Crítica

Meg Stuart, entre as brumas da memória

Mais do que autobiográfico, Hunter é um discreto depoimento geracional e artístico. E o tributo subtil a toda uma época.

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Meg Stuart Maarten Vanden Abeele
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Meg Stuart em Hunter Iris Janke

Uma mulher de meia-idade, de cabelo curto louro-claro a contrastar com as calças e camiseta justas de malha preta, está a uma pequena secretária a recortar, absorta, fotografias de família e imagens de revistas. Ao lado, uma chávena de chá. Em fundo escuta-se o vozear errático do que poderia ser um rádio mal sintonizado, farrapos do quotidiano, da vida lá fora.

É alguém a compor um álbum de memórias no recolhimento doméstico, à média luz; ou talvez uma artista à mesa de trabalho. A mulher coloca os recortes sobre o prato de um gira-discos; o movimento rotativo, projectado sobre o ecrã ao fundo do palco, devolve andamento às histórias retidas no papel impresso. O mote está lançado: o solo da coreógrafa-intérprete Meg Stuart (Nova Orleães, 1965) é uma deambulação por evocações pessoais e por um percurso artístico de três décadas, onde o foro privado se funde a referentes colectivos.

A peça Hunter é uma colagem não-linear de estilhaços visuais e sonoros: sobre as várias telas dispersas em cena, projectam-se as cores empalidecidas de velhos filmes Super 8 de momentos em família, mesclados a alusões ao auto-retratismo de Cindy Sherman, à imponência da natureza ou à trepidação urbana dos dias de hoje.

Uma cacofonia sonora envolve a performance: por entre o tilintar de chaves, estrépitos electrónicos, pedaços de música, sirenes, ou um ranger de porta, ouvem-se retalhos de frases onde julgamos discernir a voz de ícones da beat generation, como Allen Ginsberg ou William Burroughs, do cineasta Jonas Mekas ou de Laurie Anderson, misturadas a fragmentos de conversas caseiras.

Esta amálgama cria subtextos, propondo sentidos para os trechos dançados por Stuart: o movimento ora parece contagiar-se da cadência rítmica de sons e imagens, ora pelos seus conteúdos; outras vezes produzi-los, ou com eles convergir por acaso. Se estas estratégias denotam heranças da “dança pura” pós-moderna (não é casual a menção à tutelar Trisha Brown) e da dança-teatro (a exploração da dramaticidade emocional e do texto falado), Hunter é uma boa súmula da panóplia disciplinar em que se tornaram as artes performativas actuais.

A atmosfera urdia belas promessas. A prestação de Stuart resultou, porém, algo embaciada, vacilando perante tanta veemência visual e auditiva e a possibilidade de lhes acrescentar patamares de leitura (o caso do playback ao tema Revelations de Yoko Ono, ou do episódio clownesco onde enverga o extravagante figurino patchwork). Elementos cenográficos (as telas-ecrã desenroláveis, o poste a suportar cabos sobre a cena, o banco de acrílico, a placa reflectora, a pequena cabine em espiral…) mais parecem servir intuitos funcionais que propriamente nexos dramatúrgicos. Mas, apesar de nunca se ter desejado actriz, no terço final da peça Stuart revelou-se, com um bem engendrado texto confessional, uma surpreendente stand up comedian.

Hunter é uma peça que se segue com agrado. O tom autobiográfico desta “caça” ao passado, é o balanço sereno de uma contestatária apaziguada; de uma identidade que se construiu com a dança americana dos anos 80 e belga dos anos 90 [aí fundou o colectivo Damaged Goods (1994)], e hoje aterrou na Meca artística que (ainda) é Berlim. Hunter é um discreto depoimento geracional e artístico. E o tributo subtil a toda uma época.