Crítica

Embalados pelo sangue

Este esplêndido Tarantino começa como ghost story, dá a volta a uma obra em carroça fantasma, inunda-nos com sangue e no final embala-nos, quer pôr-nos a dormir.

Este esplêndido Tarantino começa como <i>ghost story</i> e acaba como canção de embalar
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Este esplêndido Tarantino começa como ghost story e acaba como canção de embalar

Samuel L Jackson humilha Bruce Dern. Esse saloon às portas do inferno que é o Wyoming gelado no pós-Guerra Civil Americana só pode ser o paraíso que promete o cinema: huis clos que se fecha com toda a violência no seu interior. Samuel L. Jackson excita e humilha Bruce Dern: “starting seeing pictures?”.

Há algo de demoníaco na forma como Tarantino excita a capacidade do espectador para “ver filmes” dentro deste filme e na precisão com que acerta as horas entre a cerimónia que se desenrola no ecrã e os rituais da sala. Na cópia em 70mm de Os Oito Odiados, a inesperada voz off que se faz ouvir a meio para nos dizer que passaram “15 minutos” desde a última vez que víramos as personagens, está de facto a aparecer 15 minutos depois do “intervalo”, essa coisa do passado que só existe nas sessões especiais que compõem o road show à antiga – com “cartão”, no início, no ecrã e introdução musical a inundar-nos com Ennio Morricone – que Tarantino desenhou para algumas salas, em algumas cidades, que tiveram capacidade de se (re)equiparem para os 70 mm (nenhuma sala portuguesa volta atrás, o digital manda nelas). É a ilusão de live show, as imagens do ecrã a estimularem a sala e a sala a prolongar o filme pela memória, pela imaginação para além dos limites do saloon.

Chegado ao oitavo filme, Tarantino está a ser acusado de ser mais do mesmo. Também, contraditoriamente, de já não ser o mesmo. Já não há fun, é isso?

Ouviram-se as vozes da ressaca, também, por alturas de Django Libertado (2012). Não por acaso, nesses dois filmes sobre a América (são-no todos, mas Django Libertado, o seu E Tudo o Vento Levou, e Os Oito Odiados propõem-se como “frescos” históricos, mesmo se o último se passa dentro de um saloon) Tarantino entrega-se de forma catártica às “suas” imagens: a América é um país de cinema, Tarantino é cidadão desse território, nesse sentido o seu cinema é político. Nunca utilizou de forma paródico-ensaísta a acumulação de citações e o pastiche como Brian de Palma, mas em Django Libertado e em Os Oito Odiados progride ainda para uma comunicação com o espectador (excitando-o) mais ritualística, mais fantasmagórica. Para além disso, Django Libertado e Os Oito Odiados são mais filmes de um filme só do que os outros, aqueles em que ele, bulímico, quis fazer vários ao mesmo tempo.

No saloon d’Os Oito Odiados está toda a América, as divisões e ressentimentos sem fim - a personagem de Tim Roth às tantas divide o espaço em territórios.

Está também “todo” o cinema de Tarantino: se ele se aproxima ou não da “reforma”, como apontam algumas das suas declarações, só ele o saberá, mas há algo que começa a fechar-se, com este regresso ao huis clos de Cães Danados (1992) e a alguns dos seus rostos, viagem em tom de síntese sem dar hipóteses ao sentimento de repetição de “número”.

Mas neste saloon está sobretudo “todo” o cinema americano. E “todo” porque não se trata de adivinhar esta ou aquela citação, mesmo que se atire Carrie, de Brian de Palma, para ali, Veio do Outro Mundo, de Carpenter, para acolá, ou Altman, ou Polanski, ou os 70s ou os 90s, ou...; todo o filme parece - e estamos “a ver” daqui as grandguignolescas sequências finais - ser expelido pela memória do cinema americano.

Este esplêndido Tarantino começa como ghost story e acaba como canção de embalar. Dá a volta a uma obra em carroça fantasma, inunda-nos com o sangue da sempre esburacada Jennifer Jason Leigh (a eterna vítima do cinema americano nos seus inícios de carreira faz aqui tresloucada ironia de si mesma), e no final, acertando as horas entre cerimoniais, manda-nos dormir. É isso, então...