Irão acusa sauditas de bombardearem a sua embaixada no Iémen

Teerão bane importações de produtos sauditas, quatro dias depois de Riad ter cortado laços diplomáticos com o regime iraniano.

Destroços da Câmara do Comércio iemenita bombardeada pelos sauditas
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Destroços da Câmara do Comércio iemenita bombardeada pelos sauditas Khaled Abdullah/Reuters

O Irão acusou a aviação saudita de ter bombardeado “deliberadamente” a sua embaixada no Iémen, fazendo vários feridos entre os funcionários. Em retaliação contra um ataque que os sauditas não confirmam, o Governo iraniano decidiu já proibir a entrada no país de todos os produtos vindos da Arábia Saudita.

“Esta acção deliberada é uma violação de todas as convenções internacionais para proteger as missões diplomáticas”, acusou o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Teerão, Hossein Jaber Ansari, citado pela televisão estatal. “O Governo saudita é responsável pelos estragos causados e pela situação dos membros do pessoal que foram feridos.”

As relações entre a monarquia sunita e a teocracia xiita que que disputam a hegemonia regional no Médio Oriente têm vindo a degradar-se rapidamente desde Março, quando a Arábia Saudita formou uma coligação de nações sunitas para atacar os rebeldes houthis do Iémen (de confissão xiita) que lançaram uma revolta contra o Governo e ocupam a capital, Sanaa, assim como grande parte do país. Riad acusa o Irão de armar os houthis e de ter até comandantes militares no terreno, algo que tanto os rebeldes como os iranianos desmentem.

Domingo, o reino rompeu as relações diplomáticas com o Irão depois de ataques a duas das suas missões diplomáticas no país. Estes aconteceram durante protestos contra a execução do religioso saudita xiita xeque Nimr. Teerão condenou o ataque à embaixada e ao consulado sauditas e deteve 40 envolvidos, mas nada disso acalmou Riad.

No mesmo dia em que executou Nimr, membro da minoria xiita do reino, a Arábia Saudita declarou unilateralmente o fim de um cessar-fogo que vigorava desde 15 de Dezembro no Iémen. Desde então os bombardeamentos a Sanaa têm sido constantes. Os militares sauditas confirmam que atacaram vários alvos na noite de quarta-feira na cidade, mas dizem ter visado lança-mísseis dos rebeldes e garantem que estes têm usado instalações civis, incluindo embaixadas abandonadas.

Residentes citados pelas agências de notícias Reuters e Associated Press confirmam dezenas de raides na quarta-feira à noite e na quinta de manhã mas dizem que os mísseis atingiram edifícios perto da embaixada e que esta só foi atingida por pedras e estilhaços de outros alvos.

A execução de Nimr desencadeou ainda manifestações contra os sauditas no Bahrein, Iraque, Líbano, Turquia, Paquistão e Caxemira indiana – em quase todos os lugares onde há comunidades xiitas consideráveis. Para sexta-feira estão previstas novas manifestações em Teerão, à saída das orações do meio-dia, as mais importantes da semana para os muçulmanos.

Outros países já se juntaram aos sauditas no corte de relações com o Irão. O Bahrein, o Sudão, o Djibuti e a Somália romperam totalmente os laços diplomáticos, enquanto os Emirados Árabes Unidos decidiram reduzi-los. O Kuwait e o Qatar mandaram chamar os seus embaixadores no Irão e a Jordânia convocou o enviado iraniano em Amã.

Desde a invasão do Iraque, em 2003, que as duas potências regionais se têm afastado cada vez mais. Na Síria, os sauditas apoiam grupos que combatem Bashar al-Assad, os iranianos e os seus aliados libaneses, o Hezbollah, combatem ao lado do regime.

O Iraque, único país árabe liderado por um Governo xiita (desde o derrube de Saddam Hussein), tenta apaziguar as tensões – o primeiro-ministro, Haider al-Abadi, tem-se esquivado das pressões de grupos xiitas mais radicais, que exigem que feche a embaixada saudita em Bagdad, e apelou aos dois lados “para não mergulharem a região numa guerra que não poderá ter nenhum vencedor”.

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