Irão protesta contra novas sanções americanas ao seu programa balístico

Washington anunciou medidas contra 11 empresas e indivíduos envolvidos no comércio de mísseis, horas depois de uma troca de prisioneiros e da suspensão das sanções ao nuclear.

O míssil Emad é uma variante do Shahab 3, em lançamento na imagem, capturada em 2009.
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O míssil Emad é uma variante do Shahab 3, em lançamento na imagem, capturada em 2009. Ali Shayegan/Reuters/Fars

Teerão criticou nesta segunda-feira a decisão dos Estados Unidos de alargarem a lista de entidades iranianas sujeitas a sanções por estarem ligadas ao programa balístico do país, tomada horas depois de o grosso das medidas contra o programa nuclear iraniano ter sido levantado, revogado ou suspenso.

Washington anunciou a decisão ao confirmar uma troca de prisioneiros norte-americanos e iranianos, concretizada na noite de domingo. A decisão não implica novas sanções, mas acrescenta 11 novos nomes de pessoas e empresas à lista já existente de medidas contra o comércio e o desenvolvimento de novos mísseis.

Para Teerão, que respondeu nesta segunda-feira através do porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, são sanções sem “legitimidade moral ou legal” – as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas que serviam de base para as medidas contra o programa nuclear desencorajam o desenvolvimento de tecnologia balística que possa transportar ogivas atómicas, mas não o proíbem.

Os Estados Unidos quiseram alargar já esta lista em Outubro, quando o Irão testou o novo míssil de médio-alcance Emad, que pode percorrer até 1700 quilómetros e é mais sofisticado do que qualquer outro do arsenal iraniano. Mas, segundo a BBC, a decisão foi adiada por receio de que viesse a prejudicar as negociações nucleares e a troca de prisioneiros, negociada em paralelo durante mais de um ano. 

A operação acabou por ocorrer depois de oficializada a entrada em vigor do acordo nuclear – com a luz verde da Agência Internacional de Energia Atómica, que confirmou que o Irão cumpriu todas as medidas exigidas pelo painel P5+1. Teerão libertou quatro norte-americanos, incluindo o correspondente do diário Washington Post, Jason Rezain, há um ano e meio em cativeiro. Em troca, os Estados Unidos entregaram sete prisioneiros iranianos, condenados em solo norte-americano por violarem as mesmas sanções levantadas no domingo.

“O programa balístico do Irão representa uma ameaça significativa à segurança regional e global e continuará sujeito a sanções internacionais”, argumentou, no domingo, o vice-secretário norte-americano para o terrorismo, Adam Szubin, ao apresentar os novos nomes.

Teerão aponta incongruências no discurso de Washington. “A América vende dezenas de milhares de milhões de dólares em armamento todos os anos a países na região”, disse Hossein Jaber Ansari, citado pela BBC. “Estas armas são usadas em crimes de guerra contra palestinianos, libaneses e, mais recentemente, cidadãos iemenitas.”

E prometeu: “A República Islâmica responderá a estas medidas agravadas e propagandísticas prosseguindo com mais força do que antes o seu programa legal de mísseis e o desenvolvimento das suas capacidades de defesa.”

As sanções norte-americanas a entidades ligadas ao programa balístico iraniano não são as únicas que se mantêm depois de domingo. O comércio entre empresas dos dois países continua proibido, apesar de os Estados Unidos permitirem a partir de agora a entidades não norte-americanas fazerem negócios com iranianos, algo particularmente importante para as áreas do petróleo e hidrocarbonetos. Da parte das Nações Unidas mantém-se também o embargo à venda de armas.

A inclusão de novos nomes na lista norte-americana de sanções pode prejudicar os hesitantes avanços diplomáticos com o Irão. Nesta segunda-feira, segundo escreve a Reuters, os jornais mais conservadores em Teerão usaram o alargamento da lista como pretexto para atacar as iniciativas da linha mais moderada do Presidente iraniano, Hassan Rouhani. “As sanções estão de volta”, lia-se na manchete do jornal Kayhan, que retomava declarações do Supremo Líder, ayatollah Ali Khamenei, dizendo que qualquer tipo de novas sanções seria uma violação do acordo nuclear.

É um tom substancialmente diferente ao usado por Rouhani na noite domingo, quando celebrou o fim das sanções mais drásticas ao Irão. “Nós os iranianos abrimo-nos ao mundo, num sinal de amizade, e deixando para trás as inimizades, suspeitas e conspirações, abrimos um novo capítulo das nossas relações com o resto do mundo.”