Uma maré humana em fuga de Alepo amontoa-se às portas fechadas da Turquia

Governo de Ancara montou campos temporários com abrigos e alimentos para as populações que fogem da batalha de Alepo, mas manteve a fronteira fechada.

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Fotos: Bulent Kilic/AFP
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O cerco das forças governamentais a Alepo ameaça precipitar uma nova crise humanitária na Síria, com cerca de 400 mil habitantes em risco, encurralados dentro da cidade que era o principal centro comercial e financeiro do país antes do início da guerra, e dezenas de milhares de pessoas em fuga, a pé, numa marcha até à fronteira turca onde se concentram já mais de 70 mil refugiados.

A Turquia, onde já se encontram 2,5 milhões de refugiados sírios, não deu autorização de entrada a este novo contingente de sírios desesperados por fugir do conflito, que tomou conta do território de Alepo. Em campos temporários para refugiados, instalados de urgência juntos dos principais postos fronteiriços pelo Governo de Ancara e várias organizações internacionais, foram albergadas mais de 70 mil pessoas – um número que pode facilmente duplicar se o actual fluxo, que vê chegar cerca de 35 mil pessoas por dia, se mantiver constante. Mas a expectativa é que, à medida que o combate endurece, o movimento das populações aumente exponencialmente.

O primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu, garantiu que os refugiados sírios não ficariam sem abrigo ou alimentação, mas nada disse sobre a abertura da fronteira ou o processo de acolhimento no seu país. Em Amesterdão, os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia, reunidos numa cimeira informal, pediram a Ancara para abrir a fronteira à passagem dos refugiados, lembrando que o acordo de cooperação assinado com a Turquia visava garantir, precisamente, o acolhimento e protecção das populações sírias deslocadas pela guerra.

O governador da provincial turca de Kilis, Suleyman Tapsiz, disse à Associated Press que o posto de Oncupinar permaneceria fechado pelo segundo dia consecutivo, mas garantiu que eram as autoridades turcas quem estavam a acudir aos cerca de 35 mil sírios concentrados no outro lado da fronteira, em Bab al-Salam. “Foram instalados campos para abrigar estas pessoas, e de momento não vemos necessidade de elas entraram no nosso país”, disse o mesmo responsável, que estimou que a passagem seria aberta no caso de uma “crise extraordinária”, cujos contornos se escusou de descrever.

O assessor do secretário-geral das Nações Unidas disse que no campo provisório de Afrin entraram 10 mil refugiados na sexta-feira, e que mais cinco mil pessoas tinham chegado à localidade de Azaz, nos arredores de Alepo, “empurradas” pelo avanço das tropas do Governo. Farhan Haq repetiu o alerta da ONU para as dificuldades de transportes e comunicações resultantes da intensificação dos combates, que impedem as organizações internacionais de prestar assistência local e tornam ainda mais perigosos os fluxos de refugiados.

A Reuters falou com Muhammed Idris, um habitante que deixou Azaz com medo da aproximação das tropas sírias, e esperava há quatro dias pela oportunidade de entrar na Turquia. “Ouvimos o [Presidente turco] Recep Tayyip Erdogan dizer na televisão que sírios e turcos eram irmãos. A nossa casa foi destruída e por isso viemos para a dele, para onde mais iríamos? Mas ele fecha-nos a porta”, lamentava.

Com metade da população deslocada dentro do país ou no estrangeiro, a província de Alepo era, actualmente, a mais populosa da Síria. A nova ofensiva governamental gerou o pânico: além do avanço do Exército, apoiado por combatentes de Hezbollah e outras milícias xiitas iranianas, a população foge dos ataques da aviação russa – e da perspectiva de um cerco prolongado como o de Madaya, onde dezenas de crianças e idosos morreram de fome.

O Exército sírio já conseguiu cortar as linhas de abastecimento a Alepo, parcialmente destruída depois de três anos de confrontos e meses de bombardeamentos. “A situação humanitária é catastrófica. A população está desabastecida de comida ou energia, o auxílio da comunidade internacional é urgente e crucial”, dizia um porta-voz da oposição citado pela agência independente curda ARA News.

Além do apoio humanitário, os grupos que compõem o chamado Exército Livre da Síria, que combate o regime de Bashar al-Assad, reclamam apoio militar e logístico aos seus aliados, principalmente os Estados Unidos e a Arábia Saudita. “Sustentados nos bombardeamentos russos, os soldados do Governo conseguiram capturar a localidade de Ratyan, ao fim de dias de confronto com a Frente do Levante”, confirmou Saleh Zein, um dos porta-vozes dos rebeldes na região.

Ratyan foi a terceira grande perda em menos de uma semana para as forças rebeldes moderadas, que ultrapassadas na sua capacidade foram obrigadas à retirada. Perante a anulação da sua vantagem no terreno, a Arábia Saudita e o Bahrain mostraram-se disponíveis para mobilizar tropas e participar em acções terrestres na Síria, desde que fossem comandadas pelos EUA: em Damasco, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Walid al-Moualem garantiu que “todos os que violarem as fronteiras sírias serão deportados para os seus países em caixões”.

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