Nuno Teotónio Pereira (1922-2016): a morte de um militante arquitecto

Nuno Teotónio Pereira viveu o exercício da profissão como um militante. A sua morte encerra uma das fases mais heróicas da arquitectura portuguesa.

O arquitecto em 2004
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O arquitecto em 2004 Carlos Lopes

A morte de Nuno Teotónio Pereira, nesta quarta-feira aos 93 anos, encerra uma das fases mais heróicas da arquitectura portuguesa. Militante anti-fascista, cristão progressista, moderno convicto, cultor da arquitectura popular, Teotónio Pereira foi a face mais visível de uma profissão que se empenhou socialmente e de forma revolucionária, sem necessitar de abdicar de “ser arquitecto”, isto é, recorrendo ao desenho, ao projecto e à construção.

Teotónio Pereira conhecia igualmente bem o valor da palavra, tendo escrito e publicado importantes artigos, acompanhados de discursos possantes onde a arquitectura servia a luta social e política em que se foi envolvendo. Era sua a convicção de que a arquitectura era provavelmente o sinónimo mais óbvio de política. O período em que viveu os primeiros anos da sua carreira deram-lhe razão. Mas nem o 25 de Abril de 1974 serenou os debates que foi abarcando, entre a radicalização do período pós-revoluconário e os discursos mais conciliadores, pronunciados recentemente.

Nascido em 1922, em Lisboa, formou-se em arquitectura na Escola de Belas-Artes de Lisboa, em 1949, ano em que abriu o seu primeiro atelier. Com Teotónio alinharam então outros arquitectos como Raul Chorão Ramalho e Manuel Alzina de Menezes, ou os engenheiros Goulart de Medeiros, José de Lucena e Ernesto Borges. Um processo de trabalho baseado em parcerias estava já na génese deste primeiro grupo. Depois da Segunda Guerra Mundial tudo estava a mudar e a arquitectura não era excepção.

Uma das suas primeiras intervenções, a Igreja das Águas, em Penamacor, realizada ainda antes de atingir os 30 anos, mostra como pretendeu acertar a cultura portuguesa com a cultura do tempo. A pesquisa para o desenho deste edifício é um pretexto para escrever uma carta a Óscar Niemeyer, cuja obra revolucionária dá então mostras de admirar. O arquitecto brasileiro não terá recebido a carta, o que não impediu que esta se tornasse um dos factos mais reveladores das transformações que a disciplina estava a tomar em Portugal.

No elogio que traçava, Teotónio fazia já uma declaração de princípio pela “nova” arquitectura portuguesa: “A vossa obra é um estímulo poderoso para a nossa própria luta em prol de uma arquitectura nacional e genuína." Escrita em 1947, Teotónio assume-se já um combatente por uma arquitectura livre dos figurinos nacionalistas e historicistas do regime. A sua importância enquanto definidor da cultura arquitectónica que será percorrida a seguir mede-se pelo modo como a própria história da arquitectura portuguesa se foi escrevendo. De um lado, o conservadorismo do Estado Novo; do outro, os jovens arquitectos militantes por uma arquitectura do tempo, construtiva e esteticamente falando.

O ano seguinte, 1948, é o momento do 1.º Congresso Nacional dos Arquitectos. Impulsionado pelo Estado, que pressiona o Sindicato Nacional dos Arquitectos a realizá-lo depois de algumas tentativas frustradas, o congresso é apontado como reflexo dessa geração moderna e corbusiana que se manifesta por uma integração clara nos modelos europeus e internacionais. É também, de forma velada, um repto pela liberdade que o regime não admitia e que reprimia o futuro.

Jovem, Teotónio defende no congresso, com Costa Martins, uma habitação económica em prol de um reajustamento social. Aí recorda que “uma enorme parte da população está alojada em condições que não satisfazem as mais fundamentais exigências psico-fisiológicas do Homem”. A comunicação era obviamente uma crítica à incapacidade do Estado Novo em resolver um dos maiores problemas com que Portugal se debatia à época e que passava por manter percentagens significativas da população portuguesa em alojamentos precários e insalubres. A análise contudo estendia-se à própria cidade, exigindo-se planificação e uma “autêntica reforma”.

A solução passava sempre – no caso de sugestões vindas de Teotónio Pereira – por propostas objectivas. Assim defendia-se que a classe média fosse alojada em altura e que às classes proletárias fossem reservadas “unidades de carácter menos duradouro e sem grande aglomeração de fogos.” À data, Teotónio Pereira acumulava já alguma experiência como arquitecto na Federação de Caixas de Previdência, realizando precisamente projectos de habitação económica. A actividade enquanto funcionário público acabaria por marcar a sua prática. O compromisso com o ideal colectivo cumpria-se também através do exercício da profissão nos organismos oficiais do Estado, onde, apesar de tudo, era possível através do desenho dar corpo a algumas pequenas “revoluções”. Neste contexto desenharia para territórios suburbanos ou rurais, como Póvoa de Santa Iria, Trancoso ou Vila do Conde.

O Bloco das Águas Livres, que conta com a co-autoria de Bartolomeu Costa Cabral, revela provavelmente como se propõe alojar uma classe média urbana, em “Unités d’Habitation”, formalmente inspiradas nas teses de Le Corbusier e, todavia, ajustadas à realidade portuguesa, encastrando o edifício na topografia e fazendo desaparecer os pilotis. Propõe espaços confortáveis e distantes de qualquer poética da máquina de habitar. Obras de arte, disseminadas pelos espaços colectivos do edifício, reforçam a generalização do acesso à cultura por parte de uma classe emergente. Nos conjuntos residenciais para os Olivais Norte, desenhados com António Pinto Freitas e Nuno Portas, entre 1957 e 1968, iria propor também a sua inclusão, agora em processo de proletarização desse mesmo acesso (e provavelmente ao arrepio de Portas, que advogava uma maior autonomia da arquitectura da esfera das artes).

Os projectos residenciais acabariam sempre por ter uma forte expressão no conjunto da sua obra, sendo possível construir um percurso analítico do escritório que – a partir de 1957 – se instala na famosa Rua da Alegria, em Lisboa. Arrancava assim uma produção fortemente marcada pelas personalidades dos diversos profissionais que o atravessaram ao longo de cinco décadas. Costa Cabral, Pinto Freitas, Portas, já mencionados, Pedro Vieira de Almeida, Miguel Aragão, Luís Moreira, Gastão Cunha, João Braula Reis, António Reis Cabrita, Duarte Cabral de Melo, Romeu Pinto da Silva, Gonçalo Byrne, João Paciência ou Pedro Botelho são alguns dos arquitectos que construíram a reputação do escritório.

O Movimento de Renovação da Arte Religiosa que publicamente se manifestou em exposição montada em 1953, na igreja de São Nicolau, seria igualmente um dos primeiros veículos para Teotónio Pereira expor os seus ideais. Num dos primeiros textos críticos que assinou, ainda em 1947, e que mais tarde descreveria como uma “crítica de arquitectura escrita por um arquitecto”, confirmava que “a arquitectura portuguesa (estava) divorciada do Povo, da Terra e da Época”. A sua luta era por uma arquitectura mais séria e mais genuína, valores que procuraria incutir aos programas religiosos que foi concretizando, após o arranque auspicioso que a Igreja das Águas representou. Sobre esse edifício, Ana Tostões haveria de escrever em 2004: "Este projecto antecipa quer a revelação da arquitectura popular com a tarefa do 'inquérito', quer, de algum modo, os debates que irão suceder no seio dos CIAM (Congressos internacionais de Arquitectura Moderna)." Situava-se assim o contributo pioneiro de Teotónio Pereira na história da arquitectura portuguesa.

A participação activa de Teotónio Pereira no levantamento à arquitectura popular que o Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa representou reforçaria a sua ligação às populações rurais do país, confirmando as difíceis condições de sobrevivência da maioria. Integrando a equipa que se ocupou da Estremadura, com o colega de atelier Pinto de Freitas e Francisco da Silva Dias, Teotónio percorreria uma região entre o Atlântico e o interior, “uma paisagem” como escreveram, reflexo de “uma luta continuada e sem heróis vistosos”. O livro Arquitectura Popular em Portugal seria publicado em 1961, transformando-se, quase imediatamente, no depoimento de uma geração, a que – como a vida de Teotónio haveria de provar – iria conseguir levar a arquitectura portuguesa a encontrar o seu próprio percurso no âmbito das diferentes arquitecturas locais que começaram a emergir a partir da revisão do Movimento Moderno.

Durante o inquérito, os arquitectos fotografaram as casas, os utensílios de trabalho e os habitantes. Um cunho quase neo-realista impregnava as narrativas e, de algum modo, acabaria por transportar-se para a arquitectura realizada durante e logo imediatamente depois: “Do construtor rural recebemos o legado do seu engenho e da economia das suas soluções, admiráveis pela sinceridade formal, a coerência entre a construção e o ambiente que a rodeia, a natural compreensão dos valores espaciais e a sua tradução em situações variadas e de elevado sentido estético.” A admiração genuína e verdadeira repercutia-se nas obras desenvolvidas no atelier nos anos de 1950 e década seguinte. O seu percurso ganhava agora um sentido mais "pragmático", acompanhando as evoluções internacionais, mais do que propriamente interessando-se em “inovar”. O Portugal que Teotónio apreenderia através do inquérito era um país onde se tornava urgente intervir.

Em 1957, também, Nuno Portas era admitido no atelier da Rua da Alegria, provocando naturalmente novas tensões. Cinco anos depois, a associação Teotónio/Portas era uma realidade consolidada. O que subsistia de “linguagem arquitectónica” no desenho, ou seja, as referências demasiado óbvias ao modernismo corbusiano viriam a esbater-se. O recurso à pintura ou à escultura enquanto elementos de composição espacial seria igualmente e progressivamente suprimidos. Logo em 1958, Portas iria desenvolver no atelier uma das suas obras mestras: a Casa de Vila Viçosa, apontando a direcção do atelier para um expressionismo scarpiano e de algum modo “não-moderno”.

Passava-se a confiar mais na capacidade da matéria tectónica e da massa na criação de espaços intensos, despidos de "artificialidades acessórias", como passaram a ser vistas as artes plásticas que Teotónio tinha numa primeira fase acalentado nas suas obras. Por outro lado, os edifícios eram tendencialmente mais orgânicos, ganhando presença urbana, repensando a cidade tradicional e constituindo-se focos regeneradores.

Na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa, projectada com Portas, Pedro Vieira de Almeida (e outros), a partir de 1962, o interior do quarteirão tradicional da cidade oitocentista tornava-se permeável. Proclamava-se, nesta obra-prima da arquitectura portuguesa, um retorno à monumentalidade que a arquitectura internacional reclamava desde os anos de 1940 e que aqui se manifestava no elogio da expressividade dos materiais (explorados em toda a sua potencialidade plástica). A arquitectura passava a funcionar como uma tribuna para o seu próprio discurso, dispensando terceiros, como as artes plásticas ou mesmo os discursos mais sociais. A arquitectura religiosa construída em território nacional também conhece aqui o seu apogeu  em 1975. Ter-se-ia de esperar por Marco de Canavezes, de Álvaro Siza, já no dobrar do milénio para assistir a uma realização tão intensa.

Outros edifícios iriam fortalecer um dos períodos mais intensos do atelier, caso do "Franjinhas" (Teotónio/Braula Reis, Lisboa, 1966-69), que na dureza da sua fachada-cortina de placas de betão, e com as calçadas desenhadas por Eduardo Nery, funcionaria como pedra de fecho deste período.

A passagem de Gonçalo Byrne pelo atelier, no início da década de 1970, produziria um novo sobressalto na linguagem seguida. Uma nova ruptura iria permitir o regresso das figurações modernas que os edifícios residenciais do plano do Alto do Restelo colocariam em destaque (Teotónio/Portas/Botelho/Paciência/Ribeiro Teles, Lisboa, 1971-85). O período seria assinalado com o endurecimento da luta política.

Em 1973, preso em Caxias pela PIDE, Teotónio seria torturado. A liberdade veio com a revolução de Abril. No escritório, nesses mesmos anos, Pedro Botelho surgiria nesta constelação como pedra de fecho. A parceria iria resultar em projectos como a celebrada estação de metro do Cais do Sodré (1992-2003), com retorno à austeridade "tectónica". Integrados no Programa Polis, os projectos urbanos para a Covilhã, com o arquitecto paisagista Luís Cabral, desenvolvidos no final do milénio (1999-2003) revelariam o raciocínio reformador de Teotónio ao proporem uma nova utopia moderna a partir da introdução de elementos capazes de contrariarem a topografia acidentada da cidade e contribuindo para uma mobilidade essencialmente pedonal. Sendo provavelmente o mais bem sucedido dos planos Polis, o plano da Covilhã revelava um velho mestre em elevadíssima forma. Fiel aos seus princípios, Teotónio continuou a intervir politicamente, mesmo depois de ter cegado.

Em 2004, o Centro Cultural de Belém acolhia a primeira grande exposição sobre a sua obra, comissariada por Ana Tostões. Uma vez mais, o protagonismo seria dado à arquitectura e aos diversos colaboradores do atelier. Tostões daria à mostra o nome Arquitectura e Cidadania, um belíssimo corolário para um extraordinário percurso a favor do interesse público. Nessa ocasião, em entrevista ao PÚBLICO, haveria de revelar a chave para uma boa arquitectura: “Acho que a chave para isso é os arquitectos colocarem-se na posição dos utentes, pensar que somos nós que vamos usar o espaço, numa moradia, apartamento, escritório, fábrica, escola. Imaginarmo-nos ali dentro a trabalhar, a funcionar. A conformação do espaço nascer a partir disso...”