pelos sauditas)”, escreveu no Twitter o analista anglo-americano Charles Lister. A afirmação pode soar confusa, mas está correcta. As YPG já combateram ao lado do Exército Livre contra os jihadistas e contra este; para além disso, os bombardeamentos russos têm, de facto, ajudado aos avanços da milícia curda no Norte da Síria.

O Exército Livre, primeiro grupo armado da oposição, formado inicialmente por desertores das Forças Armadas de Assad, inclui hoje diferentes divisões em cada zona do país e integra tanto grupos descritos como moderados como outros considerados islamistas. Este é o principal grupo a operar no terreno que os EUA legitimam como interlocutor.

Um pouco mais a Sul, a aviação russa continuou a atacar posições da oposição em ataques descritos por Dovotuglu como “bárbaros, tiranos, uma estratégia de guerra conduzida com uma mentalidade medieval”.

Nova Guerra Fria

Horas antes, na Conferência de Segurança de Munique, o ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlut Cavusoglu, admitiu que Ancara pode disponibilizar forças terrestres para combater, ao lado dos sauditas, os jihadistas do Daash “se houver uma estratégia” em que isso faça sentido. Para já, a Arábia Saudita vai enviar aviões de ataques para a base turca de Incirlik, a partir de onde saem muitos dos aparelhos norte-americanos que bombardeiam os radicais.

A possibilidade de uma ofensiva terrestre contra o Daash que envolva a entrada na Síria de tropas estrangeiras foi descrita pelo primeiro-ministro russo como capaz de precipitar “uma terceira guerra mundial”.

Sábado, em Munique, Dmitri Medvedev, um dia depois de russo e americanos terem assinado um acordo para "a cessação de hostilidades" na Síria, disse que ninguém devia fazer nada “para assustar” o outro lado, ao mesmo tempo que disse sentir-se a viver uma nova Guerra Fria. “A política da NATO em relação à Rússia continua hostil e opaca. Poderíamos dizer que recuámos para uma nova Guerra Fria”, afirmou. “Quase todos os dias nos chamam uma das mais terríveis ameaças à NATO ou à Europa ou aos EUA.”