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25 depois da Guerra do Golfo o petróleo continua a marcar geopolítica mundial

Tropas norte-americanas
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Tropas norte-americanas REUTERS/Desmond Boylan

Vinte e cinco anos depois da primeira Guerra do Golfo, em que o Iraque invadiu o Kuwait numa tentativa de controlar os poços de petróleo do emirado, o "ouro negro" continua a marcar a geopolítica mundial. Na madrugada de 17 de Janeiro de 1991, uma coligação internacional mandatada pela ONU e liderada pelos Estados Unidos entrou no Kuwait para expulsar as tropas de Saddam Hussein que cinco meses antes tinham invadido o pequeno emirado.

Com a invasão, o ditador iraquiano respondia militarmente à recusa do Kuwait em reduzir a produção petrolífera, o que faria aumentar o preço do barril e as receitas de Bagdad, então numa grave crise financeira devido aos custos da longa guerra Irão-Iraque (1980-1988).

A CIA, segundo vários investigadores, avisou então o presidente norte-americano, George Bush (pai), de que Saddam "controlava a segunda e a terceira maiores reservas provadas de petróleo do Golfo com o quarto maior exército do mundo". Recusando sair do Kuwait e ameaçando invadir os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, Saddam Hussein acelerou o lançamento da operação "Tempestade do Deserto", liderada pelos Estados Unidos, que enviaram 500.000 homens, o maior esforço de guerra desde o Vietname.

As forças iraquianas foram expulsas rapidamente, mas a sua retirada ficou marcada pelas centenas de poços petrolíferos kuwaitianos que incendiaram, alguns dos quais arderam durante meses. Os prejuízos causados à indústria petrolífera kuwaitiana acabaram por constituir o grosso das compensações de guerra exigidas ao Iraque. De um total de 48,5 mil milhões de euros, cerca de 38 mil milhões eram devidos ao Kuwait.

Autorizado a retomar as exportações de petróleo em 1996, o Iraque foi obrigado a consignar 5% das receitas a um fundo, gerido por uma comissão da ONU, para o pagamento das compensações. Do montante total, falta pagar a maior e última tranche, de 4,6 mil milhões de dólares (cerca de 4,2 mil milhões de euros), inicialmente prevista para 2015, mas que o Kuwait aceitou em Outubro voltar a adiar, desta vez para 2017, devido à situação económica do Iraque, agravada pela insegurança e a queda do preço do petróleo.

Na década que se seguiu ao conflito, o Iraque esteve ainda sujeito a um rígido regime de sanções, um embargo financeiro e comercial e quase total que se prolongou até à segunda Guerra do Golfo, em 2003.

A maioria dos analistas admite que o petróleo esteve também na base do envolvimento no conflito dos Estados Unidos, maior consumidor mundial de petróleo, mas também de outros países na "linha da frente" da intervenção, como o Reino Unido. Não para assegurar o controlo da produção de petróleo, mas para proteger poços e produtores, garantindo o fluxo, mantendo os preços estáveis e apoiando regimes pró-ocidentais na região.
O mesmo é apontado em relação à segunda Guerra do Golfo.

Insistentes acusações de que a decisão de avançar para a invasão do Iraque em 2003 foi antecedida nalgumas capitais ocidentais de reuniões com os mais altos responsáveis das companhias petrolíferas foram veementemente negadas pelos governos e pelas empresas. Mas em 2011, documentos divulgados por Londres ao abrigo da legislação sobre liberdade de informação mostraram que nos meses anteriores à invasão ministros britânicos reuniram-se pelo menos cinco vezes com executivos da BP e da Shell, preocupados em não ficar de fora dos acordos que a administração Bush estava a preparar com companhias norte-americanas, francesas e russas.

Hoje, 25 anos passados sobre a invasão do Kuwait, o petróleo atravessa uma crise de excesso de produção e queda acentuada do preço do barril, num contexto de crescente produção nos Estados Unidos e da iminente reentrada do Irão no mercado de exportações com o fim do embargo permitido pelo acordo internacional de julho de 2005.

Segundo um relatório o Fundo Monetário Internacional divulgado em Outubro, quando o barril estava a 50 dólares, a manter-se esse preço a maioria dos produtores do Médio Oriente ficará sem dinheiro em cinco anos ou menos. Incluindo a Arábia Saudita, maior produtor mundial.

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