Torne-se perito Crítica

História sem heróis

Discreto e inteligente , inscreve-se na longa tradição liberal do cinema americano.

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O filme de jornalistas tem longa e nobre tradição no cinema americano – Os Homens do Presidente (Alan J. Pakula, 1976), a ficcionalização da investigação do caso Watergate com Robert Redford e Dustin Hoffman e que faz agora 40 anos, será o “farol” do género mais presente na memória pública. O Caso Spotlight inscreve-se nessa linhagem, contando a história verídica da investigação do jornal Boston Globe que trouxe ao de cima a verdadeira dimensão do abuso sexual de crianças e jovens por parte de padres católicos naquela cidade americana. A diferença é que, no filme de Tom McCarthy (A Estação, 2003; O Visitante, 2007), não há “heróis” que se destaquem: a investigação é um trabalho de equipa levado a cabo por quatro repórteres (Rachel McAdams, Michael Keaton, Mark Ruffalo e Brian d’Arcy James), com o apoio institucional das altas instâncias do jornal (Liev Schreiber e John Slattery).

É isso que é fascinante: o seu olhar sobre uma ideia (muito americana e muito “à moda antiga”) de comunidade, de colectivo, de equipa, que transcende o simples indivíduo para assumir uma dimensão de “serviço público” em prol da sociedade; e o confronto entre duas visões dessa comunidade, opondo ao silêncio do “mal menor” a convicção de que não há “males menores” mas apenas bem e mal. Para a equipa da editoria Spotlight, tudo se passa numa corda bamba entre o idealismo e o pragmatismo, entre a ideia do jornalismo como ferramenta para melhorar a sociedade e a compreensão de que muitas vezes essa ferramenta é demasiado frágil para a tarefa a que se abalançou.

Também por isso, a inteligência do filme de McCarthy (e eventualmente a sua maior fraqueza) está em recusar qualquer heroísmo gratuito ou postura grandiloquente, apostar numa humildade de trabalhador que se afinca a construir fundações e a deixar aos outros a compreensão do “quadro geral”. O Caso Spotlight é um filme “anónimo” no melhor sentido da palavra, onde conta mais o que se conta e como que se conta do quem conta, onde o elenco funciona como um todo e não com números de actor; essa dimensão funcional, desenvolta, faz dele exemplo perfeito de uma solidez de produção que anda a fazer falta num Hollywood demasiado interessada em encher o olho.