Câmara do Porto acusa TAP de obrigar a trânsito três milhões de passageiros

No portal de notícias da autarquia, Rui Moreira volta a analisar dados recolhidos em documentos oficiais da própria empresa e em relatórios da Autoridade Nacional de Aviação Civil e ANA.

Fernando Pinto, que vai manter-se na liderança da TAP até à privatização, apelou ontem ao "bom senso" dos sindicatos
Foto
Fernando Pinto vai continuar à frente da comissão executiva da TAP, agora com gestão privada rui gaudêncio

O presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, volta a divulgar números relativos à gestão da TAP, mostrando que não está disposto a dar tréguas naquela que assumiu como sendo uma batalha pela defesa do aeroporto Francisco Sá Carneiro e da importância da região Norte. Agora que já é conhecida a decisão do governo em matéria de reversão da transportadora – em que o Estado fica com 50% do capital, mas a gestão permanece privada – Rui Moreira, nesta segunda-feira, acusou o Governo de ter transformado a TAP numa Parceria Público-Privada, numa crónica publicada no Correio da Manhã.

Esta segunda feira, num longo texto publicado no portal de Notícias do Porto, a autarquia caracteriza com números como tem vindo a ser a presença da transportadora aérea nacional no aeroporto Francisco Sá Carneiro, nos últimos dez anos, numa tentativa de demonstrar que a TAP não tem nenhuma base, nem hub secundário no aeroporto do Porto, e que estas decisões não começaram, sequer, com o arranque da gestão privada da empresa. No léxico da aviação civil, um "hub" é a plataforma giratória de uma companhia aérea, onde esta faz transbordo de passageiros e alimenta um grande número de ligações directas a outros destinos.

A Câmara do Porto tenta demonstrar que todos os esforços da transportadora aérea tem vindo a ser canalizados para o seu hub, em Lisboa, acusando-a de “obrigar” a escalar na Portela cerca de três milhões de passageiros que estão em trânsito. Segundo os cálculos da autarquia, dos mais de dez milhões que a TAP transportou de e para o aeroporto e Lisboa “mais de três milhões são passageiros em trânsito, que não querem ir a Lisboa, mas que são obrigados a escalar na Portela”. “Muitos deles têm como destino o Porto e enchem os 49 voos semanais da companhia portuguesa para a Invicta, bem como os 21 da Ryanair, que elevam para 70 o número de voos semanais regulares entre as duas cidades. Ou seja, entre o hub e o aeroporto em que a TAP desinveste e que, na verdade, serve apenas para alimentar o hub”, acusa a autarquia.

Analisando dados recolhidos em documentos oficiais da própria empresa e em relatórios da Autoridade Nacional de Aviação Civil e ANA, a Câmara do Porto recorda que existem actualmente 16 rotas exploradas pela TAP a partir do Porto e que, com o desaparecimento das quatro já anunciadas para Roma, Milão, Barcelona e Bruxelas,  ficarão apenas 12, contra perto de uma centena a partir de Lisboa. “Contudo, mesmo entre essas 12 rotas, a principal frequência de voos a partir do Porto será para Lisboa, que já actualmente é o principal destino dos voos da companhia nacional, com uma frequência de 49 ligações semanais a partir da Invicta”.

O segundo destino com mais voos semanais da TAP a partir do Porto é Paris, com 28 (quatro voos diários) e o terceiro é Madrid, com 18. “Os voos intercontinentais a partir do Porto são cada vez menos e em 2015 a TAP descontinuou a ligação a Caracas, estando a reduzir para dois o número de voos semanais para Newark, Rio de Janeiro e São Paulo, os que sobram”, escreve a autarquia. E acrescenta que, em simultâneo, a TAP anunciou uma nova rota, entre Vigo e Lisboa, o seu hub, acusando-a uma “vontade objectiva de concentrar os passageiros em Lisboa, já que a cidade galega se encontra no chamado hinterland (zona de captação) do Aeroporto do Porto”.

No longo texto hoje publicado, o autarca questiona se uma companhia aérea nacional, detida por dinheiros públicos (antes a 100%, depois a 39% e, desde esta semana, a 50%)  pode "usá-los para aplicar uma estratégia puramente comercial no interesse do seu outro acionista privado?". "Pode uma empresa pública ser usada contra uma região e a favor de outra? Não será do interesse nacional o melhor aproveitamento dos recursos que existem, independentemente de estarem ou não na capital?", questiona.