Descarrilamento na linha da Beira Alta era previsível

Maquinistas tinham reportado queda de pedras na linha nos últimos dias

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Este investimento tem um custo próximo dos mil milhões de euros e é o dobro daquele que a Refer tem andado a estudar PÚBLICO/Arquivo

O descarrilamento de uma automotora na Beira Alta este domingo foi quase um acidente anunciado. Nos últimos dias os maquinistas dos comboios que ali circulavam tinham reportado a queda de pedregulhos na linha. Na maioria dos casos as pedras não invadiram o espaço de passagem dos comboios, ficando-se pelas bermas da via férrea, mas houve pelo menos um caso em que o maquinista teve de descer à linha para a desobstruir.

O acidente teve lugar pelas 14h05, perto de Contenças, Mangualde, e provocou três feridos quando a automotora regional que tinha saído de Coimbra às 12h27 (e deveria ter chegado à Guarda às 15h01) embateu numa barreira, tendo descarrilado a primeira das três carruagens. A Infraestruturas de Portugal (ex-Rede Ferroviária Nacional) fez deslocar desde o Entroncamento um comboio de socorro para proceder ao carrilamento da composição, não havendo, até ao momento, uma hora prevista para o retomar da circulação na linha da Beira Alta. A CP fez transbordo rodoviário entre Mangualde e Contenças para os comboios regionais e entre Mangualde e Fornos de Algodres para os Intercidades.

A linha da Beira Alta foi modernizada nos anos 90 do século XX na sequência do acidente de Alcafache, em Setembro de 1985. Chegou ao século XXI electrificada e dotada com sinalização electrónica, mas alguns troços ficaram com a plataforma praticamente igual. A zona de Contenças foi um desses troços.

A Infraestruturas de Portugal, no âmbito do Plano Estratégico de Transportes e Investimentos, tem previsto investir na modernização da Beira Alta, mas não definiu ainda em que moldes o irá fazer - porque com este investimento cruza-se a intenção de construir a famosa linha Aveiro-Salamanca. Esta linha, que até agora não passou do papel, mas já chegou a estar pensada como linha de alta velocidade, tem vindo a sofrer vários downgrades para embaratecer a sua construção. Nada está ainda decidido, havendo quem defenda que mais vale apostar na linha que já existe – a Beira Alta – e modernizá-la.

Enquanto isto, devido às limitações orçamentais, as verbas alocadas pela Refer (agora Infraestruturas de Portugal) nos últimos anos para a manutenção e monitorização da linha têm vindo a cair na mesma proporção em que têm vindo a aumentar os descarrilamentos. Em 2014, num mês e meio descarrilaram três comboios de mercadorias e em Julho de 2015 registou-se mais outro acidente do mesmo tipo.

A falta de manutenção tem levado a que, em zonas de trincheira, quando chove, seja maior a propensão para haver quedas de barreiras na vida férrea.

Estes acidentes têm levado à interrupção da principal linha de acesso à Europa, não havendo nenhum caminho-de-ferro alternativo desde que, em Março de 2009, foi fechado para obras na linha da Beira Baixa o troço Covilhã-Guarda. A reabertura desta linha, caso a Infraestruturas de Portugal decida dar prioridade à conclusão dos trabalhos (suspensos devido às limitações orçamentais) serviria para criar uma redundância no sistema ferroviário com ligação a Vilar Formoso, evitando-se os transbordos.