Serviço de saúde português cai para 20.º lugar em ranking internacional

Portugal cai sete posições em estudo da organização sueca Health Consumer Powerhouse. Diferenças no acesso à saúde são uma das preocupações.

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O acesso aos médicos de família é um dos factores analisados Rui Gaudêncio

Desigualdade no acesso aos serviços de saúde, atrasos nas cirurgias, dificuldade em fazer tratamentos no estrangeiro, elevado número de cesarianas, dificuldade de acesso a médico de família e cuidados de saúde oral de fora do Serviço Nacional de Saúde são algumas das áreas que estão a contribuir para uma avaliação mais negativa do sistema de saúde português. De acordo com o ranking internacional feito pela organização sueca Health Consumer Powerhouse, Portugal surge na edição de 2015 no 20.º lugar do Índice de Assistência Médica Europeu, quando em 2014 estava na 13.ª posição.

A associação sueca de consumidores coloca pela sexta vez consecutiva a Holanda no primeiro lugar do ranking que faz de 35 países europeus. Depois do sistema de saúde holandês, em segundo lugar surge a Suíça, seguida pela Noruega, Finlândia, Bélgica, Luxemburgo, Alemanha, Islândia, Dinamarca, Suécia, França, Áustria, República Checa, Reino Unido, Eslovénia, Croácia, Estónia, Macedónia, Espanha e Portugal. Na cauda da lista aparecem países como Montenegro, Polónia, Albânia, Roménia e Bulgária.

No Índice de Assistência Médica Europeu (EHCI, na sigla em inglês), feito pela organização sueca desde 2005, Portugal conseguiu obter 691 pontos em 1000. O índice é construído a partir da avaliação da informação fornecida pelos doentes, que é cruzada com vários indicadores como taxas de mortalidade, taxas de infecção hospitalar, dados de acesso como listas de espera para consultas e cirurgias, entre outros. Direitos e informação aos utentes, resultados, prevenção, alcance dos serviços e entrada de medicamentos inovadores no mercado são outros dos pontos avaliados.

A classificação é traduzida em seis áreas: direitos e informação dos pacientes, acessibilidade (listas de espera para tratamento), resultados, âmbito e alcance dos serviços prestados, prevenção e sector farmacêutico. A Holanda foi, uma vez mais, o país que conseguiu reuniu mais pontos nos 48 indicadores valorizados, com uma classificação de 916 em 1000, por oposição a Montenegro, que se ficou pelos 484.

Olhando para áreas concretas, a Holanda e a Noruega registam o melhor resultado (146 em 150 pontos) nos temas de direitos dos doentes e informação. Já a Bélgica e a Suíça destacam-se nas questões de acessibilidade, reunindo os 225 pontos possíveis. Os melhores resultados de saúde foram encontrados na Islândia, Holanda e Noruega. A Finlândia, Holanda e Suécia encabeçam o pódio do alcance dos serviços prestados e a Noruega é líder na prevenção. As questões mais ligadas ao medicamento têm melhores resultados na Finlândia, Alemanha, Irlanda, Holanda e Reino Unido.

Quanto a Portugal, o país aparece a “vermelho” em temas como o acesso directo a consultas com médicos especialistas, o tempo de espera para cirurgias não urgentes, as infecções por Staphylococcus aureus resistente aos principais antibióticos, a diálise feita fora de meio hospitalar, o acesso público a médicos dentistas e o consumo de álcool. A “amarelo” surgem questões como a publicitação de dados sobre a qualidade dos serviços prestados, o acesso a fármacos inovadores, consultas com o médico de família no próprio dia, tempo de espera para tratamentos oncológicos ou alguns exames complementares de diagnóstico. Os casos de depressão, anos de vida perdidos e sobrevivência ao cancro também são motivo de apreensão. Pelo contrário, o país consegue resultados “verdes” em temas como a prescrição electrónica, acesso a uma linha de saúde 24 horas por dia (Linha Saúde 24, 808 24 24 24), redução de mortes por enfarte e acidente vascular cerebral, cirurgia às cataratas, transplantes renais e vacinação.

A Health Consumer Powerhouse, numa análise genérica dos resultados, afirma que “os sistemas de saúde europeus continuam a melhorar, apesar das sirenes à volta da crise financeira e das medidas de austeridade, do envelhecimento da população e da agitação nas migrações”. A organização destaca, num comunicado, as melhorias na sobrevivência dos doentes com problemas cardiovasculares e também oncológicos. Também a taxa de mortalidade infantil continua a ter progressos em praticamente todos os países.

Na mesma nota, os responsáveis pelo ranking congratulam-se com algumas melhorias em termos de equidade. Apesar de continuarem a existir países com graves problemas no acesso a cuidados de saúde, a organização considera que, mesmo assim, foram registadas melhorias. No entanto, coloca-se a hipótese de a subida nestes resultados em concreto ficar a dever-se não a melhores cuidados mas a um melhor apuramento dos dados. Por outro lado, a Health Consumer Powerhouse destaca que os melhores resultados são encontrados em países com sistemas de saúde baseados em seguros sociais — Portugal tem um serviço público financiado essencialmente pelos impostos.

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