Não ficções

O que faz falta ao PCP é avisar o PCP

1. O Partido Comunista Português está em acelerada erosão, revelam as duas últimas eleições. O PCP diz que isso se deve à abstenção, ao voto útil, à atracção populista, à desigualdade mediática. Eu diria que nem por isso, e ainda menos pelas hormonas dos eleitores, a que Jerónimo de Sousa aludiu num deslize inédito. O grande problema do PCP, parece-me, é o PCP. Ninguém lhe tira tantos votos, ninguém lhe dá tantos tiros no pé, ninguém lhe faz tanto mal. Seja em relação a Angola, à Coreia do Norte ou às presidenciais, o PCP combate o passado, o presente e o futuro, tudo ao mesmo tempo, e sem precisar de inimigos.

2. O secretário-geral Jerónimo de Sousa foi bastamente criticado pelo uso do termo “engraçadinha”, em plena noite das presidenciais, em directo para milhões, quando já tinha ponderado o que dizer, e o que não dizer. O PCP obtivera o seu pior resultado de sempre, o momento era fulcral para o ânimo de milhares de comunistas. Instado pelos repórteres a comentar os 4% de Edgar Silva, Jerónimo disse: “Nós podíamos apresentar um candidato ou uma candidata assim mais engraçadinha, com um discurso ajeitadamente populista, que pudesse aumentar o número de votos. São opções e eu não quero criticá-las. Mas partimos sempre para estes combates com ideias políticas, com princípios. Aquilo que caracteriza este partido defensor dos interesses dos trabalhadores e do nosso povo. Nessa coisa não somos capazes de mudar, continuamos a fazer esta opção.”

Cerca de 99,99% dos que ouviram isto sabem que a “engraçadinha” era Marisa Matias, uma das vencedoras da noite, ao ter conseguido o contrário de Edgar Silva, o melhor resultado de sempre para o Bloco de Esquerda numas presidenciais. Claro que Jerónimo levou na cabeça pelo “engraçadinha”, espero que logo nessa noite, entre as suas camaradas. E foi melhor do que nada que tivesse retirado o termo, dois dias depois, na conferência de imprensa do Comité Central: “Não estava a pensar em ninguém em concreto, se alguém se sentiu ofendido, já cá não está quem falou. Foi uma imagem em sentido geral. Parece que alguém enfiou a carapuça, se assim entendem, fiquem descansados, eu retiro o que disse.”

A emenda não foi pior do que o soneto, mas tanto de uma como de outro sobra o que pensar.

3. Primeiro, na noite das eleições, Jerónimo não disse só “engraçadinha”. Disse que essa “engraçadinha” tinha um “discurso populista”, para “aumentar votos”, e que isso correspondia a “opções”, que não serão nunca as do PCP porque o PCP tem “ideias” e “princípios”. Isto é mais do que um deslize marialva, é chocarreiro e altaneiro, e por não se esperar de um líder comunista é que vale a pena falar do conjunto. O que se infere directamente do que Jerónimo disse é que um partido populista sem ideias nem princípios recorrera a uma engraçadinha para aumentar votos. O que se infere indirectamente é que Marisa foi um isco, e o Bloco não é sério. E isso mostra como o PCP, ao contrário do que afirma, sabe que boa parte da perda não se deveu aos media, nem foi para a abstenção, para o voto útil em Nóvoa, muito menos para a esponja Marcelo, mas sim para o Bloco de Esquerda. Por mérito do Bloco, mas antes de mais por demérito do PCP.

4. Depois, ao retirar o termo “engraçadinha”, Jerónimo deu uma nova alfinetada. “Parece que alguém enfiou a carapuça…”, disse. É verdade, cerca de 99,99 por cento dos portugueses que o ouviram. Não foi o Bloco que supôs que aquilo lhe era dirigido: aquilo foi-lhe dirigido. E o que Jerónimo devia ter feito era pedir desculpa sem mais ironias para o ofendido. Ainda achei que fosse fazer uma auto-ironia, quando disse que até gostaria que lhe chamassem engraçado, mas depois não, meteu-se a falar da carapuça. Se não fosse embirração com o Bloco, seria modéstia. Pois, do ponto de vista do cinzel genético, claro que Jerónimo de Sousa é mais do que engraçado. Com aquele perfil de Monte Rushmore talhado pelos séculos, estou perfeitamente a imaginá-lo num filme de Clint Eastwood. Desde que não discutissem política.

5. Já no Comunicado do Comité Central sobre as presidenciais não há modéstia. Ao contrário, a autoconfiança impressiona: “A candidatura de Edgar Silva bateu-se como nenhuma outra com o objectivo de impedir a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa, no quadro de um panorama mediático desigual e de promoção e favorecimento de outras candidaturas e de apelos a sentimentos populistas e anti-democráticos”. O facto disso se traduzir em apenas 4% de votos não parece inquietar o PCP: “A corrente de mobilização e apoio que a candidatura de Edgar Silva suscitou, projecta-se no futuro”.

6. Mas, ao contrário do que o PCP acha, não me parece que muitos não-comunistas, e mesmo adversários, fiquem felizes com estes tiros no pé. Há uma simpatia por Jerónimo, tal como me parece haver uma consternação quando o PCP desilude assim. Ultrapassa a luta partidária, tem a ver com o espectáculo de um partido que as pessoas levam a sério, no qual reconhecem valores, a enterrar-se a si mesmo. Um partido como PCP, a quem se devem tantas lutas, pela liberdade e pelos direitos das mulheres, não pode senão condenar a repressão de um regime faustoso em Angola ou delirante na Coreia da Norte, tal como não pode senão respeitar as mulheres do Bloco. Que, perante o seu pior resultado, o PCP reaja como reagiu, além do “engraçadinha”, é uma capitulação perante o pior da política, aquilo que leva as pessoas absterem-se, que se atribui aos partidos em geral, mas não ao PCP. O resultado das presidenciais seria o momento para estar à altura de um partido a que o século XX português deve tanto, e tantas vidas: olhar para dentro, para fora, em volta, pensar no que está a acontecer, e no que está a falhar, em quem votava e já não vota PCP, de modo a mostrar que o PCP não foi apenas a fortaleza que a ditadura de Salazar teve como contraponto, nem apenas a fortaleza em que depois tanto assentou no terreno, nos instáveis anos da construção democrática. Fazer essa catarse representa pôr o PCP diante de si mesmo, e sem isso os votos não voltarão. O facto de o partido não ter mudado não o mantém no mesmo lugar: tudo em volta mudou, então o lugar onde o PCP estava corre o risco de desaparecer, e só o PCP pode avisar o PCP. Mas, dada a história do século XX, é um pouco assunto de todos.

7. No momento do colapso da URSS, eu estava num pequeno apartamento igual a milhões, com uma família trabalhadora igual a milhões, no Verão de 1991. Voltei à Rússia algumas vezes até 1998, vi a herança soviética noutras partes da Europa e Ásia Central, e outras espécies de comunismo, ou da sua corrupção, por exemplo na China. Nunca tendo sido comunista, cruzei-me com quem viveu o comunismo, a favor ou contra. Tal como continuo a ter amigos do PCP que admiro pela entrega, corajosa, espartana. E é por somar tudo isto ao que o PCP já nos deu a todos que gostava de o ver na luta para subir a fasquia.