Sobre a utopia, alguns apontamentos

Na série especial alusiva aos 500 anos da obra de Thomas More, Gonçalo M. Tavares pensa a utopia, a partir de algumas questões que o PÚBLICO lhe colocou. E foi aqui que o escritor chegou.

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Nuno Ferreira Santos

#Podemos pensar num olhar utópico de uma forma um pouco distinta, como sendo um olhar que não se localiza nem no espaço, nem no tempo. Um olhar que não conseguimos identificar completamente: onde está quem observa isto? Observador utópico pode ser uma categoria relativa às condições do observador e não relativa àquilo que ele vê ou tenta criar.

#É interessante pensar que há utopias que partem de um olhar para o passado e não para um futuro ideal. A ideia da época de ouro e a ideia de que nós seríamos o resultado da decadência de uma anterior espécie humana extraordinária são bons exemplos disso. Talvez estas utopias, indiferentes àquilo que aí vem, sejam as mais perigosas — as que só vêem o belo e forte naquilo que desapareceu e que nunca mais poderá ressuscitar. É aquilo a que se poderia chamar de utopistas-de-nuca: para trás está a solução.

#A literatura cria espaços que não existem, mas também inventa e cria acontecimentos. A ficção talvez tenha por natureza um instinto utópico — é a definição de alternativas à realidade, mesmo que estas não sejam muito solares ou alegres. A ficção diz: poderia ter acontecido isto ou aquilo. São hipóteses, possibilidades, alternativas em relação a uma realidade que não satisfaz, que não é suficiente.

#A imaginação, a capacidade de produzir imagens mentais de coisas que não estão imediatamente à frente dos olhos, é uma capacidade humana invulgar que, infelizmente, muitas vezes é desvalorizada, e quase atacada, no processo educativo.

Aliás, as frases:

— está atento!, tens a cabeça na lua!, etc.

são expressões repressivas que mostram como a escola está constantemente a dizer: não imagines, vê! Como se aquilo que é mostrado fosse sempre mais importante e relevante do que aquilo que é imaginado.

Uma escola paralela, quase utópica também, seria aquela em que os professores por vezes diriam: hoje não estás suficientemente na lua!, ou: não estejas tão atento, colado, ao que te estou a mostrar!

Ou, dizendo de uma forma não tão extrema, mais realista: a escola deveria dar a ver, dar a conhecer, apenas aquilo que potencie a imaginação. Vou mostrar-te algo que te permitirá mais tarde imaginares muitas outras coisas. Imagens que alimentem a imaginação e não que a diminuam. Substituir definições por imaginações — este podia ser um lema; contestável, claro, mas que permitiria, talvez, uma discussão e uma deslocação do espaço mental do ensino.

# Há duas perguntas completamente diferentes:

O que vês?

E a segunda:

O que poderias ver?

O que eu vejo com os olhos versus o que eu poderia ver imaginariamente.

E há um momento da arte em que a representação, o real concreto, chegou a um limite e rebentou — é então aí que aparece o quadro branco, o silêncio de John Cage, etc. Cada um, diante de um quadro branco, pode colocar lá, mentalmente, uma qualquer imagem da história da pintura ou uma nova imagem.

Era como se alguém dissesse: não vejas: imagina; não ouças: imagina.

Os surrealistas defendiam mesmo, a certa altura, que a cegueira era o caminho para aumentar a produção de imagens individuais. Barrar a entrada de imagens exteriores para que se pudesse produzir imagens interiores, privadas.

Aliás, a clássica associação, que vemos nos mitos gregos e até em momentos anteriores, do profeta à cegueira, também é um pouco exemplo disso: o profeta, aquele que vê o futuro, aquele que vê o que os outros não conseguem ver, é cego. Ou seja: não vê o real, o que está à frente dele naquele momento presente. Como se o profeta só conseguisse ver o futuro porque é incapaz fisiologicamente de ver o presente.

# As utopias precisam de um anterior diagnóstico correcto e sensato. Por isso, talvez o realismo não se oponha por completo às utopias. Sem um bom realismo, sem um bom diagnóstico da realidade, não se poderá produzir uma boa utopia.

Aliás, penso que um dos problemas das utopias do século XX, que terminaram trágica e miseravelmente, é que muitas vezes partiram precisamente de diagnósticos disparatados, diagnósticos de cego. Muitos desses líderes políticos quiseram ser profetas fora do tempo quando, afinal, eram apenas duplos-cegos.

#O progresso tecnológico e as utopias estão sempre muito ligados, quando se fala de ficção científica. As utopias políticas, por outro lado, muitas vezes estiveram associadas à ideia de uma mudança do homem, e não apenas a uma mudança da paisagem que rodeia o homem. Mudar de vida, mudar o que é característico do humano ou mudar de máquinas. São utopias bem diferentes, estas.

Algumas utopias bem antigas, religiosas, por exemplo, estão nesse aspecto muito mais centradas na acção humana. A ideia de mudar a posição do coração, no sentido de alterar os instintos humanos, de transferir o homem da agressividade para a compaixão, é uma utopia antiquíssima que podemos ler, por exemplo, em textos cristãos e outros.

Talvez um ponto de pobreza actual, neste início do século XXI, seja a fixação em utopias que apenas mudam de máquinas.

#A tecnologia tem vindo a instalar novas utopias que passam muitas vezes pela questão de o homem querer viver cada vez mais tempo. Não é bem a imortalidade, o elixir da longa vida, que se perseguia e fantasiava noutros séculos, mas é algo próximo. E é interessante ver que o centro destas utopias é viver mais tempo, mais! — e não viver de forma diferente. O que me parece forte em algumas utopias sociais ou artísticas do século XX é que o centro da utopia não era viver mais tempo, era viver de forma diferente.

Quando o essencial das utopias humanas passa pela tecnologia talvez algo esteja em queda. É uma utopia desanimada, a que quer mudar a paisagem, natural ou técnica, e já desistiu de mudar o humano.