Editorial

A filosofia e António Costa

O poeta alemão Hans Magnus Enzensberger, já a caminho dos 90 anos, diz que o discurso do “Não há alternativa” é um insulto à razão. No contexto da crise europeia, “dizer ‘Não há alternativa’ é como dizer que é proibido pensar. Não é um argumento, é uma desistência, uma capitulação.”

Roubamos a citação ao prólogo de Josep Ramoneda, que abre o novo livro do filósofo político Daniel Innenarity, La Política en Tiempos de Indignación, editado em Espanha no fim do ano passado.

Em teoria, e quando é perguntado “o que é a política?”, todos sabemos que a política é sempre a escolha entre uma coisa má e uma coisa muito pior — e, por isso, o pensador espanhol acrescenta que a decepção fará sempre parte da política.

Na prática, no entanto, quando analisamos a nossa política, aquela que nos diz directamente respeito, esquecemos os conceitos e a racionalidade, e aplicamos o critério razoavelmente estéril do “avança e recua”, que pouco ou nada contribui para ajudar a compreender o que se passa à nossa volta.

O país passou duas semanas a dizer que o novo Governo não tinha hipótese de fazer passar o seu (primeiro) Orçamento do Estado porque “quem manda é Bruxelas” e as agências de rating. Agora que António Costa e Mário Centeno conseguiram fazer passar o orçamento em Bruxelas, a análise passou a ter uma nova estrutura: o ponto de partida, que é medir o grau de derrota do Governo, na sofisticada lógica que diz que quem cede é fraco; e o ponto de chegada, que é caracterizar este orçamento como um objecto esquisito, porque é o resultado de muitas negociações e, por isso, distante das intenções originais do PS.

Vale a pena perguntar: alguém acreditava que o draft de Orçamento entregue pelo Governo há uma semana seria o novo Orçamento do Estado de Portugal sem tirar nem pôr? Ficámos todos subitamente infantis?

Há dois mil anos, Cícero identificou duas das principais qualidades de um líder político: a moderação e a capacidade de acreditar que “o compromisso é fundamental para conseguir resolver as coisas”.

António Costa mostrou que havia alternativa, que vale a pena questionar as certezas e que sabe negociar. Ter tido luz verde em Bruxelas não faz de Costa um grande líder. Mas faz de Costa um político, por oposição aos zombies homo economicus, para usar a imagem do filósofo Jurgen Habermas que descreve assim os principais dirigentes europeus. Moscovici deixou o aviso: “Estaremos muito atentos [a Portugal].” E Costa, este sábado, já respondeu: “O cenário macroeconómico feito pelos 12 economistas é para uma legislatura”. Ou seja, não vai desistir.