Empresários José Veiga e Paulo Santana Lopes detidos

Polícia Judiciária investiga suspeitas de corrupção e fraude fiscal. Uma advogada portuguesa também foi detida.

José Veiga é sobretudo conhecido pelas suas ligações ao futebol
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José Veiga é sobretudo conhecido pelas suas ligações ao futebol Miguel Manso

A Polícia Judiciária (PJ) deteve nesta quarta-feira os empresários José Veiga e Paulo Santana Lopes, irmão do ex-primeiro-ministro e actual provedor da Santa Casa da Misericórdia, por crimes de fraude fiscal e corrupção no comércio internacional, informou a polícia em comunicado. Uma advogada portuguesa também foi detida na operação a que a PJ chamou Rota do Atlântico.

Segundo a Polícia Judiciária, em causa estão suspeitas de corrupção no comércio internacional, branqueamento de capitais, tráfico de influências, participação económica em negócio e fraude fiscal. Ao todo, a Unidade Nacional de Combate à Corrupção da PJ realizou 35 buscas nas zonas de Lisboa, Braga e Fátima, tendo estado envolvidos cerca de 120 elementos da PJ e dez magistrados do Ministério Público (MP). A investigação a este caso teve início em 2014.

“Os detidos actuavam no âmbito da celebração de contratos de fornecimentos de bens e serviços relacionados com obras públicas, construção civil e venda de produtos petrolíferos, entre diversas entidades privadas e estatais”, diz o comunicado da PJ. “Os proventos gerados com esta actividade eram utilizados na aquisição de imóveis, veículos de gama alta, sociedades não residentes e outros negócios, utilizando para o efeito pessoas com conhecimentos especiais e colocadas em lugares privilegiados, ocultando a origem do dinheiro e integrando-o na actividade económica lícita.”

Na operação, conduzida no âmbito de um inquérito-crime que corre termos no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) do MP, foram apreendidos vários imóveis, veículos automóveis de gama alta e saldos bancários. Os detidos, com idades entre os 53 e os 57 anos, vão ser sujeitos a primeiro interrogatório judicial para eventual aplicação de medidas de coacção.

A Procuradoria-Geral da República também emitiu um comunicado sobre esta operação, destacando que "estão também indiciadas suspeitas da prática dos crimes de tráfico de influência e de participação económica em negócio na compra e venda de acções de uma instituição financeira estrangeira, acções essas detidas por instituição de crédito nacional. "Investiga-se igualmente a origem de fundos movimentados noutros negócios em que são intervenientes os suspeitos, nomeadamente, a celebração de contratos de fornecimento de bens e serviços, obras públicas e venda de produtos petrolíferos", acrescenta o comunicado da PGR, salientando que "a investigação tem dimensão internacional, apresentando ligações com os continentes europeu, africano e americano".

Veiga, do futebol a África
O empresário José Veiga, de 53 anos, é sobretudo conhecido pelas suas ligações ao futebol, tendo intermediado na década de 1990 várias transferências de alguns dos principais futebolistas portugueses. Pintor de automóveis no Luxemburgo, fundou a Casa do FC Porto naquele país, o que acabou por lhe abrir portas no mundo do futebol.

Depois de ter trabalhado com Joaquim Oliveira, José Veiga fundou a sua própria empresa de representação de jogadores (Superfute) e saltou para a ribalta em meados dos anos 1990, altura em que intermediou as transferências de alguns dos principais jogadores portugueses como Paulo Sousa (para a Juventus), Sérgio Conceição (para a Lazio) e Luís Figo (para o Barcelona). Foi ainda representante de futebolistas como Fernando Couto, Nuno Gomes, Jardel, Simão Sabrosa e João Pinto.

Veiga esteve envolvido na transferência de João Pinto do Benfica para o Sporting em 2000, um caso que lhe valeu inicialmente uma condenação por fraude fiscal e branqueamento de capitais, que seria posteriormente anulada pelo Tribunal da Relação.

Depois da sua fase áurea como empresário de jogadores, em que viria a perder espaço para Jorge Mendes (empresário de Cristiano Ronaldo), José Veiga dedicou-se ao dirigismo. Foi accionista da SAD do Estoril e assumiu em 2004 o lugar de director-geral do Benfica, trabalhando directamente com Luís Filipe Vieira. Saiu em 2006 por causa de processos judiciais; ainda voltaria a colaborar com o Benfica em 2007, altura em que se afastou do futebol.

Veiga dedicou-se depois a outras áreas de negócio, particularmente em África. Na última lista revelada pela Autoridade Tributária, a 2 de Fevereiro deste ano, consta como um dos principais devedores ao fisco, com uma dívida entre 250 mil e um milhão de euros.

Já Paulo Santana Lopes, também empresário, foi gestor de uma sociedade imobiliária ligada ao BPN e tem participações em várias empresas ligadas, por exemplo, aos sectores da mediação imobiliária, organização de eventos e comercialização de produtos alimentares.