Corbyn tenta afirmar liderança com remodelação do governo-sombra trabalhista

Três membros da equipa demitem-se em protesto contra afastamento de críticos do actual líder

O mandato de Corbyn tem sido minado por divergências em matéria de Defesa e Política Externa
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O mandato de Corbyn tem sido minado por divergências em matéria de Defesa e Política Externa Hannah McKay/Reuters

Horas depois de o líder trabalhista britânico ter anunciado uma remodelação no "governo-sombra" para afirmar a sua autoridade, as divisões no partido voltaram a falar mais alto. Três membros da equipa demitiram-se em protesto contra o afastamento das vozes mais críticas a Jeremy Corbyn.

A remodelação é pequena em dimensão, mas grande em significado. Corbyn, o veterano activista de esquerda eleito após a derrota do Labour nas legislativas de Maio, afastou o porta-voz para as questões europeias. Pat McFadden foi acusado de “grave deslealdade” por, escreve a imprensa, ter alinhado com os conservadores nas críticas ao pacifismo do líder trabalhista no debate parlamentar que se seguiu aos atentados de Paris. A mesma justificação foi avançada para a saída do “ministro-sombra” da Cultura, Michael Dugher, que será substituído na pasta pela até aqui porta-voz para a Defesa, Maria Eagle. A deputada é defensora da renovação da frota de submarinos nuclear Trident, que será votada este ano no Parlamento, e Corbyn quis para o lugar a aliada Emily Thornberry, que como ele se opõe ferozmente ao projecto governamental.

De fora das mexidas, após dia e meio de negociações de bastidores – “a remodelação mais longa da história”, ironizou o primeiro-ministro britânico, David Cameron –, ficou Hillary Benn, porta-voz para os Negócios Estrangeiros que ganhou estatuto de principal rival interno de Corbyn depois do discurso em que defendeu, contra a opinião do líder sentado ao seu lado, o início dos ataques aéreos britânicos contra o Estado Islâmico na Síria. A demissão de Benn arriscava provocar o êxodo dos centristas do “governo-sombra”, mas só terá ficado depois de aceitar que, quando estiver em desacordo com Corbyn, terá de assumir a sua posição a partir das bancadas no Parlamento reservadas aos deputados sem funções de liderança. 

Ressalvas que não bastaram a Kevan Jones, porta-voz para as Forças Armadas, que se demitiu em solidariedade com Benn, nem para os deputados Jonathan Reynolds e Stephen Doughty, que repudiaram as acusações feitas a McFadden, “castigado pela sua honestidade e pelos seus princípios”.

Admitindo que as divisões, sobretudo em matéria de Defesa e Política Externa, estavam a minar a liderança de Corbyn, o seu aliado e porta-voz para as Finanças, John McDonnell, disse à Sky News que, apesar de ser necessário unir o partido, “é preciso ser muito claro sobre a orientação política” que foi sufragada pelos militantes.