Rui Soares
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Rui Soares

Esta é a história de "Um Estranho Por Dia"

Miguel A. Lopes, João Porfírio, Rui Miguel Pedrosa e Rui Soares revelam (pelo menos) uma pessoa por dia e contam uma parte pequena de uma história, que é única

Cecília Gomes trabalha a vender farturas desde os 18 anos e diz que já correu o país de “lés a lés”. Carlos (nome artístico Tatiana) saiu de casa aos 14 anos para trabalhar no Algarve, onde acabou envolvido no mundo da prostituição. O romeno Mirel Radu está em Portugal há 14 anos e já não vê o filho há três. Tatiana Azevedo tem 23 anos e é bombeira porque sentiu que devia ajudar os outros. Não há uma fórmula. Há pessoas — estranhas apenas por alguns momentos. E há a curiosidade de quatro fotógrafos que decidiram juntar fotografias e histórias no projecto "Um Estranho Por Dia". 

Do projecto "Humans of New York" ao "Porto Olhos nos Olhos". A fotografia tem mais valor ao serviço do cidadão "estranho”?

Miguel A. Lopes — Sinceramente começámos este projecto sem olhar para outros projectos existentes. Eu, que fui quem deu o primeiro passo neste projeto, nem conhecia o "Porto Olhos nos Olhos". Conhecia o "Humans of New York", mas acho que a fotografia não tem grande destaque. Decidi fazer isto porque queria muito evoluir em termos de retrato e obviamente pela enorme curiosidade na possíveis histórias e por já ter ouvido no meu dia a dia histórias fantásticas de pessoas que dariam certamente um belo estranho mas não havia o suporte e espaço. Percebemos agora que o projecto está a ter um grande impacto social, as pessoas identificam-se com os nossos estranhos, choram, riem e ficam a pensar muito ao ler as suas histórias.

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Valter Santos — fotografia de Rui Miguel Pedrosa

Que tipo de logística envolve "Um Estranho por Dia"?

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Os quatro fotógrafos do projecto Um Estranho Por DIa — foto de Dalila Couto

João Porfírio — Não há nenhuma "fórmula" na forma como abordamos os nossos "estranhos". Depende do ambiente, da situação, do espaço e cada pessoa reage de maneira diferente ao nosso primeiro contacto. No meu caso em particular, por norma, começo sempre porque fazer uma abordagem a explicar o projecto, mostro na maior parte das vezes o Facebook ou o instagram do projecto a partir do meu smartphone e pergunto se posso contar com a colaboração da pessoa. Há pessoas bastantes curiosas como nós e perguntam-me como é que surgiu a ideia, quem são os outros elementos, para que finalidade é a sua fotografia ou até "porque é que me escolheu a mim?". Nestes casos respondo sempre com sinceridade e explico o porquê que de ter escolhido aquela pessoa. Tentar o equilibro entre uma boa foto e uma boa história é o nosso objectivo diário mas que nem sempre se consegue concretizar. No que diz respeito à organização interna do nosso grupo, discutimos as fotos de cada um, damos opinião sobre qual a melhor foto a ser publicada e é aí também que tomamos as principais decisões do projecto. É uma maneira funcional e rápida de estarmos todos em contacto.

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Hicham Yahyaoui — fotografia de MIguel A. Lopes

Qual foi a história mais estranha de um dos vossos estranhos?

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José M. — fotografa de João Porfírio


Rui Miguel Pedrosa — Acho que nunca senti, nem ouvi, nenhuma história estranha. Nem mesmo aquelas que as pessoas pedem para não falar delas. São histórias do dia-a-dia, a vivência de cada um. Algumas histórias são tristes. Outras são tristes, mas de alguma forma foram ultrapassadas. E outras são mesmo felizes. Eu gosto de ter a sorte de encontrar uma história feliz. E depois aliar isso a uma boa fotografia é o verdadeiro desafio. Por vezes, não conseguimos nem uma coisa nem a outra. Recentemente, aconteceu uma coisa que só dei conta em casa ao tentar escrever o texto. Fiquei tão absorvido pela conversa que acabei por falar muito pouco sobre a “estranha” em questão. Fiquei aborrecido, mas a conversa valeu a pena. Naquele dia ponderei fotografar outro estranho, mas depois pensei que não fazia sentido. Aquela pessoa era a “minha estranha” do dia.

Os vossos estranhos deixam de ser estranhos depois de serem fotografados por vocês?


Rui Soares — Sim, claramente. Já voltei a encontrar alguns “estranhos” em muitos locais que geralmente frequento e já nos cumprimentamos pelo nome. Por vezes pergunto-me porque é que pessoas que habitam os mesmo espaços não se conhecem. O projecto até pode resultar numa certa aproximação entre todos nós.