PAR recolhe mais de 200 mil euros para refugiados no Líbano

Plataforma de Apoio aos Refugiados vai prolongar campanha de angariação de donativos até Março.

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No Líbano, um país com quatro milhões de habitantes, estão a viver mais de um milhão de refugiados sírios JOSEPH EID/AFP

São sobretudo donativos de particulares mas também de empresas, e foram entregues em quantias elevadas, superiores mil euros, mas na maioria em pequenas quantias, de menos de 100 euros. Juntos, permitiram ultrapassar “o objectivo estabelecido” pela Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) de angariar 200 mil euros para apoiar refugiados, em países, junto à Síria, como o Líbano que nos últimos dois anos já acolheu mais de 1,5 milhões de refugiados sírios.

Foi por isso com satisfação que Rui Marques, principal dinamizador da PAR, criada em Setembro e que reúne cerca de 300 instituições da sociedade civil e empresas, anunciou que a recolha de fundos no quadro da campanha PAR Linha da Frente, inicialmente prevista para terminar no fim de Dezembro de 2015, excedeu as expectativas mas vai continuar até 31 de Março de 2016.

“Mesmo com as dificuldades que as famílias portuguesas enfrentam, não recusam a generosidade”, salientou numa cerimónia em Lisboa, esta segunda-feira, na qual também participou António Guterres, que foi o Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), nos últimos dez anos e até ao final de 2015.

A quantia de 206.508 euros foi recolhida até esta segunda-feira, dia em que a PAR transferiu o dinheiro para as duas organizações com quem assinou protocolos para apoiar os refugiados no Líbano: a Cáritas Líbano e o Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS), organizações internacionais ligadas à Igreja Católica.

Desta quantia total, 131.999 euros foram doados por particulares, e um pouco mais de 74.509 euros foram por empresas ou organizações. Os pequenos contribuintes constituíram “uma parte importante”, realçou Rui Marques. “Alguns com cinco euros, ou com dez euros”, explicou, congratulando-se pela “mobilização dos portugueses para este gesto solidário com os refugiados”. Assim, os pequenos contribuintes permitiram recolher mais de 42 mil euros (enquanto os grandes contribuintes, de quantias entre 1000 e 5000 euros, contribuíram com quase 37 mil euros).

Nas apresentações, Rui Marques voltou a lembrar que a PAR, além do “trabalho concreto” desenvolvido em Portugal para o acolhimento de refugiados, apoia “os refugiados que estão em situação difícil”. Entre estes, “a PAR elegeu o Líbano como destino principal” dos apoios financeiros obtidos nesta campanha sob o lema: "Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar."

Com os fundos recolhidos pela PAR, o JRS apoia 1720 crianças em cinco escolas na região do Vale de Bekaa, junto à fronteira com a Síria, onde se concentram muitos refugiados. O objectivo, disse ao PÚBLICO André Costa Jorge, director do JRS em Portugal que faz a ligação entre a PAR e a JRS do Médio Oriente, é oferecer uma refeição diária a estas 1720 crianças, durante um ano. “Uma refeição para permitir a estas crianças aprender”, completou Tony Callja, director do JRS Médio Oriente, que participou na cerimónia via Skype.

O presidente da Cáritas do Líbano, o padre Paul Karam, também marcou presença na cerimónia e diz que a questão “não é responder às necessidades do presente”. O responsável evocou o impacto e as consequências da guerra e da crise que se prolongam no tempo e esclareceu que o número real de refugiados sírios a viver no Líbano ultrapassa em muito os 1,2 milhões registados, e supera certamente os 1,5 milhões, que nos últimos quatro anos chegaram ao Líbano, um país de quatro milhões de habitantes.

“No Líbano, não temos campos oficiais. Os refugiados sírios instalam-se no campo, em espaços vazios, fechados ou ao ar livre, em garagens ou, aqueles que têm mais meios, alugam casas”, descreveu. “Quando a crise começou, os libaneses colaboraram muito para ajudar os refugiados. A crise mantém-se e cria problemas na vida dos próprios libaneses, especialmente das comunidades anfitriãs.”

Por fim realçou: “As necessidades são mesmo imensas e as capacidades existentes muito limitadas. Mesmo o ACNUR teve muita dificuldade em apoiar todos os refugiados, devido ao seu elevado número, ao tempo desta crise, quatro anos, e às suas consequências.”

António Guterres, que encerrou a cerimónia, voltou a alertar para o "mundo caótico" em que vivemos, como fizera na semana passada, no Seminário Diplomático em Lisboa. E descreveu a entrega dos donativos como uma “homenagem à sociedade civil” que “na linha da frente desempenha um papel absolutamente decisivo” de apoio a pessoas que fogem da guerra e da “perseguição”.

"Mobilizando recursos e mobilizando consciências", estas organizações "são uma forma de redenção” da comunidade internacional perante “a mega crise dos nossos tempos”, na Síria, mas também no Iraque, e não só. Guterres lembrou que os conflitos nestes dois países já provocaram 15 milhões de refugiados, num tempo em que é “cada vez mais evidente a impunidade”, perante os “quatro pecados ou as quatro falhas” da comunidade internacional.

Entre eles, apontou o facto de a comunidade internacional “não ter resposta nem capacidade para prevenir estes conflitos e para os resolver”, não ajudar na proporção das necessidades dos refugiados e das vítimas da guerra, nem na proporção da necessidade dos países que os acolhem, em grandes números. Por exemplo, o Líbano, que descreveu como “um exemplo gritante”, um país onde “por cada três libaneses, há um refugiado sírio", mas também a Jordânia, e tantos outros países africanos ou do Médio Oriente, que por serem países vizinhos, acolhem refugiados de guerra. Por fim, entre “as quatro falhas”, lamentou “as reacções negativas” nalguns países europeus a esse acolhimento. Reacções “exploradas por forças políticas e sociais xenófobas” o que, segundo disse, “cria uma rejeição” na Europa de 550 milhões de habitantes acolheu um milhão de refugiados em 2015.

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