Joly, um pós-moderno?

Um bom concerto com a curiosa Sinfonia n.º 6 de Joly Braga Santos, infelizmente ao lado da mais desinteressante das sinfonias de Bruckner.

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Eduarda Melo cantou belíssimamente Susana Neves

Esteve uma sala bem composta, nesta tarde de chuva e vento, para ouvir um programa sinfónico curioso: duas "Sextas" separadas por quase 100 anos. Uma sinfonia de Joly Braga Santos, estreada em 1972 e outra de Anton Bruckner, começada em 1879. Primeiro a Sinfonia n.º 6 de Joly, que a Orquestra Sinfónica Portuguesa tocou com brio e rigor, numa direcção cuidada de Pedro Neves. Cuidada porque atenta às qualidades tímbricas desta obra e capaz de equilibrar a diversidade sonora proposta pelo compositor português. Mas também porque foi uma interpretação que fez compreender a arquitectura original desta sinfonia de Joly Braga Santos. Uma obra num só andamento que atravessa terrenos com características bem diferentes.

É preciso colocá-la na história para entender as suas contradições - uma sinfonia de síntese, poliestilística, com uma ousadia contida, que atravessa mundos bem diferentes, mas sempre respeitadora da "tradição", isto é, de uma certa forma de entender a história da música como história a conservar - e de procurar inscrever-se nela sem ruptura. É por isso natural que as linguagens aparentemente mais vanguardistas possam desembocar num canto final perfeitamente paradoxal, desenquadrado do seu tempo, nostalgicamente apontando para um Portugal antigo... ou futuro: a canção final sobre redondilhas de Camões possui um inegável jeito pop.

Eduarda Melo cantou belíssimamente (que a objecção à obra não ofusque o excelente trabalho da intéprete) - mas pode engolir-se a sério um canto de amor assim ligeiro ("Irme quiero, madre/ aquella galera/ con el marinero/ a ser marinera") para acabar uma sinfonia precedida de tantos dramatismos musicais?

Uma parte coral, também a partir de Camões (o soneto Ondas que por el mundo caminando), que se inicia antes deste canto para soprano, é uma tentativa de escrever um madrigal "velho e novo" ao mesmo tempo e é um dos momentos mais interessantes da sinfonia. Foi aliás muito bem cantado pelo Coro do Teatro Nacional de São Carlos, que conseguiu ser tocante na parte final, quando o soneto de amor se fecha e a música se "contorce" harmonicamente. Joly Braga Santos era sem dúvida um hábil compositor e um excelente sinfonista e era capaz de ir de neo-romantismos a neo-vanguardismos numa penada: seria já em 1972 um "pós-moderno"?

Na segunda parte, a outra Sexta, de Bruckner. Apesar de alguns esforços da Orquestra Sinfónica Portuguesa de manter viva esta sinfonia, é bem possível que esteja demasiado enterrada na história para a podermos ressuscitar com sentido. Façamo-nos entender: a Sexta de Bruckner tem uma aspiração de grandeza que nunca sabe resolver. Compraz-se em grandiloquências que ficam quase ridículas. Até no Scherzo Bruckner faz brincadeiras de guerra, e quando descansa, é descanso de guerreiro. Para logo continuar, repetindo sempre até aborrecer. Porque nesta Sexta parece que tudo tem de ser repetido duas vezes (ou quatro) para se fazer entender. Empastela, empastela, desvia, desvia, estica, estica, repete, repete. Curioso é o seu hábito de cortar subitamente para começar outra coisa - e aí quase que Bruckner é moderno, se soubesse o que fazer com isso (como Mahler sabia). Uns 60 anos depois, música desta teve lugar no cinema de Hollywood. Mas assim...

Pedro Neves e a Sinfónica Portuguesa fizeram um bom trabalho (justamente reconhecido em francos aplausos finais), com intervenções certeiras dos sopros e com cordas bem corpulentas. Mas a Sinfonia cansa ouvidos que procurem outra coisa que não uma retórica do "grande", sem verdadeira procura de profundidade. Com todo o respeito para o Bruckner que sabe pôr a tremer qualquer ouvinte com os seus metais poderosos, e nos consegue assustar com a piedade das cordas nas suas harmonias de transições incansáveis. Mas esta Sexta, sem capacidade de concisão e sem um pingo de sentido de humor, fica um pastel, que só se engole se levarmos o antídoto: ouvir como é ridícula a sua grandiloquência, e rir dela a bandeiras despregadas.