Timothy Ray Brown: “Não quero ser a única pessoa do mundo que se curou do VIH”

O famoso paciente de Berlim esteve em Lisboa numa mesa-redonda sobre o vírus da sida. Depois de ter ficado livre do VIH, devido a um transplante de medula, decidiu que a sua missão era tentar que outros se livrassem da infecção.

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Timothy Ray Brown descobriu que era seropositivo em 1995 Ricardo Campos
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Timothy Ray Brown descobriu que era seropositivo em 1995 Ricardo Campos

Durante anos, o paciente de Berlim não tinha cara, mas representava algo importantíssimo: era a única pessoa que tinha ficado livre do vírus da sida, depois de um transplante de medula em 2007. Mas em 2011 resolveu dar a cara. “Decidi que não quero ser a única pessoa no mundo que se curou do VIH”, disse nesta quinta-feira Timothy Ray Brown ao PÚBLICO, na Culturgest, em Lisboa. “Achei que tinha de dar a conhecer o meu nome para que as pessoas soubessem que havia uma pessoa atrás do ‘paciente de Berlim’.”

O norte-americano, nascido em 1965, falava pausadamente, depois de nesta quinta-feira já ter dado entrevistas a outros jornalistas. Este passou a ser o seu trabalho. Num artigo de opinião que escreveu em 2014, terminava a dizer “não irei parar até que se consiga curar a infecção pelo VIH!”

É por isso que esteve em Lisboa, para falar numa mesa-redonda sobre a sida durante as Jornadas de Actualização em Doenças Infecciosas do Hospital de Curry Cabral, que terminam nesta sexta-feira. Além de Timothy Ray Brown, a conversa contou ainda com os palestrantes Judith Aberg, da Faculdade de Medicina Icahn no Hospital Monte Sinai, em Nova Iorque, que ia falar sobre a profilaxia pré-exposição (Prep) contra o VIH (que já ganhou o nome de PrEP, sigla em inglês para pre-exposure prophylaxis), e Daniel Kuritzkes, da Faculdade Médica de Harvard, Estados Unidos, que trazia para a discussão a cura funcional e a erradicação do vírus da sida.

Desde o início da epidemia da sida já morreram 34 milhões de pessoas. O vírus, que infecta e destrói os linfócitos-T CD4+, se não for combatido acaba por deixar um doente vulnerável a qualquer infecção, é aí que passa a ter a síndrome de imunodeficiência adquirida (sida). Hoje, há 37 milhões de pessoas infectadas com o vírus, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, e apenas 16 milhões estão a receber medicamentos anti-retrovirais.

Em 1995, quando Timothy Ray Brown estava a viver em Berlim e soube que estava infectado, a realidade era mais negra. “Os meus linfócitos-T CD4+ estavam a baixar. [A médica] disse-me para começar a tomar o medicamento AZT. Eu tinha medo do AZT porque ouvi dizer que muitas pessoas tinham tido efeitos terríveis, por ser preciso grandes doses”, conta. “Felizmente, em 1996 os inibidores proteicos entraram no mercado e, de repente, as pessoas que pareciam horrivelmente doentes começaram a parecer bem.”

Nos dez anos seguintes, o norte-americano teve uma vida normal, quase se esquecendo do VIH. Mas em 2006, descobriu que tinha leucemia mielóide aguda. Ou seja, precisava de um transplante de medula.

É aqui que entra a sorte. Havia dezenas de dadores possíveis para Timothy Ray Brown. O seu médico, o hematologista Gero Hütter, escolheu o dador que tinha a mutação do gene do receptor CCR5 – uma molécula que fica na membrana dos linfócitos-T CD4+, e que é a porta de entrada para o VIH. A mutação impede muitas estirpes do vírus de entrar naquelas células. Mas é rara, surgindo apenas em 1% dos europeus. A lógica de Gero Hütter, ao usar um dador de medula com esta mutação, era tornar Timothy Ray Brown resistente ao VIH, curando-o.

Normalmente, as pessoas com VIH que estão a ser medicadas com anti-retrovirais não conseguem ver-se livres do vírus, porque este se mantém escondido em reservatórios celulares no corpo. Se estas deixarem de tomar os anti-retrovirais, os vírus escondidos que acordam podem multiplicar-se à vontade, recomeçando o ciclo. Mas em 2007 ninguém sabia se o transplante – que é um acto médico perigoso, no qual os doentes podem morrer – iria curar Timothy Ray Brown.

“Lembro-me do doutor Gero Hütter dizer que ele ia procurar um dador que tinha uma mutação, que o tornava imune ao VIH. E que, com alguma esperança, iria resultar em mim. E que eu não teria mais VIH e não teria de me preocupar mais. Na verdade, a mutação tornou-me imune ao VIH. Por isso, já não tenho de me preocupar com isso. No início, nem acreditei na possibilidade”, recorda.

Passados nove anos, os testes continuam sem detectar o VIH, o que não quer dizer que o vírus não possa estar ainda escondido numa ou noutra célula. De qualquer modo, a vida continuou para Timothy Ray Brown e em 2011 ele abriu o jogo, e deu entrevistas a dizer que era o chamado “paciente de Berlim”. “Comecei a viver para ter a certeza de que há mais pessoas que possam viver sem o vírus da sida. Quero acabar com a culpa do sobrevivente. É muito difícil ser a única pessoa neste clube tão pequeno.”

Para isso, criou a Fundação Timothy Ray Brown e a organização “Cure for AIDS Coalition” (algo como Aliança para a Cura da Sida). Actualmente, vai a conferências conhecer as novidades na investigação sobre a sida, dá informação às pessoas e tenta convencer seropositivos a entrarem em ensaios clínicos. “Há uma empresa que tenta replicar o meu caso, mas de uma forma muito mais fácil. As pessoas não têm de ter leucemia. Mas descobri que as pessoas infectadas estão felizes só a fazer a medicação, e não querem arriscar [a vida]”, conta.

Enquanto não há uma cura, há outras medidas que o norte-americano defende, como a profilaxia contra o VIH. A medicação profiláctica pré-exposição é baseada no medicamento Truvada, um anti-retroviral normalmente usado para combater o vírus. Vários estudos já mostraram que também evita a infecção pelo VIH.

Nos Estados Unidos, a Prep já é uma realidade. Mas na Europa, a Agência Europeia de Medicamentos ainda não aprovou o Truvada como medicamento profiláctico antes exposição. “Sou muito a favor da Prep”, admite Timothy Ray Brown. “Quem me dera que a Prep já existisse antes de me ter tornado seropositivo. Acho que a Prep dá a liberdade às pessoas para não se preocuparem em ter sexo e serem infectadas pelo VIH. Há muitas críticas de que as outras doenças sexualmente transmitidas aumentem, mas a investigação científica mostra que estão a aumentar de qualquer forma. E quando se está a fazer a Prep é preciso fazer testes a doenças de três em três meses. Por isso, se as pessoas estiverem a fazer a Prep, estão a tomar conta dos seus corpos.”