PAUS: mais juntos do que nunca

É um disco físico e rítmico, mas também com espaço e vozes, muitas vozes, num álbum onde os PAUS se colocam em causa, ao mesmo tempo que desafiam o formato canção. Mitra sai a 12 de Fevereiro.

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“É a fome que nos une / É a sede que nos junta”, ouve-se em Pela boca, canção de abertura de Mitra, o novo álbum dos PAUS. Talvez seja a necessidade que os une, como eles parecem cantar, mas existe algo mais indefinível, uma ideia de comunhão, de colectivo ou de ritual, que se sente também nos concertos. “People com people / À volta da mesa / A vazar garrafas”, insistem eles na canção Mó people.

“A maior parte das bandas acaba na estrada, em digressão, em viagens. É aí que a maior parte dos conflitos irrompe. No nosso caso, foi na estrada, que percebemos que nos superamos e nos damos bem”, diz Hélio Morais. Talvez seja isso. Podem ter sido muitas horas a andar de avião ou de carrinha pela Europa fora nos últimos anos. Ou o facto de agora terem um estúdio próprio (HAUS) em Lisboa, que é também espaço de cooperação. Seja lá o que for, a verdade é que o conceito PAUS, nascido por acidente em 2008, é hoje uma verdadeira banda. E sente-se que estão mais juntos do que nunca.

O seu último álbum, Clarão (2014), dividiu opiniões, depois de um primeiro disco homónimo, em 2011, mais consensual. A obra lançada há dois anos era matéria em bruto, à flor da pele, a ferver. Houve quem achasse que era obra de difícil assimilação. Não foi o nosso caso. Era um disco de neo-rock tocado como se fosse de tecno, com qualquer coisa de primitivo, mas em simultâneo de rigoroso. O novo Mitra não se afasta desse ideário, mas o balanceamento rítmico é mais lento e pronunciando, e existe uma estrutura que não é de canção clássica, mas que se aproxima desse padrão. Poderá haver quem ache que domesticaram a sua sonoridade. Errado. É isso sim mais inteligível.

A música, como as palavras, são emocionais, fazendo confluir melodias, ritmos  e vozes para um corpo sonoro mais focado e envolvente do que no passado recente do grupo. É uma música que não segue modelos precisos, mas que desta vez é organizada de maneira mais elaborada, congregando elementos dispersos resgatados às mais diversas famílias (rock, hip-hop, tecno, dub, psicadelismos, jazz) seguindo o seu próprio desígnio.

Para isso poderá ter contribuído o facto de terem trabalhado no seu novo espaço, o HAUS, à Rua da Bica do Sapato, perto da estação de comboios de Santa Apolónia, em Lisboa. Um lugar que é simultaneamente estúdio de gravação e três salas de ensaio – duas delas ocupadas pelos Linda Martini e You Can’t Win Charlie Brown, e uma terceira disponível para outros grupos. “Podermos gravar aqui acima de tudo cria outro tipo de dinâmica, até pelo facto de termos à volta os Linda Martini e os Charlie Brown, que também vão lançando as suas opiniões e esse diálogo e convívio acaba por ser saudável”, diz Hélio. 

Para além de Hélio (bateria, também dos Linda Martini), o grupo é constituído por Joaquim Albergaria (bateria, ex-Vicious 5), Makoto Yagyu (teclas, também dos Riding Panico e If Lucy Fell) e Fábio Jevelim (teclas, também dos Riding Pânico ou Men Eater). As vozes e as letras são assinadas por todos. “Somos uma banda totalmente democrática”, justifica Albergaria. No caso das letras é por norma ele que surge com um esboço, para depois os restantes sugerirem alterações ou adicionarem novas ideias.

Até agora o grupo fazia coexistir o momento da composição com o da gravação, sem grandes preparações prévias. Desta feita não foi muito diferente, embora existissem algumas ideias que foram alinhadas durante a digressão que acabaram por ser aproveitadas. “Por vezes, naqueles momentos de aborrecimento na estrada, quando estamos a fazer ensaio de som, apetece-nos fazer música”, revela Fábio, “e foi assim que nasceram alguns elementos de esqueleto de músicas, no Luxemburgo ou em Itália.”

Havia também alguns rabiscos de ritmos e o grupo partiu daí, “mas o processo de gravação e composição foi semelhante e acabámos por fazer nove instrumentais em três semanas”, conta Albergaria. “Depois, com as vozes, é que demoramos mais”, recorda Hélio, “talvez porque percebemos que elas iriam ser muito importantes neste disco.”

Até aqui as vozes não estavam entre as preocupações principais. Desta vez foi diferente. “A estrutura dos temas estava próximo da canção e percebemos que tínhamos de levantar a bitola nas vozes”, justifica Albergaria. “Antes era como se as vozes estivessem em fundo. Aqui o desafio – e era mesmo disso que se tratava – era coloca-las à frente. O desafio foi tal que acabámos por fazer duas ou três versões de voz e letra para cada tema. Fomos testando durante dois meses o que foi positivo, porque nos pôs a pensar.”

Incorporar tudo à volta
A predominância vocal é um facto. O que não significa que se tenham tornado num grupo de canções. A voz, no seu caso, ajusta-se ao som, parece criar também ela uma actividade rítmica. É performance. É importante o que é dito, mas ainda mais relevante é a forma impactante como é dito. “O desafio foi fazer qualquer coisa que ainda não havíamos levado a novos limites. De que forma poderíamos ir a um sítio onde ainda não tínhamos estado”, foi esse o desafio diz Albergaria. “Nesse sentido, este foi o disco mais consciente e contextualizado, não necessariamente pensado, dos que já fizemos.”

Fábio acrescenta: “Em algumas bandas as letras têm uma presença mais lírica. Nos Linda Martini, por exemplo, sinto isso de alguma maneira. No nosso caso a linguagem é mais imediata e na cara.” “Não somos muito verborreicos. Interessa-nos a eficácia, o sincretismo. Se é para comunicar que seja sem grandes gorduras”, completa Makoto.

Foi um disco que começou a ser imaginado entre viagens. “Em digressão, na carrinha, ouvimos imenso hip-hop – embora se eu disser que este disco é influenciado por hip-hop ninguém acredita – e de forma inconsciente isso foi ficando, nem que seja pela maneira como os temas ritmicamente ficaram mais lentos. As músicas são mais despidas, há mais espaço, e também mais espaço para as vozes”, reflecte Hélio.

Para além das vozes o que gerou conversa entre os quatro, foi a adopção da designação Mitra para identificar o disco. “Essa discussão democrática levou-nos a interrogar que tipo de banda somos e o que estamos a fazer”, diz Albergaria. “Nunca tínhamos parado para pensar nisso. Concluímos que não conseguimos encontrar uma prateleira para nós. Tanto vamos ao rock, como procuramos formas de operar da música electrónica. Estamos tão preocupados com o lado imediato do hip-hop, como podemos reflectir um certo lado de recuperação de música tradicional portuguesa. Não pertencemos a lado nenhum. Não estamos comprometidos. Estamos em diferentes sítios que podem parecer incompatíveis. Da mesma forma, um mitra não pertence bem aqui. Mas existe e é. Há dificuldade em defini-lo. Pode ser imensa coisa. E esse lado plural seduz-nos.”

Para alguns grupos a mudança pode ser vivida em conflito. No caso deles, argumenta Fábio, essa abertura permite-lhes encetar transformações que acabam por resultar naturais. É como se a sonoridade tivesse a capacidade de assimilar tudo à volta, transformando-se nesse processo, mas sem perder as características nucleares. “Quando se tem uma identidade muito rígida as transformações podem chocar. No nosso caso existe essa facilidade de incorporar o que nos apetece. Neste momento, por exemplo, estou a ouvir muito dub e consigo por lá uns teclados nessa linha, sem que a música soe a reggae ou dub. Existe espaço de liberdade, porque a música o permite.”

Nos primeiros anos de vida a sua identidade estava alicerçada no jogo dinâmico entre duas baterias. Até cenicamente o grupo alimentava isso, destacando os dois bateristas. Hoje ainda se mantem esse apelo, mas essa singularidade diluiu-se entretanto. A música continua a ser física, mas a dimensão espacial foi ganhando terreno também. Não espanta que, internacionalmente, quando se procura pontos de ligação para os identificar sejam colocados no caldeirão do math-rock, do pós-rock ou do pós-hardcore.

“Em países como a França somos math-rock e na Holanda há mais referência a coisas psicadélicas ou bandas como os Health”, diz Hélio, acrescentando Albergaria: “Na Holanda aparecem nos nossos concertos velhotes do rock progressivo o que também poderá fazer sentido.” A verdade é que a música do quarteto dá azo às mais diversas interpretações, perceptível também nos festivais onde já tocaram e do tipo de alinhamentos dos quais fazem parte. “Já aconteceu estarmos a tocar no mesmo palco com a Courtney Barnett, como com Thee Oh Sees. É uma misturada, embora nunca tenha sentido que nos põem a tocar em festivais que não fazem sentido”, diz Fábio.

No recente festival Eurosonic da Holanda, a maior conferencia europeia da indústria da música, quando se falava com alguém sobre grupos portugueses o desconhecimento era a nota dominante, com algumas raras excepções, como os Buraka Som Sistema e PAUS. Em parte, consequência de o grupo já ali ter tocado, mas também devido aos últimos anos de concertos um pouco por toda a Europa. “O Eurosonic foi importante porque ficamos numa lista dos 10 melhores concertos e isso deu-nos visibilidade, o que nos permitiu marcar uma série de outras datas na Holanda”, conta Hélio, para quem o festival – que no próximo ano vai ter Portugal em destaque – é uma montra europeia mais importante que o South By Southwest de Austin nos EUA, onde também já tocaram.

Para os próximos meses já existem datas marcadas para França, Holanda ou Bélgica, mas os três primeiros concertos de apresentação do novo disco serão em Portugal, no cinema São Jorge de Lisboa (12 Fevereiro), Teatro Académico Gil Vicente de Coimbra (13 Fevereiro) e Centro Cultural Vila Flor de Guimarães (19 Fevereiro). Antes desses concertos – esta sexta-feira, dia 5 – vinte leitores do PÚBLICO irão poder ouvir em primeira mão as novas canções tocadas pelo grupo, no estúdio onde foram registadas.

“Tocar é sempre bom, seja em Portugal ou fora daqui”, diz Albergaria, “desafia-nos enquanto banda e dá-nos uma visão mais ampla das coisas.” E Hélio reforça, pensando no investimento que representa tocar na Europa segundo uma lógica que por vezes é cansativa: “tocar 2 ou 3 concertos, numa lógica de ir e vir, nem sempre é perfeito, longe disso, mas é uma questão de insistência, não desistir, sabendo que da próxima vez já tocaremos em melhores salas. Não é fácil, mas é possível. Estamos juntos nessa tarefa.”