Já ouviu falar do doping mecânico? É o novo escândalo no ciclismo

Jovem ciclista belga foi apanhada com motor na bicicleta.

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Femke van den Driessche, com a sua bicicleta na prova de sábado passado. Um dia depois, a UCI anunciou ter descoberto um pequeno motor escondido no quadro da bicicleta AFP/Belga

Depois de sucessivos escândalos de doping que mancharam a imagem da modalidade, o ciclismo volta agora a ser abalado por uma nova polémica: o doping mecânico ou tecnológico. Foi detectado um motor na bicicleta de uma ciclista belga que participou no fim-de-semana nos Mundiais de ciclocrosse, naquele que é o primeiro caso conhecido de doping mecânico em competições oficiais de ciclismo.

Ironicamente, Femke van den Driessche, a jovem em causa, desistiu da prova por causa de problemas mecânicos, mas os inspectores detectaram um pequeno motor (que pesa entre 500 e 600 gramas e custará cerca de 20 mil euros) escondido no tubo vertical do quadro da sua bicicleta. Um caso que pode apenas ser a ponta de um icebergue e que dá corpo às muitas suspeitas que foram surgindo nos últimos anos.

A belga, de 19 anos, negou ter conhecimento da batota e alegou que a bicicleta era de um amigo. “O meu amigo foi reconhecer o percurso e depois deixou a bicicleta, igual à minha, no camião da equipa. Um mecânico, pensando que era a minha, pegou nela e preparou-a para a minha prova”, justificou Van den Driessche, cujo irmão está suspenso por uso de eritropoietina, uma hormona que melhora o comportamento desportivo dos atletas.

Embora não saiba qual é a dimensão da fraude tecnológica no ciclismo, a reacção da União Ciclista Internacional (UCI) não se fez esperar. “Vamos testar mais bicicletas e mais regularmente”, afirmou Brian Cookson, líder da UCI. “A nossa mensagem para os que escolhem o caminho da batota é que vamos apanhá-los mais cedo ou mais tarde”, acrescentou, citado pela Reuters.

Cookson disse ainda que a UCI vai tentar novos métodos para detectar o doping mecânico, mas não deu detalhes. Actualmente, o organismo que gere o ciclismo mundial usa esporadicamente raios X ou desmonta as bicicletas na tentativa de encontrar ajudas ilegais aos ciclistas.

A Reuters explica que estes pequenos motores podem ser montados no quadro da bicicleta e ser ligados à roda traseira para permitirem um incremento de velocidade durante quatro ou cinco quilómetros. Uma pequena bateria pode ser facilmente activada com botões disfarçados no volante.

A utilização de motores nas bicicletas de ciclistas não é um tema exactamente novo, embora nunca tenha passado das suspeitas à confirmação. Em Março de 2015, um relatório de uma comissão de inquérito independente sobre ciclismo referia que “diversas tentativas de infracção ao regulamento técnico foram reportadas à comissão, incluindo o uso de motores escondidos nas bicicletas. Este problema é levado a sério, particularmente pelos melhores ciclistas, e não é descrito como um fenómeno isolado”.

A questão do doping mecânico surgiu mais a sério em 2010, quando as performances do suíço Fabian Cancellara na Volta à Flandres e na clássica Paris-Roubaix levantaram suspeitas – o ciclista sempre negou qualquer ilegalidade e nunca foi detectado nenhum sistema de ajuda.

Em 2014, o canadiano Ryder Hesjedal protagonizou um dos casos que levantaram mais suspeitas, quando, após uma queda na Volta à Espanha, a roda traseira da bicicleta continuou a rodar sozinha – mas uma análise à bicicleta nada revelou.

No ano passado, foi a vez de o espanhol Alberto Contador refutar alegações de que teria usado ajudas ilegais, depois de ter trocado de bicicleta antes de uma difícil subida na Volta à Itália. E o britânico Chris Froome também viu a sua bicicleta ser verificada durante o Tour do ano passado.

Froome, aliás, veio agora a público dizer que já tinha avisado as autoridades, depois de ter sabido de rumores sobre o uso de motores nas bicicletas. “É uma preocupação que já tinha e que levei à comissão independente da UCI: ‘Ouçam, do meu ponto de vista, há rumores e o meu conselho é que a UCI faça mais controlos e verifique mais frequentemente as bicicletas”, disse aos jornalistas na terça-feira.

O recurso ao doping tecnológico é punido, desde o ano passado, com uma suspensão mínima de seis meses e uma multa superior a 200 mil francos suíços (180 mil euros). No meio do ciclismo, há quem considere o doping mecânico ainda pior do que o recurso a substâncias ilícitas.

Eddy Merckx, vencedor de cinco edições da Volta à França, já veio pedir penalizações pesadas. “Para mim, têm de ser banidos. Pelo que vi na televisão, não foi a primeira vez que aconteceu. Isto é o pior que se pode fazer, é o mesmo que ir de moto", disse Merckx ao site Cyclingnews, depois de ter sabido do caso de Femke van den Driessche. “Para mim, é pior do que a dopagem [tradicional]. Proporciona-lhes mais 50 watts, ou até 100, depende. Isso não tem nada a ver com ciclismo, é motociclismo. Deveriam ir competir com o Valentino Rossi", argumentou.

O caso do fim-de-semana passado está a levantar enormes ondas de choque no ciclismo – até a empresa que fornece as bicicletas a Van den Driessche ameaçou processá-la – e pode ser apenas a ponta do icebergue. É que, segundo o jornal italiano La Gazzetta dello Sport, a tecnologia encontrada na bicicleta da jovem belga é já antiga. “A nova moda é o electromagnetismo”, escreveu o jornal na segunda-feira, citando um perito que solicitou o anonimato e que referiu a existência de rodas traseiras em carbono que custam 200 mil euros e escondem um sistema electromagnético que pode fornecer uma energia suplementar na ordem dos 20 a 60 watts.

A AFP acrescenta, por outro lado, que o doping mecânico pode ser mais fácil de combater do que a dopagem química, pelo menos nas provas mais importantes, com recurso a meios sofisticados de controlo – o antigo campeão Greg LeMond já sugeriu o uso de pistolas térmicas para detectar fontes de calor nas bicicletas.