Música portuguesa em crescendo orquestral

Sinal da nova vitalidade da música portuguesa é a possibilidade de ter uma plateia bastante composta para assistir a um programa exclusivamente preenchido por obras de compositores nacionais.

Foto
O compositor Vasco Mendonça DR

De intelectuais que a arrasam em meia-dúzia de palavras aos seus pares que a enaltecem com grande fervor, a música portuguesa, não sendo consensual, assume hoje um novo papel ("protagonismo” seria, ainda assim, um termo excessivo) que a torna assunto de discussão.

Sinal dessa nova vitalidade é a possibilidade de ter uma plateia bastante composta para assistir a um programa exclusivamente preenchido por obras de compositores portugueses (a mais antiga das quais com apenas 25 anos) e, no final do concerto, perceber entre o público acesas discussões em torno da música escutada.

A importância do acontecimento está menos no gosto (individual ou colectivo), ou nas posições (opostas) de uma nova valorização “do que é nosso” e do eterno “só é bom o que é validado no ‘eixo franco-alemão’” (os países com maior tradição e mercado no domínio da música erudita ocidental), do que na possibilidade real de se alimentar esse espaço de criação e de divulgação e consumo crítico e informado (livre de preconceitos e dos votos de fidelidade a este ou aquele grupo que, na verdade, apenas enfraquecem a própria música).

Com maior ou menor sucesso, menor ou maior isenção, das instituições de programação portuguesas com maior poder orçamental tem sido a Casa da Música aquela que mais se tem dedicado à promoção da música de compositores portugueses do nosso tempo. E o risco que a CdM assumiu no momento em que instituições como a Fundação Calouste Gulbenkian se demitiram do apoio à criação musical portuguesa dá, agora, vivos sinais de um florescimento em expansão.

Quanto à música que no sábado Pablo Rus Broseta e a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música interpretaram, e que este nímio preâmbulo quase fez esquecer, algumas das fragilidades que podem ser apontadas a cada uma das peças escutadas são avançadas pelos próprios compositores nas curtas entrevistas que a Casa da Música lhes fez a poucos dias do concerto.

A estreia absoluta da peça de Vasco Mendonça (1977) abriu o programa. Em Still Points (co-encomenda da Câmara Municipal de Matosinhos e da Casa da Música, dedicada a Manuel Dias da Fonseca) ouve-se alguns momentos sonoros delicados mas, contrariamente ao que o compositor almeja, não chega a criar no ouvinte a ilusão de “um tempo fictício em que se perde a noção do tempo cronométrico”.

Sobre Díptico (2004-5, também encomenda de Matosinhos), para piano e orquestra, Luís Tinoco (1969) esclarece que a obra não foi pensada de forma a atribuir ao piano o papel principal, podendo este ser quase integrado no grupo. Embora no domínio do previsível, a escrita de Díptico revela um sentido mais apurado do resultado sonoro do que a obra anteriormente escutada e se há algo a criticar será mais o simplismo da ideia subjacente do que o produto final.

Após o intervalo, o grande testemunho de energia chega-nos de uma peça de juventude de António Chagas Rosa (1960). É verdade que no primeiro dos três momentos que Chagas Rosa extrai a um poema inglês de Fernando Pessoa mal se dá pela presença de um quarteto de cordas à frente da orquestra, mas o compositor explica: Antinous (1990-92) transformou-se em obra para quarteto e orquestra porque o seu professor, na altura em que a compunha, considerou demasiado virtuosas as partes dos correspondentes chefes de naipe.

Sendo talvez pouco arrojado no estilo, Chagas Rosa apresentava à época uma força quase rebelde, uma energia que, aparentemente caótica, apontava caminhos em gestos consequentes, como um vulcão que expele material precioso.

Pedro Amaral (1972) encerra o concerto com uma obra para orquestra, composta também por encomenda de Matosinhos. Transmutations pour orchestre - la bibliothèque en feu (2007-12) carrega em si o domínio de um conjunto de técnicas que Amaral recolhe ao longo do tempo. Se é verdade que o compositor se serve do material utilizado em peças anteriores e lhe aplica um conjunto de reflexões sobre orquestração (como nos dá conta nas notas ao programa e na entrevista), também é verdade que o resultado nos deixa ouvir Amaral e, através dele, a escola de Darmstadt de que é talvez o mais fiel herdeiro português. Um pequeno senão no resultado final: no interior da obra, um momento vazio em que o interesse da técnica e o deslumbre do timbre não chegam a preencher.