Goulão diz que há “enorme complacência social” em relação à cannabis

Coordenador Nacional para os Problemas da Droga, das Toxicodependências e do Uso Nocivo do Álcool esteve esta quarta-feira no Parlamento.

João Goulão considera que mudanças previstas não alteram "essencial da intervenção"
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João Goulão considera que mudanças previstas não alteram "essencial da intervenção" Daniel Rocha/ Arquivo

O coordenador Nacional para os Problemas da Droga, das Toxicodependências e do Uso Nocivo do Álcool, João Castel-Branco Goulão, alertou nesta quarta-feira para a “enorme complacência social” que existe em relação à cannabis, uma substância cada vez mais potente.

Perante a Comissão de Saúde, o médico apresentava Relatório anual sobre A situação do país em matéria de drogas e toxicodependências 2014, que confirma o predomínio daquela substância ilícita. Respondendo a uma questão levantada pelo Bloco de Esquerda sobre uso para fins recreativos, defendeu que Portugal foi “ao limite do paradigma proibicionista” e que agora tem que dar tempo.

“Encontrámos uma solução, admirada no mundo inteiro, de descriminalizar sem despenalizar. Temos todo o tempo para alicerçar as nossas escolhas à evidência científica” e “não devemos dar um salto em frente só porque é a altura ou para sermos modernos”, defendeu. O médico afiançou não ter qualquer “resistência mental” em relação à cannabis, mas sublinhou o risco que acarreta, sobretudo quando consumida de forma intensiva ou em associação com outras substâncias como o álcool ou as benzodiazepinas.  

A cannabis é a droga mais referida pelos novos utentes seguidos em ambulatório (49%). Segundo um estudo realizado  pelo Flash Eurobarometer – Young People and drugs - em 2014, é a droga ilícita a que os jovens portugueses atribuem em menor proporção um risco elevado para a saúde (34% para o consumo ocasional e 74% para o consumo regular de cannabis).

“Chamo a atenção de que há uma enorme complacência social em relação à cannabis”, declarou. “Chegou à nossa sociedade e o seu uso era residual, não era um fenómeno de massas. Depois transformou-se numa substância usada transgeracionalmente. As gerações mais velhas desvalorizaram o seu consumo, e o dos filhos, e dos netos. Toleram esse uso e é também intergeracional: podemos ver o avô, o filho e o neto a consumir alegremente o seu charro”, disse ainda.

Na sua opinião, alterar o contexto é difícil, mas “há progressos na percepção do risco”. É necessário agora perceber como minimizar os malefícios, se através de políticas reguladoras, medidas preventivas, ou outras. “Hoje há urgências, psicoses agudas e esquizofrenias desencadeadas por estes consumos”, alertou. com Lusa