Crítica

Disfarçado de outra coisa

Uma colectânea de contos infantis, mascarada de outra coisa, que merecia um tratamento diferente. O que de bom aqui existe perde-se num conjunto irregular.

Uma recolha de qualidade bastante desigual
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Uma recolha de qualidade bastante desigual BRUNO SIMÕES CASTANHEIRA

Dez anos após o remorso de baltazar serapião, o romance que lhe garantiu o Prémio José Saramago e serviu de alavanca à sua carreira (que havia começado, com a poesia, em 1996), Valter Hugo Mãe publica o seu primeiro livro de contos, Contos de cães e maus lobos. O que não é o mesmo que dizer que se estreia no género.

Duas das histórias deste volume, O rosto e As mais belas coisas do mundo, já tinham sido publicadas em livros individuais, para crianças, em 2010; o texto Bibliotecas, que encerra o livro, é uma crónica do Jornal de Letras, de 2013, ligeiramente alterada; o conto Quatro velhos já tinha aparecido na revista Egoísta; e A menina que carregava bocadinhos foi publicado individualmente em formato digital em 2015.

Isto é, obviamente, natural – e só não o é mais porque em Portugal há pouquíssimas revistas que publiquem contos. O que já não é muito natural é um livro para crianças vir disfarçado de outra coisa. Quando, na contracapa, se diz que estes contos “são para todas as idades”, devia dizer-se também: apesar de serem para crianças. Porque são para todas as idades na mesma medida em que os filmes da Disney são para todas as idades: mas quando os adultos os vão ver, já sabem ao que vão.

Ora, no livro de Valter Hugo Mãe tal não acontece. O leitor de o remorso de baltazar serapião (um livro muito pouco infantil) só saberá que Contos de cãos e maus lobos é um livro de histórias para crianças quando as começar a ler – ou se ler primeiro a nota do autor, no final do livro, que começa com um “Não sei escrever para crianças.” É só aqui que se assume, mesmo que em modo negação, que este é um livro para crianças. A produção gráfica da obra, a cargo da editora, parece querer mascarar este facto. Para vender mais livros?

A verdade é que a máscara de livro “para adultos” cai depressa. Se não, vejamos a primeira frase dos quatro primeiros contos: 1) “A menina entrou na casa grande com nove anos para trabalhar em troca de sopa e de um colchão estreito.” 2) “O menino nadou para depois de uma onda grande e não voltou.” 3) “Debaixo da minha cama viviam um monstro triste e um lobo velhinho.” 4) “Um dia, a princesa disse que queria ser enfermeira e imediatamente correu pelo reino a notícia de que a moça estava maluca.” Portanto, o embrulho disfarça, mas Valter Hugo Mãe não quer enganar ninguém.

Dos textos, a primeira coisa que se pode dizer é que, reunidos num só livro, estes dez contos (não incluo o texto Bibliotecas, não por ter sido uma crónica do JL, mas porque nem com grande benevolência se pode considerá-lo um conto) perdem parte da força que poderiam ter se existissem enquanto livros para crianças. Imagine-se o exercício de pegar num autor de livros infantis, copiar apenas o texto de dez dos seus livros e publicar o conjunto enquanto livro de contos. O génio, se existisse, sairia inevitavelmente enfraquecido pela repetição dos textos e pela ausência da ilustração.

Isto para dizer que alguns destes contos mereciam existir enquanto livros de crianças, à semelhança do que aconteceu com dois deles anteriormente. Esses dois, curiosamente, nem são os mais fortes. Mereciam esse tratamento os contos O menino de água, A princesa com alma de galinha e O mau lobo, todos eles boas histórias infantis.

O primeiro é uma história tristíssima, contada com a delicadeza poética característica de Valter Hugo Mãe, sobre uma mãe que perde um filho para o mar: “Nunca secava o corpo porque a água era agora o seu menino. Molhava-se, estendia as mãos em redor como radares aflitos por um abraço e imaginava que a criança fazia as ondas. Talvez as ondas fossem um modo de falar.”

A princesa com alma de galinha é a história de uma princesa inadaptada aos modos da realeza, com um amor incompreendido por todos os bichos, que acaba por ter a sua redenção quando surge enfeitada de pássaros que pousaram nos seus ombros: “Toda a gente concordou que nunca se vira uma princesa mais bela, misturada entre linhos e rendas, penteado, coroa e penas movendo-se de todas as cores.”

O mau lobo é uma variação do Capuchinho Vermelho, em que a menina, perseguida por lobos na floresta, acaba por salvar uma pequena cria de lobo que se magoara, conseguindo assim a compaixão dos seus atacantes: “Não conteve as lágrimas. Entendera que precisava de fazer tudo para curar o lobito, seria a única cura para a sua própria tristeza, para as suas lágrimas.”

Dos restantes, há uns mais interessantes e outros menos, numa recolha de qualidade bastante desigual. Acresce a isto que o tratamento linguístico que o autor dá a estas histórias – que, embora encaixe perfeitamente na sua voz dos romances, tem nuances muito específicas da escrita para a infância – perde o seu impacto de conto para conto, causando um efeito de cansaço estilístico no leitor.

Se me cingisse aos textos, Contos de cães e maus lobos mereceria as três estrelas, mas o objecto que é este livro, que me parece uma desonestidade editorial, rouba-lhe uma. É que assim não serve ninguém nas condições ideais: não serve as crianças, porque tem ar de livro “chato”, texto corrido, com ilustrações (estas, sim, numa linguagem visual mais adulta que infantil) a preto e branco no início de cada conto; nem serve os adultos, porque pretende ser o que não é.