Na noite de O Renascido é (outra vez) por Ricky Gervais que os Globos de Ouro vão ser lembrados

Edição 2016 volta a ser apresentada pelo politicamente incorrecto comediante britânico e troca as voltas aos observadores.

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Leonardo DiCaprio venceu o Globo de melhor actor Mario Anzuoni/Reuters

Os vencedores da noite podem ter sido Jennifer Lawrence, Leonardo di Caprio, Matt Damon, Gael García Bernal, Ennio Morricone, O Renascido ou Mr. Robot, mas é pelo humor supremamente desconfortável do comediante britânico Ricky Gervais que a edição 2016 dos Globos de Ouro vai ser lembrada. Por isso, mas também pelo facto de Matt Damon ter recebido o Globo de Melhor Actor de Comédia pelo filme de ficção científica de Ridley Scott Perdido em Marte , que venceu igualmente o prémio de melhor comédia ou musical. Ou por Lady Gaga ter recebido o Globo de Melhor Actriz numa mini-série pela sua participação em American Horror Story: Hotel. Ou por Denzel Washington ter praticamente admitido que um Globo de Ouro é pago pelos departamentos de marketing dos grandes estúdios.

Ou seja, tudo na mesma na entrega dos prémios da Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood: uma paragem obrigatória no circuito mediático dos prémios que já nem sequer se preocupa com a sua irrelevância. Ricky Gervais, regressando à apresentação da cerimónia pela quarta vez após três anos de ausência, avisara no Twitter, horas antes do directo, que o que tinha planeado o tornaria mais indesejado no mundo ocidental do que o barão da droga mexicano El Chapo (recapturado há poucos dias, mas também entrevistado pelo actor Sean Penn para a revista Rolling Stone, numa peça publicada este fim-de-semana). Por entre farpas à celebridade transgénero Caitlyn Jenner (e ao actor Jeffrey Tambor, que interpreta uma personagem transgénero num dos grandes perdedores da noite, a série Transparent), Gervais definiu os Globos no seu monólogo de abertura como essencialmente inúteis.

“Um bocadinho de metal que uns quantos jornalistas simpáticos, velhotes e confusos vos querem dar para vos poderem conhecer e tirar uma selfie com vedetas”, disse o actor. E Denzel Washington, em palco para receber o galardão de carreira, contou no seu discurso de agradecimento como, em 1990, quando foi nomeado para melhor actor secundário por Tempo de Glória, o produtor daquele filme lhe explicou como é que iam ganhar: passando a “mão pelo pêlo” dos membros da Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood. E Washington venceu, de facto, o prémio nesse ano…

Um dos muitos momentos peculiares de uma cerimónia onde Quentin Tarantino, recebendo o prémio entregue a Ennio Morricone pela banda-sonora de Os Oito Odiados, chamou à música para cinema um “gueto”; onde Taraji P. Henson impediu a orquestra de interromper o seu discurso de agradecimento pelo galardão de melhor actriz na série televisiva Empire; onde Mel Gibson, “pária” em Hollywood desde a revelação das suas fúrias anti-semitas, veio a palco entregar um prémio. E onde praticamente todas as séries e filmes que partiam favoritos desde o anúncio das nomeações foram para casa de mãos a abanar. Nem o filme de Todd Haynes Carol nem a aclamada série televisiva da Amazon Transparent, que partiam à frente em número de nomeações, receberam uma única estatueta. E outros grandes favoritos, como A Rapariga Dinamarquesa, A Queda de Wall Street ou O Caso Spotlight no cinema, e Orange Is the New Black ou A Guerra dos Tronos na televisão, saíram do hotel Beverly Hilton como entraram: sem prémios.

Na televisão, onde o “mal foi dividido pelas aldeias”, o drama sobre um hacker paranóico Mr. Robot (exibido em Portugal no canal de cabo TVSéries) e a comédia sobre um maestro em Nova Iorque Mozart in the Jungle venceram os prémios de melhor série; Christian Slater ganhou melhor actor secundário pela primeira, Gael García Bernal melhor actor de comédia pela segunda. A produção da BBC Wolf Hall, adaptando o romance de Hilary Mantel, foi considerada melhor mini-série ou telefilme. Para além de Lady Gaga, naquela que ficará certamente como uma das vitórias mais singulares da história dos Globos, os prémios de representação foram entregues a Taraji P. Henson pela telenovela “hip-hop” Empire (Fox Life), Rachel Bloom pela comédia Crazy Ex-Girlfriend, Oscar Isaac pela mini-série da HBO sobre a corrupção na política Show Me a Hero (TVSéries) e Jon Hamm pela última temporada da aclamada Mad Men (RTP e Fox). Quem quiser vir aqui à procura de uma qualquer lógica de “televisão tradicional vs televisão online” não vai ter sorte – apenas Mozart in the Jungle é produzida por um dos sites “disruptores” do modo tradicional de consumir séries, no caso a Amazon.

Quanto ao cinema, os vencedores da noite são claramente o western do mexicano Alejandro Iñárritu, O Renascido, Perdido em Marte, e, surpreendentemente, o filme biográfico de Steve Jobs dirigido por Danny Boyle. O primeiro – que chega às nossas salas dia 21 - recebeu três galardões: melhor filme dramático, melhor actor para Leonardo di Caprio e melhor realizador. Foi também alvo de um dos mais bizarros sketches da noite, com os actores Channing Tatum e Jonah Hill a fazerem referência à infame cena em que Di Caprio é atacado por um urso – ou, segundo as más-línguas espalharam, “violado por um urso”. Mas o conteúdo “interdito a menores de 18 anos” do sketch fez com que quem estivesse a ver a transmissão do programa através da cadeia NBC (SIC Caras em Portugal) ouvisse apenas um sem-número de “pis” em vez da “linguagem forte” usada pelos actores.

Perdido em Marte, por seu lado, venceu melhor actor de comédia para Matt Damon (apresentado por Ricky Gervais como “a única pessoa a quem Ben Affleck nunca foi infiel”) e melhor comédia ou musical – classificação que até o realizador Ridley Scott, que subiu a palco para receber o galardão, achou estranha. Steve Jobs levou as estatuetas de melhor actriz secundária (Kate Winslet) e melhor argumento original.

Jennifer Lawrence foi melhor actriz de comédia em Joy de David O. Russell, e a jovem actriz Brie Larson melhor actriz dramática em Quarto, de Lenny Abrahamson. Sylvester Stallone venceu melhor actor secundário pelo seu regresso a um Rocky Balboa envelhecido em Creed: O Legado de Rocky – e acabou por ter de voltar a palco porque, ao receber o prémio, esqueceu-se de agradecer aos seus cúmplices no filme, o realizador Ryan Coogler e o actor Michael B. Jordan. Apenas um dos muitos momentos bizarros da mais peculiar – e irrelevante – entrega de prémios hollywoodiana. Segue, agora, para bingo – com o anúncio, esta quinta-feira (14), das nomeações aos Óscares, que serão entregues a 28 de Fevereiro.

Lista completa dos Globos de Ouro

Cinema

Melhor Filme (Drama)
The Revenant: O Renascido

Melhor Filme (Comédia ou Musical)
Perdido em Marte

Melhor Actor (Drama)
Leonardo DiCaprio, The Revenant: O Renascido

Melhor Actriz (Drama)
Brie Larson, Quarto

Melhor Actor Secundário (Drama)
Sylvester Stallone, Creed

Melhor Actriz Secundária (Drama)
Kate Winslet, Steve Jobs

Melhor Actriz (Comédia ou Musical)
Jennifer Lawrence, Joy

Melhor Actor (Comédia ou Musical)
Matt Damon, Perdido em Marte

Melhor Realizador
Alejandro González Iñárritu, The Revenant: O Renascido

Melhor Argumento
Aaron Sorkin, Steve Jobs

Melhor Banda Sonora
Ennio Morricone, Os Oito Odiados

Melhor Filme de Animação
Divertida-Mente

Melhor Canção Original
"Writing's on the Wall", 007 Spectre

Melhor Filme Estrangeiro
Son of Saul

Televisão

Melhor Série Dramática
Mr. Robot (USA)

Melhor Série de Comédia
Mozart in the Jungle (Amazon Video)

Melhor Mini-série ou Filme
Wolf Hall (PBS)

Melhor Actor numa Série Dramática
Jon Hamm, Mad Men

Melhor Actriz numa Série Dramática
Taraji P. Henson, Empire

Melhor Actor numa Série de Comédia
Gael García Bernal, Mozart in the Jungle

Melhor Actriz numa Série de Comédia
Rachel Bloom, Crazy Ex-Girlfriend

Melhor Actor numa série, mini-série ou filme para TV
Oscar Isaac, Show Me a Hero

Melhor Actriz numa mini-série ou filme
Lady Gaga, American Horror Story: Hotel

Melhor Actor Secundário numa série, mini-série ou filme
Christian Slater, Mr. Robot

Melhor Actriz secundária numa série, mini-série ou filme
Maura Tierney, The Affair