Crítica

Dissipar a noite originária

Um texto fundamental para compreender não só a arte pré-histórica mas a própria condição humana.

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As pinturas de Lascaux são, para Bataille, o momento em que o homem se inventou a si próprio. PIERRE ANDRIEU/AFP

Por mais surpreendente que possa parecer, a arte tem uma data e um lugar de nascimento: um tempo distante há cerca de 20 mil anos, no Sul de França, em Lascaux, região da Dordonha. Descobertas em Setembro de 1940, as pinturas de Lascaux, dadas as suas dimensão, organização, qualidade, sofisticação e excepcional antiguidade, afectaram profundamente a compreensão do momento em que o homem inventou a arte. Para Bataille, trata-se também do momento em que o homem se inventa a si próprio: ao inesperadamente gerar a arte a partir do nada, o homem dá inicio àquilo a que o pensador francês chama a comunicação de espíritos, e que é a marca da nossa humanidade. Esta gruta onde, orgulhosamente, se exibem as primeiras pinturas de sempre é também o lugar onde nascemos.

Ainda que tenham mais de 20 mil anos, estas pinturas possuem uma frescura de mocidade, no sentido de continuarem a ser para nós lugares de espanto, sentido e pensamento. O seu nascimento, como todos os nascimentos, transporta elementos de incompreensibilidade dos quais a nossa inteligência e a nossa sensibilidade conseguem aproximar-se, mas nunca inteiramente dominar. Neste sentido, o que podemos ver em Lascaux é uma força que arranca o homem da sua estagnação inicial e faz nascer qualquer coisa de indeterminado a que hoje chamamos arte. E o bom conceito para descrever esta explosão é o de nascimento: não só porque aquilo que nasce deixa sempre escondidas as suas causas primeiras, mas também porque se trata aqui de qualquer coisa que excede tudo o que até então o homem tinha conseguido criar. Escreve Bataille: “Com uma espécie de imprevisto golpe de sorte, estes homens de Lascaux tornaram sensível o facto de serem homens e se parecerem connosco, embora o tivessem feito deixando-nos a imagem da animalidade que eles abandonavam. Como se tivessem querido enfeitar um prestígio nascente com a graça animal que tinham perdido. Estas figuras inumanas não se limitam a anunciar com força juvenil que foram pintadas por quem consumava a sua transformação em homem, mas que foram feitas dando da animalidade, e não de si próprios, esta imagem sugestiva do que há de fascinante na humanidade” (pp. 85-86).

A tentativa de reconstituir em pensamento a cena originária do nascimento desta pintura, que é uma pintura sobre as forças humanas, a sua potência e a sua fragilidade, não significa para Bataille fixar nenhum tipo de categorias para dissipar os mistérios de Lascaux. Mas corresponde a um esforço de auto-conhecimento: o que acontece nas paredes desta gruta é, essencialmente, o gesto a partir do qual o homem se conhece a si mesmo enquanto oposição e diferença do animal. Não se trata de negar a animalidade humana afirmando uma superioridade, mas de reconhecer uma diferença, isto é, o abismo existente entre o homem e os animais que o rodeiam: “A superioridade do homem afirmar-se-á apenas no domínio técnico, para o qual ele transporta o utensílio. No domínio mágico atribuirá ao animal uma força não menor do que a sua. Por outro lado, o animal é superior ao homem devido a uma ou a várias das suas características: a força física, a agilidade, a acuidade do ouvido e do olfacto, tudo qualidades que o caçador apreciará. Ainda maior apreço dará aos poderes espirituais que ele associa a estas qualidades físicas… O animal está em contacto mais directo com a divindade; e tem, bastante mais perto de si do que o homem, forças da natureza que mais facilmente se encarnam nele” (p. 126).

Trata-se de uma diferença, e não de um jogo de poder e submissão. O que Bataille faz é ver em Lascaux o símbolo da idade da História em que a besta humana começou a dar lugar ao ser liberto que hoje somos. Esta ideia é tão forte para Bataille que ele descreve o testemunho presente nas rochas daquelas grutas como o testemunho do começo da nossa vida, do distanciamento em relação à miséria humana inicial, da dissipação da noite de onde vimos: “Colocados perante os frescos de Lascaux que são ricos, e são-no desmesuradamente quanto ao movimento da vida animal, como atribuir àqueles que os conceberam uma pobreza contrária a este movimento? Se a vida não tivesse levado estes homens a um nível de plena exuberância, de alegria, eles não teriam conseguido representá-la com esta força decisiva. Mas é sobretudo claro aos nossos olhos que ela os agitava humanamente; esta visão da animalidade é humana naquilo que a vida, por ela encarnada, ali se transfigura; é bela, e por esta razão soberana para lá da imaginável miséria” (p. 34).

O nascimento da arte está associado ao dom do engenho, no sentido em que a existência de utensílios permite o fazer da arte. Mas nunca se tratou de um gesto utilitário, porque para o homem de Lascaux pintar foi um gesto que transbordou o mundo do trabalho e da necessidade. Há uma descoincidência entre a invenção/utilização dos utensílios de trabalho e a invenção da arte, o que mostra que a arte radica, acima de tudo, na festa e no recreio. E, seguindo Bataille, esta descoincidência não mostra um pressuposto de inutilidade, mas revela o modo como a arte começa por ter um valor de oposição relativamente a um mundo pré-existente. Se esta oposição à animalidade e à necessidade constitui um dado importante, importa também realçar o modo como é através da arte que “o homem reencontrará o sensível”, “para lá das obras úteis” (p. 41).

Ainda que o nascimento da arte seja lido por Bataille como a descoberta de uma força humana técnica e imagética que se opõe a todas as outras forças vivas e que excede a condição da necessidade, também acompanha o gesto dos primeiros pintores a expectativa de poder actuar no mundo. Não se tratou, propõe Bataille, de mudar o mundo da mesma forma que se “talha uma pedra”, mas de acreditar na “possibilidade de o influenciar; não como influenciava as coisas, trabalhando, mas como influenciava outros homens, pedindo-lhes e obrigando-os, apaziguando-os com dádivas” (p. 129).

Tal como as pinturas das rochas de Lascaux, o texto fundamental de Bataille não encerra nenhum tipo de interpretação, mas é uma aproximação ao sentido mais originário, primeiro e mágico do gesto do primeiro pintor. As questões que levanta, os sentidos que descreve, a sensibilidade que explora são elementos decisivos não para compreender a arte pré-histórica, mas sim o gesto que qualquer pintor realiza quotidianamente quando enfrenta uma nova pintura. Neste sentido, o nascimento da arte em Lascaux é um nascimento de que todos participamos, porque ele corresponde a uma descoberta que se repete cada vez que alguém faz arte como forma de agir no mundo.