HUGO VIEIRA DA SILVA
Por territórios esquecidos

Português radicado na Áustria, é um cineasta à procura do que faz de nós quem somos. Posto Avançado do Progresso estará na secção Forum do Festival de Berlim.

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A última vez que tínhamos ouvido falar de Hugo Vieira da Silva (n. 1974), foi em 2011, quando mostrou a sua segunda longa-metragem, Swans, rodada entre o seu Portugal natal e a Alemanha onde a acção se desenrolava, na secção paralela Forum do Festival de Berlim. Cinco anos depois, reencontramos Vieira da Silva nessa mesma secção com o sucessor de Swans – Posto Avançado do Progresso, adaptação livre de um conto escrito em 1897 pelo polaco naturalizado britânico Joseph Conrad (autor de Lord Jim e de No Coração das Trevas, que deu origem a Apocalypse Now).

Os cinco anos de intervalo entre filmes correspondem ao “rosário do financiamento”, como explica o cineasta portuense por Skype de Viena de Áustria, onde vive desde 2005 e está a dar os últimos toques na pós-produção. “É o tempo que um filme demora a ser financiado e preparado. E um filme rodado em Angola exigiu mais investigação e preparação do que o normal.” Produzido por Paulo Branco (já responsável por Body Rice, a primeira longa de 2006), Posto Avançado do Progresso foi rodado em condições exigentes na floresta tropical de Angola, na zona do Rio Congo para onde Vieira da Silva transplantou o conto de Conrad, com o director de fotografia argentino Fernando Lockett (habitual cúmplice de Matías Piñeiro) e os actores portugueses Nuno Lopes e Ivo Alexandre.

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O novo projecto, à partida, parece nada ter a ver com as histórias de alienação adolescente urbana de Body Rice e Swans. Mas, na verdade, tem tudo a ver com o percurso “desterritorializado” de Hugo Vieira da Silva, há 12 anos a viver fora de Portugal. Essa ausência permitiu-lhe olhar de modo diferente o país natal, ao mesmo tempo que reflecte o seu fascínio pela inscrição de um corpo físico em territórios alheios. ”Quando uma pessoa vive fora, faz reflectir a questão da identidade, da diferença entre a cultura de onde vens e a cultura onde vives,” explica o realizador. “Essa distância faz-te pensar o que poderia ser, o que és, o que não és. E foi muito evidente para mim que a questão colonial é decisiva em Portugal. Entre muitas outras definições possíveis, o facto de termos sido durante 500 anos uma potência colonial está muito fossilizado, integrado.”

Por isso, olhar para uma aventura colonial no hoje esquecido Reino do Congo (região da África Ocidental Central hoje partilhada entre Angola, Congo e Gabão) é também uma maneira de reflectir e falar sobre choques e diferenças culturais. “É uma questão com que me confronto diariamente,” como diz Hugo Vieira da Silva, “muito embora já viva na Áustria há tantos anos. Ao início, há uma ilusão de semelhança que está aliás na base do projecto europeu – somos europeus, vimos as mesmas coisas. Mas cada vez estou mais convencido que as diferenças são profundíssimas. Há muitas coisas que nos separam. A euforia da globalização tapou um bocadinho a ideia de que as pessoas são de facto diferentes, mexem-se de forma diferente, são educadas de forma diferente.”

Se Body Rice funcionava numa lógica inteiramente não-narrativa, quase performativa, e Swans a cruzava com uma história mais “construída”, o novo filme parte de uma linha narrativa mais tradicional. “A dinâmica narrativa do Conrad é bastante forte e gostei que existisse essa estrutura para me permitir encontrar o meu espaço. Deu-me imenso prazer estar alicerçado nessa máquina narrativa, ver como é que eu poderia jogar com isso. O filme tem um lado irónico no modo como joga com a própria história do cinema e o filme de aventuras, há um prazer de trabalhar com os elementos típicos do cinema mas usados de determinada maneira, abrindo espaço para um distanciamento.” A ideia foi devolver a presença do outro – “na prática, como em qualquer colonialismo, há uma falta de percepção do outro, uma invisibilidade que fez desaparecer muita coisa. O Reino do Congo é um território completamente esquecido que quase desapareceu da história portuguesa – e a mim também me interessou por causa disso.”

Daí que Vieira da Silva descreva Posto Avançado do Progresso como um filme sobre os mal-entendidos como base de uma relação cultural, algo que era já sugerido em Body Rice e Swans. “Os filmes são sedimentos, têm relações uns com os outros e vão recuperando coisas uns dos outros. Não os consigo separar, e em conversas com as pessoas parece que estou sempre a ver as mesmas questões a emergir mas de formas diferentes. É uma procura, uma tentativa de me posicionar, de perceber onde estou”.