O novo de Jeff Nichols é tão Spielberg que até dói

Midnight Special força a admiração pelos riscos que corre ao fazer um filme de miúdos para adultos. Mas não é conclusivo nem inteiramente conseguido este retorno ao padrão Encontros Imediatos do Terceiro Grau.

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Michael Shannon, em grande: Midnight Special
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A presença de Denis Lavant dá uma desnecessária caução autorista a Boris sans Béatrice, de Denis Côté

O que está a fazer um filme de género na competição de Berlim? Melhor: o que está a fazer um filme de género que retorna ao padrão Spielberg dos primórdios, facção Encontros Imediatos do Terceiro Grau, ao mesmo tempo que remete para as fantasias da Disney dos anos 1960 e 1970? Está a provar que ainda há quem tente fazer cinema de género adulto sem que a coisa caia no ridículo, mas certo para já é que Midnight Special, de Jeff Nichols, vai dividir as águas. 

Já lá vamos, porque agora que começou o grande circo do concurso, está na altura de começar a tentar esquissar se a Berlinale 2016 sempre vai cumprir a promessa de renovar o catálogo de autores de festival que, no papel, prometia. A julgar pelo primeiro dia, a resposta é algo equívoca, na base do "nim" — não falta talento, mas a personalidade não é certa. No caso de Hedi, primeira longa do tunisino Mohamed Ben Attia, o que se vê é uma espécie de "irmãos Dardenne light" transpostos para a província tunisina, sobre um rapaz de 25 anos que se sente apanhado numa ratoeira sem saída, entre as expectativas de uma mãe que sempre preferiu o irmão mais velho e uma crise que o prende a um emprego sem futuro. 

Mas se retirarmos o contexto específico da Tunísia, o mal-estar existencial de jovens prisioneiros das circunstâncias é uma questão universal, e Ben Attia nunca encontra um modo próprio ou diferente de a abordar. Hedi, que usa e abusa do plano-câmara-à-mão-sobre-a-nuca-do-protagonista pós-Rosetta (e ainda por cima os Dardenne são co-produtores), acaba por não ser nem carne nem peixe, afogando-se no vulgar de Lineu do cinema social de matriz francófona.

Os trabalhos de Boris

Do outro lado do Atlântico veio o canadiano Denis Côté, "repetente" do concurso depois do óptimo Vic e Flo Viram Um Urso, em 2013. Boris sans Béatrice dá uma pirueta curiosa ao criar uma regra narrativa rígida para o seu cinema habitualmente formalista, numa subversão de códigos do drama conjugal e da matriz paranóica que pode ter tido mais olhos que barriga. 

É a história de um "senhor do mundo" obrigado a engolir o orgulho e a arrogância como único modo de salvar a esposa da depressão profunda em que se encontra, estruturada como um jogo cinéfilo metarreferencial que invoca a mitologia grega, o crash de Wall Street e a mitologia grega. A presença de Denis Lavant (cada vez mais o novo Jean-Pierre Léaud pelo cachet instantâneo que dá aos filmes em que surge) dá-lhe uma desnecessária caução autorista ao mesmo tempo que reforça a ideia de que este filme oblíquo, mais precioso e menos fascinado do que Vic e Flo, se destina essencialmente aos já iniciados no seu cinema. Não é um passo em frente, numa primeira abordagem, mas também não é um passo atrás.

Malick Disney

Sobra deste primeiro dia, então, o americano Jeff Nichols. Pela primeira vez em Berlim, o autor de Histórias de Caçadeira, Procurem Abrigo e Em Fuga tem comprovado ser o mais interessante da geração "ruralista" independente americana dos últimos anos. Midnight Special, que o atira para os braços dos estúdios com o selo da Warner, não trai em nada essa herança, antes procura integrá-la num filme mais abertamente de género, mantendo intactas as coordenadas locais. 

Estamos no mesmo território sobrenatural de Procurem Abrigo, com a história a começar numa seita rural do Texas e a envolver as agências de segurança americanas. Estão todos em busca de um miúdo de oito anos raptado pelo próprio pai (Michael Shannon, sempre em grande) para que não caia nas mãos nem de uns, que o acham uma arma humana, nem dos outros, para quem ele é um profeta de Deus. 

O problema maior de Midnight Special é que o miúdo é um simples pretexto para a história que Nichols quer contar, que tem mais que ver com questões de ciência e fé, família e comunidade do que com resolver o mistério que está no seu centro. Essa recusa do facilitismo é admirável, colocando-o na rota (por exemplo) de um Christopher Nolan na tentativa de conciliar o género com o drama adulto. Mas, ao mesmo tempo, Nichols não quer perder de vista a ideia do maravilhoso benevolente que norteava uma certa ficção científica dos anos 1970 (vertente Fuga para a Montanha Mágica, dos estúdios Disney, por exemplo), e o modo como a imagem de Adam Stone joga com as fontes de luz e os planos nocturnos é tão Spielberg que até dói. 

O resultado é um filme que força a admiração pelos riscos que corre ao fazer um filme de miúdos para adultos (imagine-se os Encontros Imediatos rodados por um Malick contido), mas que nunca encontra o rumo certo para navegar com eficácia nessa corda bamba: interessante, simpático, abertamente sincero, mas não é conclusivo nem inteiramente conseguido. Há mais sete dias de competição pela frente, a ver vamos o que se segue.