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Megafone

Ser feio também é ser gente

Não é natural ser belo, emprega-se esforço na batalha, numa batalha contra nós mesmos, um pugilato contra a entropia, o envelhecimento, a falha, a imperfeição, a inevitabilidade da desgraça

Os melhores testemunhos são aqueles que não poupam na franqueza. Que não negam as suas próprias faltas, os seus próprios falhanços, sempre em nome de uma partilha maior. Numa explicação fiel ao que é ser um bicho humano. Porque, na verdade, e ao contrário do que encontramos derramado por essas redes sociais — e na vida em geral — ser belo não é ser humano. A luta pela beleza, aliás, é valorizada por isso mesmo: porque é uma luta. Não é natural ser belo, emprega-se esforço na batalha, numa batalha contra nós mesmos, um pugilato contra a entropia, o envelhecimento, a falha, a imperfeição, a inevitabilidade da desgraça.

Dizia eu que as melhores histórias são aquelas que preferem a honestidade face à beleza. Os exemplos são mais que muitos, mas aquele que se esbarrou contra os meus dias chama-se Karl Ove Knausgaard. Uma autobiografia com uma certa dose de ficção que não receia expôr aquilo que de mais feio pode haver na vida de um homem, sejam as bebedeiras compulsivas, as tendências quase pedófilas de um recém ex-adolescente ou até o quase-ódio perante um pai abusivo. E se também nós, nos hábitos quotidianos, deixássemos de lado as falsas vaidades e abraçássemos a inevitabilidade dos nossos lugares pantanosos?

Proponho, pois então, uma nova luta, por oposição àquela que travamos em favor do que é belo. Que seja a fealdade que nos caracteriza a nova rainha dos nossos dias, das nossas conversas, da nossa existência. Porque aceitar o que somos, sem reservas, é também uma batalha — provavelmente, bem mais dura do que aquela que combatemos com recurso a devaneios linguísticos muito próximos da aldrabice ou a semelhantes cremes anti-rugas. Quanto custa um abraço apertado a um defeito?

Melhor pergunta: qual é o benefício de se saber que o nosso semelhante guarda um defeito igual ou pior que o nosso? Tantos, tantos, tantos. Falar dos erros, das falhas, torna-nos mais próximos, mais humanos. Porque sempre nos ajuda a recordar que toda a carne sabe sangrar. Atrás de uns olhos bonitos há ideias erradas, debaixo dos penteados vistosos há passados sombrios. E nada há de mal nisso — muito pelo contrário. Especialmente se os fracassos e enganos forem colocados ao serviço do futuro: saber que erros foram cometidos para não os tornar a repetir; calcular o que se faria caso um determinado defeito se nos apresentasse desta ou daquela maneira.

Partilhar defeitos devia ser uma nova troca comercial, sem taxas. Falar, falar, falar. Porque o silêncio traz consigo o engodo, está castrado da libertação que nos faz mais falta. Sem receios, sem subterfúgios disfarçados de festarola. Porque o valor de se saber que, afinal, somos todos carne da mesma carne, matéria estelar da mesma matéria estelar, entrega-nos o suspiro de alívio, que nos garante que não somos, ao contrário do que julgávamos, extraterrestres. A publicidade enganosa, essa sim, devia ser pesadamente taxada.

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