Ricardo Campos
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Ricardo Campos

Afonso Reis: a inspirar professores até ao Fórum Económico Mundial

Sensibilizar para a importância social dos docentes é a missão do projecto "Inspira o teu professor". O seu criador é Afonso Mendonça Reis, professor e fundador das Mentes Empreendedoras, que, enquanto membro da Global Shapers Community, representa Portugal no Fórum Económico Mundial no sector da Educação

Numa das várias sessões do “Inspira o teu professor”, projecto da associação Mentes Empreendedoras que tem como objectivo valorizar a figura do docente, uma aluna proferiu uma frase curta, mas que encerra em si toda uma problemática. Disse a jovem: “É que a questão da reciclagem toda a gente percebe; agora a importância dos professores é uma coisa nova.” O que se seguiu, não sabemos, mas pode ter sido o ensurdecedor ruído de uma pedrada no charco.

“Isto para mim é notório”, conta, replicando a conversa, Afonso Mendonça Reis, fundador das Mentes Empreendedoras e professor na Universidade Nova de Lisboa. Mas “como”, questiona-se, é que é uma “coisa nova”? Foi para mexer com estas — e outras, muitas outras — questões que a “startup” social lançou o “Inspira o teu professor”, iniciativa que, através de “workshops”, sensibiliza alunos dos ensinos secundários para a importância de quem ensina, valorizando a "missão social" do docente. "Porque”, diz Afonso, socorrendo-se da experiência de trabalho na OCDE e Fundação Aga Khan, quando se "exclui o contexto sócio-económico, o único factor que verdadeiramente tem impacto na aprendizagem dos alunos é o professor”. É esta figura o “melhor garante para atingir” bons resultados e esta causa do seu reconhecimento está “pouco trabalhada”, nomeadamente em Portugal. 

É uma das muitas ideias que este economista de formação, empreendedor social e professor de propensão, tem para mudar o país e, quiçá, o mundo. E tem um novo palco para as mostrar. De 20 a 23 de Janeiro, em Davos, Suíça, realiza-se o Fórum Económico Mundial, e Afonso estará lá, juntamente com mais 49 "shapers" de todo o mundo. Foi convidado para representar Portugal enquanto membro da Global Shapers Community, rede do Fórum que visa promover o empreendedorismo social local, e logo num sector que lhe é particularmente querido: a Educação. O “Inspira o teu professor” terá sido, certamente, um cartão de visita válido — mas não só.

Aqui está o vídeo feito pelos vencedores do #inspiraoteuprofessor!!Não percam a oportunidade de os ver hoje, no Curto Circuito, às 17h! #somosmentes #mentesempreendedoras

Posted by Mentes Empreendedoras on Thursday, 11 June 2015

Vencedores do #Inspiraoteuprofessor de 2015

Trabalhar o "lado humano" da Educação




Afonso foi entrevistado em 2013 para a rubrica do PÚBLICO "Portugueses Com Certeza"

Aos 32 anos, Afonso já trabalhou na Fundação Aga Khan, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), Nações Unidas e Swisscontact. Foi um dos fundadores do “hub” de Lisboa da Global Shapers Community. Andou por todo o mundo em trabalho (fala seis línguas) mas, em 2013, voltou para Lisboa. Hoje, é professor na NOVA SBE, onde lecciona a disciplina “Managing Impactful Projects”, e “gestor voluntário” das Mentes Empreendedoras, associação que vai às escolas inspirar e apoiar jovens a concretizar ideias próprias, incutindo-lhes uma atitude "eu quero, eu posso, eu faço”. Foi a “curiosidade” que o levou a descobrir a Educação. “Interessa-me a aprendizagem, o conhecimento. Como posso ajudar os outros a atingir o seu potencial”, diz, em entrevista telefónica ao P3.

Na OCDE conheceu de perto a realidade dos países asiáticos, onde a educação é altamente valorizada. “Quase num estilo anedótico”, graceja. “Se um rapaz conhece uma rapariga e diz que é professor, o impacto lá vai ser muito mais positivo do que em Portugal. Ser professor impressiona.” É certo que a educação é um “processo complexo” e moroso, mas por cá discutem-se muito “as questões contratuais”, políticas quiçá, mas pouco a questão cultural e social. Pode parecer surpreendente querer reflectir sobre a importância do papel dos professores, sobretudo quando há tanto para falar, decidir, fazer no sector: modelos de avaliação, regimes de contratação, formação, desemprego. Todas essas questões são obviamente “importantes”, mas, contrapõe Afonso, devem ser “revistas por quem de direito”. “Se calhar, não é só isso que preocupa os alunos e os seus pais.” Levantar esse debate, “trabalhar a anemia do sistema, o lado humano” é a missão de Afonso.

Ao reconhecermos os professores também lhes estamos a dar responsabilidade, diz Afonso

Depois da fase piloto, que decorreu no ano passado em seis escolas secundárias de Lisboa, o “Inspira o teu professor” vai arrancar oficialmente a 25 de Janeiro em parceria com a Global Shapers Community, chegando este ano lectivo a 1500 alunos directos (e cerca de 40 mil indirectos). Em sessões de 90 minutos, os estudantes são convidados a reflectir sobre a importância desta figura, desenvolvendo depois conteúdos, de vídeos a cartas, de agradecimento aos professores, que os podem inspirar e motivar. A ideia é que a mensagem chegue depois aos pais e à sociedade em geral. O gatilho pode ser uma questão tão simples como: “Quanto tempo passas por dia com os teus pais e com os teus professores?”.

Portugal continua aquém do que poderia ser, como Afonso dizia ao PÚBLICO em 2013?

O projecto pode também vir a ultrapassar fronteiras: já há “shapers” de Rabat, Índia, Varsóvia, Madrid, entre outros, interessados em replicar a ideia, em inspirar professores. Pode ser uma campanha com “impactos imediatos, mas também para o futuro”, considera o jovem empreendedor. E pede para lhe seguirmos o pensamento: “Um professor muito reconhecido vai sentir-se muito mais motivado para trabalhar e vai esforçar-se muito mais para os seus alunos. Por outro lado, um professor reconhecido pelos alunos vai receber muito mais receptividade, mais abertura e eles vão deixar-se ajudar mais facilmente e colaborar melhor. E um professor reconhecido pelos pais vai ter muito mais apoio para os ajudar nesta missão de educar.” A médio/longo prazo, (“porque isto”, lá está, “é como a reciclagem”, demora tempo a interiorizar), o reconhecimento dos professores leva a uma maior motivação, a “mais e melhor conhecimento e, provavelmente, a menor abandono escolar”. Em 2014, em Portugal, a taxa de Abandono Precoce de Educação e Formação foi de 17,4% — meta da União Europeia é de 10% em 2020.

Dar "mais voz e autonomia" aos alunos

Afonso apresenta-se às pessoas como empreendedor social e professor. Se bem que até prefere a expressão inglesa “education practictioner” para descrever a sua actividade docente, uma vez que remete para “uma pessoa que está a trabalhar de forma prática na educação”. Repete que fala com “humildade” de todas estas questões, precisamente porque este é um mundo “complexo”. E frisa também várias vezes que a escola de hoje deveria dar “mais voz e autonomia aos alunos”, avaliando-os “de acordo com o processo e os resultados”. Ou seja, adoptar um modelo mais “experiencial”, à luz daqueles que são aplicados em níveis de educação superiores.

“Queremos que toda a gente seja inovadora, colaborativa e tudo o mais quando o sistema empurra para o contrário”, critica Afonso. “Essa é a linha de educação que eu defendo: tratar os jovens de certa forma como nós queremos que eles sejam no futuro. Autónomos, capazes de exprimir a sua opinião e pontos de vista diferentes, mas também capazes de decidir, escutar e reflectir sobre o que aconteceu.” Até porque estas são valências “absolutamente essenciais no mercado de trabalho” e nem sempre o sistema avaliativo vigente reflecte essas perspectivas: “Eu acho que os exames não contam toda a aprendizagem do aluno, todo o seu desenvolvimento”, considera Afonso. Curiosamente, semanas depois desta entrevista o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, terminava com os exames nacionais do 4.º e 6.º ano e introduzia provas de aferição para o 2.º, 5.º e 8.º.

Mastering the Fourth Industrial Revolution” (“Dominar a quarta revolução industrial”) é o tema central do Fórum de Davos. Líderes e empresários de todo o mundo vão reunir-se para debater como as transformações tecnológicas podem mudar a forma como a Humanidade vive, trabalha e se relaciona. Afonso tem uns quantos objectivos para esses dias. Quer levar “um bocadinho” do seu país, mostrar as “coisas boas”, ajudar a “posicionar” a marca Portugal: “os dez milhões que cá estão e os cinco milhões da diáspora”. Espera ainda “mostrar a importância de dar espaço aos jovens para implementarem as suas ideias e darem o seu contributo”. E, por fim, tentar conhecer o primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau. “Porque é um professor e eu quero desafiá-lo com o ‘Inspira o teu professor’.”