Proibir Donald Trump de entrar no Reino Unido é dar-lhe um “halo de martírio”

Petição pública para a interdição da entrada do candidato presidencial norte-americano no Reino Unido recolheu mais de meio milhão de assinaturas e foi debatida no parlamento.

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Donald Trump propôs que os muçulmanos fossem impedidos de entrar nos Estados Unidos depois dos atentados terroristas em Paris REUTERS/Donald Chan/Files

Ao longo de mais de três horas, os parlamentares britânicos discutiram os prós e contras de proibir a entrada no Reino Unido do magnata norte-americano, e concorrente à nomeação do Partido Republicano à Casa Branca, Donald Trump. Essa medida extrema foi reclamada por mais de 575 mil subscritores de uma petição pública, escandalizados com a sugestão feita pelo candidato presidencial de impedir o acesso de muçulmanos aos Estados Unidos – um número suficiente para obrigar ao debate público mas não à votação da moção.

Não houve um único político britânico que não condenasse a retórica preconceituosa e ofensiva de Trump, nomeadamente o primeiro-ministro, David Cameron, que expressou o seu profundo desacordo com as “declarações estúpidas, erradas e divisivas” do milionário. Apesar disso, Downing Street deixou claro que nunca autorizaria a interdição, não só em respeito pela liberdade de expressão, mas em nome da manutenção de relações privilegiadas com os Estados Unidos.

Ao lançar o debate, o deputado trabalhista Paul Flynn notou que nenhuma petição ao parlamento conseguiu tantas assinaturas como a que pedia à Grã-Bretanha para recusar um visto de entrada a Donald Trump.“Penso que lhe estamos a dar demasiada atenção”, considerou, temendo que a moção acrescentasse um “halo de martírio” ao retrato do candidato republicano. O conservador Adam Holloway disse que o Reino Unido se arriscava a ser visto como “intolerante” e “totalitário”, se aprovasse a medida.

Só o ministro-sombra do Interior, Jack Dromey, lembrou que o país vive debaixo da ameaça do terrorismo, e em vários locais os recrutadores de grupos como o Estado Islâmico tentam radicalizar indivíduos vulneráveis. “Não quero correr o risco de ter Trump a disseminar a sua mensagem de ódio em Birmingham ou Glasgow, pondo em causa a segurança das nossas comunidades”, afirmou.

Em vez de retaliar contra Trump, a maioria dos parlamentares considerou mais útil confrontar o milionário americano com a sua demagogia, misoginia e xenofobia, para citar alguns dos substantivos utilizados. “Ele parece ter um problema com mexicanos e muçulmanos, gostava que ele visitasse a mesquita do meu bairro de Islington comigo e a minha mulher”, comentou o líder dos trabalhistas, Jeremy Corbyn, que é casado com uma mexicana. Outros parlamentares convidaram Trump para “comer um caril” ou passear em Brixton (um bairro de Londres onde existe uma grande comunidade portuguesa).

E como notava o The Guardian, se em termos “práticos” o debate parlamentar era totalmente inconsequente, a sua importância “simbólica” não devia ser desprezada, já que “diz muito sobre o que seriam as relações entre Washington e o resto do mundo no caso de Trump ser eleito”. Como notava o diário, por tradição os políticos britânicos guardam para si próprios as suas opiniões sobre os candidatos norte-americanos; o facto de todos terem criticado abertamente o favorito na corrida republicana “demonstra até que ponto Trump é mal visto pelo sistema político” do mais fiel aliado dos EUA.

Em comunicado, a empresa que gere os negócios de Trump na Escócia considerou o debate parlamentar um “absurdo” e uma “perda de tempo”. “Interditar uma pessoa que fez uma declaração na América sobre as fronteiras americanas durante a campanha eleitoral americana é ridículo”, lia-se no documento. “Qualquer tentativa nesse sentido levará Donald Trump a abandonar os seus planos para um novo investimento de 700 milhões de libras” no sector do turismo e lazer, avisava.