Brian Eno e William Shakespeare, irmãos melancólicos

A partir da música de um e do teatro do outro, Anne Teresa de Keersmaeker criou Golden Hours (As You Like It), que este sábado encerra o GUIdance.

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Em palco, 11 bailarinos ocupam um espaço despido e encarnam silenciosamente as personagens de Shakespeare ANNE VAN AERSCHOT
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Há 40 anos, Brian Eno cavou mais fundo o seu abandono dos Roxy Music ao lançar Another Green World, derradeiro namoro com a música pop mas já alimentado por técnicas muito pouco concordantes com a clássica escrita de canções, que engendrou em conjunto com o artista Peter Schmidt após um bloqueio criativo em estúdio.

Após muitos anos a pensar na hipnotizante Golden hours, que Eno gravou nesse disco, a coreógrafa belga Anne Teresa de Keersmaeker começou a imaginar essa espécie de espiral como um inebriante loop. A ideia adequava-se quase naturalmente à aceleração que, em 2009, quis explorar em The Song. “Nessa altura, hesitei muito entre o White Album, dos Beatles, e o Another Green World”, confessa ao PÚBLICO. Depois de ambos os discos, e em particular a canção Golden hours, terem integrado o processo de trabalho de The Song, optou por usar apenas a música dos Beatles (While my guitar gently weeps e Helter Skelter) em fundo. Mas a escolha ficou-lhe sempre, de alguma maneira, atravessada.

Tão atravessada que Golden Hours (As You Like It), que tem a sua estreia nacional este sábado como espectáculo de encerramento do festival GUIdance, em Guimarães, foi a sua maneira de recuperar a composição de Brian Eno. Golden Hours, a canção, liga-se ao “desejo de trabalhar num novo princípio chamado my speaking is my dancing”, que Keersmaeker descreve como uma reflexão sobre “como se pode corporizar texto, como se pode corporizar a linguagem, tanto num sentido físico quanto ao nível do significado”.

Quando fala de texto, Anne Teresa refere-se não apenas à letra de Golden hours, mas também ao restante título da peça, que remete para a comédia de William Shakespeare As You Like It, a outra referência trabalhada em paralelo. “Aquilo de que gosto na dança”, diz, “é que podemos corporizar as ideias mais abstractas. Em peças recentes como En Attendant e até mesmo em Partita 2, no entanto, trabalhei muito com aquilo a que chamo narrativas secretas.” Partita 2, o dueto que a coreógrafa criou para interpretar com Boris Charmatz, inscrevia-se então no princípio my walking is my dancing. Agora que vigora my speaking is my dancing, Keersmaeker criou para a sua companhias Rosas Die Weise von Liebe und Tod des Cornets Christophe Rilke (A Balada do Amor e da Morte do Alferes Christophe Rilke, em português), obra de Rainer Maria Rilke, em que “o texto é a partitura”.

Anne Teresa chegou ao texto através da música e do seu trabalho específico com música vocal. Mas o texto, comenta a propósito de Golden Hours, é usado de forma “subterrânea – não há nenhum texto falado”. “As únicas palavras faladas”, explica, “são aquelas que estão nas canções de Brian Eno. Usamos o As You Like It apenas nalgumas projecções em inglês do texto original de Shakespeare.”

Território desconhecido

Em palco, 11 bailarinos ocupam um espaço despido e encarnam silenciosamente as personagens de Shakespeare, retiradas de um As You Like It que seduziu a coreógrafa, em primeiro lugar, por inaugurar esta sua experiência de assumir o texto como partitura. Foi, diz, a “entrada num território desconhecido”. “E não quis começar logo com os monumentos de Shakespeare, as grandes tragédias como Macbeth ou Hamlet”, justifica. “Para Shakespeare, resta-me pouca explicação – os seus textos são únicos na cultura ocidental, na forma como questionam o teatro e o mundo”.

A essa razão generalista juntaram-se, depois, duas temáticas propostas por esta comédia pastoral: a oposição entre a vida na corte, de uma “Humanidade moldada”, e a floresta de Arden, “regresso à natureza e à ordem natural das coisas”; e a questão do género, uma vez que depois de ser expulsa da corte pelo seu tio, usurpador do trono, Rosalinda se disfarça de homem para ensinar Orlando a seduzir a mulher que ela é – e a mulher que, enquanto “homem”, finge ser para efeitos de prática da nobre arte da sedução. Uma confusão, portanto, estas “três ou quatro camadas” de mudanças de género numa só personagem que encantam Keersmaeker. Mas no centro de Golden Hours (As You Like It) está sobretudo a relação entre homem e natureza, ampliada pelas questões que se levantam no presente, e que a fazem acreditar que este “é um desafio que teremos de enfrentar durante a próxima década”: em breve, suspeita, estaremos a responder a “qual será a forma de sobrevivência da humanidade”.

Entre Eno e Shakespeare, Anne Teresa de Keersmaeker admite encontrar uma surpreendente coincidência de tom. “Brian Eno combina letras de um non-sense dadaísta com uma melancolia triste e bizarra que está presente em Shakespeare”, garante. A música pop, ainda assim, estimula-a de uma forma muito concreta, a partir de “uma batida regular que convida a dançar e de um texto que se refere a histórias e situações teatrais”. A sua inescapável presença quotidiana nas nossas vidas também a intriga. Pedir a alguém para assobiar música do século XX composta por Debussy, Ravel, Xenakis ou Ligeti não terá a resposta à altura de idêntico pedido com música de Beatles, Michael Jackson ou Beyoncé – os exemplos são da própria coreógrafa, que, em 2011, acusou Beyoncé de ter pilhado e interpretado pobremente a sua peça Rosas Danst Rosas no vídeo de Countdown.

Só que a pop de Brian Eno, como se sabe, é oblíqua. E é esse rasto que Keersmaeker, preferencialmente, segue.