Reino Unido autoriza edição genética de embriões humanos para investigação

Experiências só serão feitas até ao sétimo dia de desenvolvimento do embrião. Investigação pretende compreender fenómenos como a infertilidade ou os abortos espontâneos.

Embrião humano nos primeiros dias de desenvolvimento
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Embrião humano nos primeiros dias de desenvolvimento Reuters

O Reino Unido autorizou a edição genética de embriões humanos para a investigação científica, foi anunciado nesta segunda-feira. As experiências só serão feitas durante os primeiros sete dias de desenvolvimento dos embriões e está proibida a sua implantação no útero de mulheres. Os cientistas querem fazer estas experiências para compreender o desenvolvimento embrionário, assim como a razão da ocorrência dos abortos espontâneos.

Para a edição do ADN, vai ser utilizada a técnica recente de engenharia genética conhecida por Crispr-Cas9. Esta técnica utiliza uma espécie de tesoura molecular que permite aos cientistas cortar regiões específicas do ADN. A Cas9 é uma enzima que existe na bactéria “Streptococcus pyogenes”. Para a edição genética, os cientistas acoplam à Cas9 um bocadinho de ARN (molécula semelhante ao ADN) que tem a sequência certa para se ligar a uma porção específica da molécula de ADN.

Desta forma, o pedaço de ARN “cola-se” ao ADN que os cientistas escolheram, e a enzima Cas9 faz o trabalho de cortar esse pedaço de ADN. Deste modo, é possível cortar pedaços de genes responsáveis por mutações que provocam doenças. É possível substituir ainda esses pedaços por outros pedaços de ADN normal.

A técnica não tinha sido aprovada no Reino Unido para a investigação em embriões humanos, embora já tenha sido utilizada em animais. A especialista de células estaminais Kathy Niakan, do Instituto Francis Crick, em Londres, pediu em Setembro autorização à Autoridade de Fertilização e Embriologia Humana (HFEA, na sigla em inglês), que regula estas questões no Reino Unido, para realizar estas experiências.

Agora, a HFEA autorizou-as. “Aprovámos o pedido da doutora Kathy Niakan do Instituto Francis Crick”, anunciou a entidade britânica, citada pela agência noticiosa AFP.

Ao sétimo dia após a fertilização, o embrião humano já se dividiu em cerca de 250 células. Nesta altura, o embrião chama-se blastocisto. Numa gravidez normal, as células da blastocisto vão dar origem ao bebé e às estruturas de apoio: parte da placenta, o saco vitelino e o saco amniótico. É por estes dias que o blastocisto fixa-se à parede do útero. Mas nem todos os ovócitos fertilizados vão até ao final da gravidez. Em dois terços dos casos ocorrem abortos espontâneos.

“Queremos compreender quais são os genes necessários para que um embrião humano se desenvolva e dê origem a um bebé saudável”, disse há dias Kathy Niakan, citada pela BBC online. “Este conhecimento é muito importante porque os abortos espontâneos e a infertilidade são extremamente comuns, mas não se percebe muito bem por que é que acontecem.”

A investigadora vai começar por estudar o gene Oct4, que acredita ser crucial nos primeiros estádios do desenvolvimento embrionário, explica por sua vez a agência noticiosa Reuters.   

Os embriões usados para a investigação pelo instituto serão de casais que fizeram tratamentos de fertilização in vitro e que ficaram com embriões que já não serão utilizados, explica o Instituto Francis Crick em comunicado. A doação será feita com consentimento informado. No entanto, o projecto só arranca daqui a alguns meses, já que “precisa agora de obter a aprovação ética”, lê-se no comunicado do instituto.

Mas há quem receie que esta técnica de “corta e cola” de genes e a autorização deste tipo de investigação científica venham a dar origem a bebés “feitos à medida”. “Este é o primeiro passo para a legalização de bebés geneticamente modificados”, disse David King, citado pela Reuters, reagindo à autorização dada pela HFEA. David King é o director do grupo activista britânico Alerta Genética Humana.

Ao alterar-se o ADN de embriões humanos, altera-se o ADN de todas as células futuras daquele embrião, incluindo das futuras células sexuais, afectando para sempre aquela linha de descendência.    

Esta questão foi levantada em Abril de 2015, quando pela primeira vez no mundo uma equipa de investigadores chineses anunciou ter utilizado precisamente a Crispr-Cas9 para alterar em embriões humanos um gene chamado HBB, cujas mutações provocam uma doença do sangue potencialmente mortal. Estas alterações foram realizadas em embriões inviáveis porque tinham sido fecundados por dois espermatozóides, possuindo um número anormal de cromossomas. Os embriões provinham de uma clínica de fertilidade e iriam ser descartados.

No entanto, a nova técnica e as suas potencialidades acabaram por ser discutidas no início de Dezembro último, na Cimeira Internacional sobre a Edição do Genoma Humano, em Washington, Estados Unidos, onde se concluiu que seria irresponsável, pelo menos para já, a manipulação genética de embriões, ovócitos ou espermatozóides para gerar bebés. Mas, na cimeira, os cientistas defenderam o uso da técnica para fins de investigação.

Num dos últimos passos científicos importantes em que a Crispr-Cas9 foi utilizada, mostrou-se que é possível apagar, em ratinhos, a mutação genética que provoca um tipo de distrofia muscular. Este tipo de uso da técnica como terapia genética aplicada a tecidos específicos – neste caso os músculos – é visto com muito menos desconfiança a nível ético.     

O Reino Unido é o primeiro país em que a questão ética foi primeiro discutida por uma entidade reguladora destas questões e foi aprovada – o que não aconteceu na China. “Estou encantado com a aprovação pela HFEA do pedido da Dra. Niakan”, comentou Paul Nurse, director do Instituto Francis Crick, citado pela BBC online. “A proposta de investigação da Dra. Niakan é importante para compreender o desenvolvimento saudável de embriões humanos e vai aumentar o nosso conhecimento sobre as taxas de sucesso da fertilização in vitro.”