Tchékhov, Brian Eno e Anish Kapoor também dançam na sexta edição do GUIdance

Victor Hugo Pontes abre e Anne Teresa de Keersmaeker fecha a sexta edição do festival.

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Kaash, de Akram Khan

Um Tchékhov sem texto, um álbum de Brian Eno, uma escultura de Anish Kapoor. Pode não parecer, mas estamos a falar de um festival de dança contemporânea. Talvez isso se torne mais evidente se acrescentarmos os nomes dos coreógrafos que estão por trás da imprevista chegada de Tchékhov, Eno e Kapoor ao palco do Centro Cultural Vila Flor (CCVF): Victor Hugo Pontes, Anne Teresa de Keersmaeker e Akram Khan, respectivamente. A partir desta quinta-feira, e durante duas semanas, Guimarães põe a dança a dialogar com as demais disciplinas artísticas na sexta edição do GUIdance.

O espectáculo de abertura do festival (dia 4, CCVF, 22h) é paradigmático desta opção de programação. Victor Hugo Pontes estreia Se alguma vez precisares da minha vida, vem e toma-a, que parte da peça A Gaivota, de Anton Tchékhov, mas lhe retira o texto, ali deixando apenas os corpos e o movimento. O teatro e a dança em disputa pelo lugar que cada um pode ocupar em palco é uma inquietação que se repete, por exemplo, em Parede, da Útero (Plataforma das Artes e da Criatividade, dia 10, 22h), ou no espectáculo de encerramento (dia 13, CCVF, 22h) Golden hours (as you like it). Ali, Anne Teresa de Keersmaeker cruza Como Queiram, de Shakespeare, com o álbum Golden Hours, de Brian Eno – justificando o duplo título da peça.

Haverá outros cruzamentos da dança com a escultura, a música, a fotografia e o desenho nas várias propostas do festival. Este diálogo entre disciplinas artísticas “pode contribuir para que o público tenha um maior entendimento do enorme potencial de criação da dança, que é capaz de absorver e transportar para o palco diversas influências”, resume o director artístico do GUIdance, Rui Torrinha, justificando assim a opção programática da sexta edição do festival.

Em relação aos anos anteriores, mantém-se um equilíbrio entre a atenção que é dada à nova criação nacional com as escolhas de Hu(R)mano, de Marco da Silva Ferreira (dia 5, CCVF, 22h) e Nevoeiro, de Luís Guerra (dia 13, PAC, 19h), e a as propostas internacionais, que desta feita incluem Hyperfruit, de Ludvig Daae (dia 6, PAC, 19h), e Je Danse parce que je méfie des mots, de Kaori Ito (dia 12, CCVF, 22h).

Existe, porém, uma linha que se inaugura este ano no GUIdance e que Rui Torrinha quer explorar nas próximas edições: a apresentação de peças de repertório. “Vivemos um tempo de vertigem, em que as acções se sucedem e, por vezes, não temos tempo para ter a noção do que foi o trajecto da companhia ou qual a dimensão do momento que estamos a viver, para podemos entender as peças que nos são apresentadas”, defende o director do festival.

A exploração da memória da dança contemporânea vai tornar-se mais evidente na segunda semana do festival, que arranca com duas peças estreadas em 2002 e que agora regressam aos palcos. Primeiro, na quarta-feira, dia 10, com a remontagem de Parede, um espectáculo marcante na viragem da Útero para a dança – a companhia apresenta também no festival a sua mais recente criação, Maremoto, dirigida por Miguel Moreira e interpretada por André Cabral e Gonçalo Cabral 1(dia 6, CCVF, 22h). Depois, com Kaash, espectáculo que catapultou Akram Khan para o centro da cena internacional (dia 11, CCVF, 22h). Nenhum dos espectáculos se afasta, porém, da linha forte da programação do GUIdance deste ano: Parede parte de um texto de Ana Vicente; Kaash é fruto da colaboração com o compositor Nitin Sawhney e com o artista plástico Anish Kapoor.

Esta é a sexta edição do Guidance, que nasceu num contexto em que a dança contemporânea tinha praticamente desaparecido da programação regular no Norte do país. Guimarães ocupou então esse espaço, mas, nos últimos anos, teve de confrontar-se com um regresso em força do Teatro Municipal Rivoli, no Porto, ao mesmo tempo que, em Braga, o Theatro Circo, também inaugurou um ciclo de dança. O movimento é “muito positivo” porque “alarga a malha de influência da dança” e cria mais palcos em que os criadores se podem apresentar, avalia Torrinha. Quanto ao festival vimaranense, a emergência da concorrência não provocou grandes alterações no projecto, assegura: “Agora sentimos que não estamos isolados nessa aposta."