Governo apresenta em Fevereiro candidatura de Guterres à ONU

A campanha já está na estrada e o lobbying diplomático em acção. António Costa decidiu apadrinhar a candidatura de Guterres a secretário-geral das Nações Unidas.

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António Guterres granjeou muito prestígio como alto-comissário para os Refugiados DENIS BALIBOUSE/REUTERS

“O Governo vai apresentar a candidatura de António Guterres a secretário-geral das Nações Unidas”, declarou o primeiro-ministro, António Costa ao PÚBLICO. A apresentação oficial da candidatura do antigo primeiro-ministro e, até ao final de 2015, alto-comissário da ONU para os Refugiados deverá ser feita no próximo mês de Fevereiro.

O primeiro-ministro já informou o Presidente da República, Cavaco Silva, de que está a proceder às diligências inerentes ao patrocínio da candidatura de António Guterres. Os líderes partidários com assento parlamentar também foram já informados por António Costa. Foi essa a razão que esteve em cima da mesa e que motivou o pedido feito pelo primeiro-ministro para se reunir com o líder do PSD, Pedro Passos Coelho, na Assembleia da República no final do debate quinzenal do passado dia 15 de Janeiro.

De acordo com as informações recolhidas pelo PÚBLICO, o Governo está a levar já a cabo os contactos internacionais e diplomáticos para assegurar apoios para a eleição de António Guterres como secretário-geral da ONU. Isto significa que o Ministério dos Negócios Estrangeiros está a mobilizar a máquina diplomática e os contactos têm sido estabelecidos de modo a que a candidatura de António Guterres tenha hipóteses reais de poder tentar o sucesso na eleição do nome que irá substituir o sul-coreano Ban Ki-moon a 1 de Janeiro de 2017.

Lobbying diplomático
O PÚBLICO sabe que o Ministério dos Negócios Estrangeiros se tem empenhado neste dossier e que tem providenciado a conquista de apoios à candidatura de António Guterres junto de vários países. Segundo informações recolhidas pelo PÚBLICO, as diligências do Ministério dos Negócios Estrageiros permitiram já assinalar algumas conquistas importantes, através de acções de lobbying diplomático.

Entre elas, destaca-se, o facto de a diplomacia portuguesa ter já assegurado que a candidatura de António Guterres não será vítima do veto por parte de nenhum dos cinco países membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, ou seja, da França, do Reino Unido, da Rússia, da China e dos Estados Unidos.

Outro dado importante no que toca às hipóteses de António Guterres poder ser o escolhido é o facto de o seu nome ter apoio significativo dentro da organização das Nações Unidas, nomeadamente nas estruturas centrais em Nova Iorque. Para esse prestígio conta a acção de António Guterres como alto-comissário para os Refugiados da ONU, que tem sido muito apreciada na organização, explicou ao PÚBLICO um responsável ligado ao processo.

Além do prestígio que granjeou como alto-comissário para os Refugiados, António Guterres tem a seu favor o facto de ter sido primeiro-ministro de um país da União Europeia e nessa condição ter participado em várias cimeiras europeias, bem como presidido à União Europeia em 2000.

Refira-se que a eleição do secretário-geral das Nações Unidas, que decorrerá durante este ano, é um processo complexo que envolve vários equilíbrios geoestratégicos e que obedece à necessidade de os candidatos preencherem diversos critérios. Quanto ao processo eleitoral propriamente dito, ele passa por uma selecção prévia de candidaturas que é feita pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. É este órgão que escolhe o nome que é proposto à eleição pela Assembleia-Geral.

Travado pelo género
Mas há dois obstáculos que se colocam à eventual eleição de António Guterres e cujo impacto é importante para uma decisão final. Apesar das dificuldades, o responsável ligado ao processo de candidatura afirmou ao PÚBLICO: “Entendeu-se que, mesmo perante um quadro que é complexo, havendo a possibilidade de eleição, esta não deve deixar de ser explorada.”

O primeiro obstáculo à escolha de António Guterres é o facto de estar praticamente assente um consenso dentro das estruturas das Nações Unidas da necessidade de eleger uma mulher para a cadeira de topo desta organização internacional. Tanto mais que as próprias Nações Unidas são responsáveis por vária documentação enquadradora a nível mundial das políticas de igualdade de género e de defesa da paridade na representação e na ocupação de cargos por mulheres e homens.

A esta dificuldade acresce o facto de estar previsto que a próxima liderança das Nações Unidas seja ocupada por um candidato oriundo da Europa de Leste, dentro da lógica de representação continental. Nesse sentido, surgem já nomes de figuras políticas com dimensão internacional que rivalizam com António Guterres para serem o candidato seleccionado pelo Conselho de Segurança.

Entre eles destaca-se a vice-presidente da Comissão Europeia, a búlgara Kristalina Georgieva, e a directora-geral da UNESCO, Irina Bokova, também de nacionalidade búlgara. Mas outros nomes são falados como o da antiga primeira-ministra neozelandesa, Helen Clarke.