Obama defende legado mas lamenta não ter sido capaz de travar os rancores e divisões entre os partidos

No seu último discurso sobre o Estado da União, o Presidente dos EUA regressou aos temas fortes da sua campanha: a mudança e a esperança.

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Barack Obama durante o seu último discurso sobre o Estado da União REUTERS/Evan Vucci
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Obama no meio dos congressistas REUTERS/Kevin Lamarque
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Michelle Obama acena no seu camarote, onde uma cadeira ficou vazia em homenagem às vítimas da violência nos EUA REUTERS/Kevin Lamarque
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Obama cumprimenta o speaker, Paul Ryan REUTERS/Jonathan Ernst
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Obama aplaudido REUTERS/Evan Vucci

Se nada de extraordinário se passar até ao final do ano, o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não voltará a falar perante as duas câmaras do Congresso, reunidas com a pompa e circunstância, e a reverência e simbolismo, que marcam as noites do discurso sobre o Estado da União. Por isso, Obama aproveitou o momento, improvisou piadas, saboreou os aplausos, desafiou os assobios e, sem a preocupação de um novo ano de governo para além de 2016, ofereceu a quem o ouviu um primeiro rascunho — pessoal e político — da avaliação dos anos que passou na Casa Branca que espera ler nos livros de História.

Como da primeira vez que se dirigiu aos legisladores, no início de 2009, ainda embalado pela onda de boa-vontade e optimismo gerada pela sua eleição a todos os títulos histórica, Obama falou da “audácia da esperança” e da “mudança em que se pode acreditar”. Mas ao contrário do que aconteceu há oito anos, ofereceu um retrato do Estado da União pintado em cores vivas e alegres: os Estados Unidos são agora um país que recuperou da pior crise económica em gerações, que reinventou a sua política energética e assegurou a todos os cidadãos a liberdade de casar com a pessoa que desejam, enumerou.

Essa não é a imagem que vêem os seus adversários republicanos, que no Congresso e na campanha pela nomeação para a Casa Branca, não se cansam de assinalar erros e falhanços na acção do Presidente. Para eles, a América de Obama não é um país forte, próspero e credível, mas uma potência fraca: a disponibilidade para negociar, promover consensos e aceitar compromissos não é um trunfo e muito menos um progresso face ao passado, contrapõem os conservadores. “O estado da nossa união é terrível. Não conseguimos vencer o Estado Islâmico, o nosso Exército está a ficar para trás. O Obamacare é um falhanço. E as nossas fronteiras são uma miséria”, denunciou o favorito na corrida republicana, Donald Trump, antecipando o seu balanço nos talk-shows de domingo.

Ao longo da sua intervenção de uma hora, sem mencionar nomes, Obama desconstruiu a narrativa negativa dos conservadores, apresentando factos e números que, na sua opinião, demonstram sem margem para dúvidas a situação invejável em que os Estados Unidos se encontram, “a postos para um futuro brilhante”. O Presidente referiu o crescimento e o dinamismo da economia, a criação de postos de trabalho e a estabilidade da taxa de desemprego nos 5%, a tendência para a inovação e diversificação do sector produtivo. “Quem quer que seja que diga que a economia americana está em declínio está a falar numa ficção”, observou — obrigando o speaker do Congresso, o congressista Paul Ryan, sentado atrás de si, a piscar os olhos e morder os lábios por se sentir pessoalmente visado pelo comentário.

Mais: “Toda esta retórica sobre os nossos inimigos estarem mais fortes e nós estarmos mais frágeis? Os Estados Unidos são o país mais poderoso do mundo, ponto final. É que não há a mínima comparação”. No que diz respeito à política externa, Obama defendeu as medidas da sua administração para combater a expansão do Estado Islâmico e travar a ameaça da Al-Qaeda — e reconhecendo que a situação no Médio Oriente ainda é de caos e confusão, e que em muitas outras regiões do mundo, do Afeganistão e Paquistão, à África Ocidental ou à América Central, a instabilidade ainda é a norma, recusou dar eco às vozes que apontam a iminência de uma terceira guerra mundial ou que envolvem os EUA num choque de civilizações.

Liberto dos constrangimentos da agenda legislativa (no último ano de mandato, os Presidentes já não avançam novas políticas que querem ver aprovadas pelo Congresso, limitando-se a gerir iniciativas que ajudem a definir o seu legado), Barack Obama pôde dar-se ao luxo de usar o seu discurso para falar directamente aos norte-americanos, leia-se, aos eleitores que em Novembro vão escolher o seu sucessor — e que, por isso, devem conhecer os desafios e os riscos que o país enfrenta, e perceber quais são as possibilidades e oportunidades, e o “potencial” da América para se tornar ainda melhor.

Obama reconhece as circunstâncias em que acontece o seu discurso, menos de um mês antes do arranque das eleições primárias, que vão definir quem serão os dois concorrentes, democrata e republicano, à Casa Branca (aliás, logo a abrir, disse àqueles que se preparam para viajar para o Iowa, o primeiro estado a votar, que estava disponível para lhes dar umas dicas. “Eu já lá estive, sei como cumprimentar as pessoas.”). Mais do que rebater os argumentos dos seus adversários — que segundo os porta-vozes da administração se têm limitado a explorar a insegurança e o medo e a alimentar os preconceitos e a divisão para obter vantagem política —, o Presidente disse querer “aprofundar” o debate, corrigir o tom crítico e vincar o contraste entre os diferentes modelos (e as distintas visões) que existem na sociedade americana.

“Vamos responder aos desafios do nosso tempo com medo, virando-nos para dentro enquanto nação e voltando-nos uns contra os outros enquanto sociedade? Ou vamos enfrentar o futuro com confiança em quem somos, aquilo que representamos e as coisas incríveis que conseguimos fazer juntos?”, perguntou. “O futuro que queremos — oportunidade e segurança para as nossas famílias; uma melhor qualidade de vida e um planeta mais pacífico e sustentável para os nossos filhos — está ao nosso alcance. Mas só acontecerá se trabalharmos juntos, se tivermos debates construtivos e racionais. Isso não quer dizer que temos de concordar. Podemos discordar. Mas a democracia exige laços básicos de confiança entre os cidadãos, e deixa de funcionar se as pessoas sentirem que as suas vozes não são ouvidas”, declarou.

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A ideia da Casa Branca era que o discurso sobre o Estado da União servisse como uma espécie de tiro de partida na corrida eleitoral, com o Presidente a redefinir os termos do debate político, e já agora também o seu conteúdo: ao referir os progressos alcançados nos últimos oito anos, e apresentar ideias para a sua consolidação, não até ao fim do mandato, mas nos próximos cinco ou dez anos “e ainda mais além no futuro”, Obama pretende influenciar a forma como se vai desenrolar a campanha — e de forma mais decisiva, a estratégia que vai ser seguida pelo seu próprio partido.

Claro que o Presidente não se pronunciou sobre pormenores da campanha; limitou-se a insistir que os americanos terão uma escolha importante a fazer em breve, e a sublinhar como é importante o envolvimento e a participação de todos nesse processo. E num momento mais cândido de auto-crítica, lamentou não ter os talentos de anteriores líderes como Abraham Lincoln e Franklin Roosevelt para “construir pontes” e ultrapassar os rancores e desconfianças que minam o debate e acção políticas. “É um dos poucos arrependimentos da minha presidência, de não ter sido capaz de evitar as divisões e as suspeições entre os partidos, que pioraram em vez de melhorar. Mas garanto que continuarei a tentar ser melhor enquanto estiver neste cargo”, prometeu.

Apesar dos improvisos, confissões e apartes, o Presidente manteve-se fiel ao guião dos discursos do Estado da União e, cumprindo a tradição, não deixou de apontar algumas das suas conquistas e sucessos do ano passado. Além da assinatura do acordo nuclear com o Irão, e da normalização das relações diplomáticas com Cuba, dois inimigos históricos do país, o Presidente salientou a importância do consenso alcançado em Paris para a redução das emissões de gases com efeito de estufa e o combate às alterações climáticas, ou o fecho das negociações para um novo pacto comercial com a região da Ásia-Pacífico.

Obama pareceu satisfeito com tudo o que a sua administração alcançou desde 2009, e mesmo se as ambições (e expectativas) para os meses que lhe restam na Casa Branca são agora mais limitadas, não desistiu de resolver algumas matérias pendentes, delicadas e controversas. Uma delas é a da regulação do comércio e do uso de armas pessoais nos Estados Unidos. Na semana passada, perante a inacção do Congresso e a multiplicação de massacres e tiroteios no país, o Presidente decidiu agir unilateralmente pela via administrativa, assinando ordens executivas para aperfeiçoar o sistema de controlo de quem pode comprar e vender armas. Mas Obama quer acção legislativa, e para convencer a sua oposição deixou uma cadeira vazia no camarote ocupado pela Primeira-Dama no grande salão do Capitólio, em homenagem a todas as vítimas da violência armada nos EUA.

Um outro objectivo de que Obama não abriu mão tem a ver com o encerramento definitivo do campo militar de Guantánamo Bay, onde ainda permanecem detidos cerca de cem alegados combatentes estrangeiros sob suspeita de terrorismo. Foi uma promessa eleitoral que o Presidente tentou cumprir assim que chegou à Casa Branca: os seus esforços iniciais foram imediatamente torpedeados, a administração percebeu as dificuldades e fez uma opção estratégica, optando por usar todo o seu capital político para fazer aprovar a reforma do funcionamento do sistema de saúde (vulgo Obamacare). “É caro, é desnecessário e não serve os nossos interesses, funcionando como uma brochura de recrutamento dos nossos inimigos”, considerou. Mas, significativamente, não ofereceu nenhuma solução ou plano para fechar Guantánamo até Janeiro de 2017.

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Carlos Barria/Reuters