Francois Lenoir /Reuters
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Megafone

Well done, Mr. Bowie

Depois do grande silêncio a que uma grande morte sempre nos condena, vale a pena lembrar agora, como Shakespeare, que o que resta da vida é a sua encenação

No filme "A Grande Beleza" (2013), de Paolo Sorrentino, Tony Servillo afirma que o funeral é tão mundano e performativo como outro espetáculo qualquer. Afinal, o palco derradeiro em que nos colocamos em cena.

Também a série "Sete Palmos de Terra" (2001-2005), de Alan Ball, abordou este tema de forma sublime, sendo a morte, o palco e cenário privilegiado da arte como vida.

Há uns meses, num debate sobre poesia, fui extensamente criticada por afirmar que era muito ténue ou inexistente a linha que separa a arte da vida. Não estava, como não estou, a falar da premissa fluxista de Maciunas mas do facto de haver quem dê a vida pela arte.

O que dizer então de quem fez da morte, arte, e da arte, o palco derradeiro da vida?

Depois do grande silêncio a que uma grande morte sempre nos condena, vale a pena lembrar agora, como Shakespeare, que o que resta da vida é a sua encenação.

David Bowie usava o corpo como tela. No teatro, no cinema, na música, como na vida, era uma espécie de gnomo contente e irreverente que fez da arte da performance, a performance da arte: ele próprio. O seu corpo era a sua obra de arte.

Como escreve na música com que se despediu (não, não acho que tenha sido com a “Lazarus” mas sim com a “Blackstar”, muito mais Bowie; e boa sorte aos críticos que tentarem, daqui a uns anos, fazer a "close reading" desta obra de arte): “não sou uma estrela de cinema, não sou uma estrela pop, não sou uma estrela maravilhosa; sou uma estrela negra, sou tão grande quanto sou”; de novo, o célebre soneto 21.º de Shakespeare: “I am that I am”.

Indecifrável, Bowie foi um "appearance" cintilante no palco da cultura do século XX: esplendoroso e surrealizante, o melhor que o pós-modernismo das identidades sintéticas dos anos 80 viu triunfar.

Tendo-se iniciado como performer num espetáculo de "commedia dell’arte" de Lindsay Kemp, “Pierrot in Turquoise”, no Oxford New Theater em 1968, já então na camaleonesca figura do "clown", espécie de mimo silencioso e triste de cada um de nós, Bowie é hoje recordado nesse trânsito glamoroso de personagens que eximiamente criou, desde o prodigioso e andrógino Ziggy Stardust ao aladino sensato; tudo e apenas "personas" experimentais da mais experimental das "personas": David Bowie.

Assim, o que este artista fez pela massificação do experimentalismo e da arte da "performance" é inominável. Com o mérito de se ter tornado consensual. Não que tivesse que o fazer. Não que tenha feito por isso. Não que a arte tenha que o ser. Mas não resisto à tentação de lembrar o quão criticados e incompreendidos têm sido os artistas experimentais que reescrevem constantemente a história da arte. E se, como escreveu Sándor Márai em "As velas ardem até ao fim", “um dia as coisas amadurecem e respondem”, a Bowie, como a “vela solitária no centro de tudo” de “Blackstar”, bastou-lhe ser ele próprio, etéreo, sublime, contestado e eloquente, sem concessões. É a chamada franqueza, que sendo humana, era estética, logo, desarmante.

Well done, Mr. Bowie, you’ve really made the grade.