Arábia Saudita executa líder xiita e agrava divisões no Médio Oriente

A morte de Nimr al-Nimr mistura-se com a luta pela supremacia regional entre a Arábia Saudita (sunita) e o Irão (xiita). Houve protestos em vários países do Médio Oriente.

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Manifestação de mulheres xiitas na província de Qatif, contra a execução de Nimr al-Nimr AFP
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O supremo tribunal saudita tinha confirmado em Outubro a sentença de morte AFP PHOTO / MOHAMMED HUWAIS

As execuções na Arábia Saudita, por decapitação ou fuzilamento, têm sido cada vez mais frequentes nos últimos meses, e na maior parte dos casos não passam de referências nos relatórios anuais sobre direitos humanos. Mas este sábado aconteceu algo que pode agravar ainda mais as profundas divisões no mundo islâmico entre sunitas e xiitas: entre as 47 pessoas que foram executadas estava Nimr al-Nimr, um líder religioso da minoria xiita cuja morte levou o Irão a dizer que a família real saudita "vai pagar bem caro".

A maioria das 47 pessoas que foram executadas no sábado em 12 cidades da Arábia Saudita foram condenadas à morte por atentados cometidos em meados da década passada, em nome da Al-Qaeda, mas todas elas foram acusadas de "terrorismo" – incluindo Nimr al-Nimr, que era visto como uma espinha atravessada na garganta das autoridades sauditas por criticar a forma como a minoria xiita é tratada na Arábia Saudita.

Nimr al-Nimr foi uma das vozes mais activas durante os protestos de 2011 e 2012 nas províncias do Leste na Arábia Saudita, no seguimento das revoluções da Primavera Árabe. Desde então, alcançou o estatuto de herói entre a comunidade xiita local, por reivindicar publicamente a igualdade de tratamento e a queda da casa de Saud – ainda assim, segundo os seus apoiantes, sem nunca ter apelado à violência.

Detido em Julho de 2012, durante uma operação policial em que ficou ferido numa perna, foi depois acusado de incitamento à violência, desobediência à monarquia e resistência armada às forças de segurança – as autoridades dizem que Nimr al-Nimr estava armado quando foi detido, mas ele negou sempre essa acusação.

A luta de séculos entre sunitas e xiitas pela preponderância no mundo islâmico mistura-se com a luta pela supremacia regional entre a Arábia Saudita (sunita) e o Irão (xiita).

Ao permitirem a execução de Nimr al-Nimr – um imã xiita nascido na região de Qatif, na zona Leste da Arábia Saudita, e que estudou no Irão e na Síria –, as autoridades de Riad provocaram a ira do Irão mas também do Iraque, onde o influente radical xiita Moqtada al-Sadr exigiu o encerramento da embaixada saudita em Bagdad, reaberta na semana passada, ao fim de 25 anos.

Numa declaração partilhada na Internet, Moqtada al-Sadr apelou à realização de manifestações tanto na Arábia Saudita como nos outros países do Golfo Pérsico contra a morte de Nimr al-Nimr: "Peço que os xiitas da Arábia Saudita respondam com coragem, nem que seja através de manifestações pacíficas, e peço o mesmo aos xiitas no Golfo, para que consigamos travar a injustiça e o terrorismo governamental no futuro", disse al-Sadr, referindo-se às autoridades sauditas.

O antigo primeiro-ministro iraquiano Nuri al-Maliki condenou as "práticas sectárias detestáveis" atribuídas à Arábia Saudita, e disse mesmo que a execução de Nimr al-Nimr vai "fazer tombar o regime saudita", comparando as consequências da morte do líder religioso às da execução do líder xiita iraquiano Mohammed Baqir al-Sadr às mãos de Saddam Hussein, em 1980.

Para sublinhar o impacto da execução de Nimr al-Nimr na Arábia Saudita, o supremo líder do Irão, o ayatollah Ali Khamenei, partilhou na rede social Twitter uma fotografia do "mártir xeque al-Nimr", com a frase "O despertar não pode ser reprimido".

Em comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão disse que "a execução de uma personalidade como o xeque Nimr, que não tinha outro meio que não fosse a palavra para cumprir os seus objectivos políticos e religiosos, apenas mostra a dimensão da imprudência e da irresponsabilidade" do regime saudita. O porta-voz do ministério, Hossein Jaber Ansari, acusou a Arábia Saudita de hipocrisia, por "apoiar terroristas e sunitas extremistas, enquando executa e reprime críticos no seu país", e disse que Riad "vai pagar bem caro por prosseguir esta política".

Também a liderança do movimento libanês Hezbollah condenou o "assassinato" do imã xiita, acusando a Arábia Saudita de ter condenado o líder religioso "sob um falso pretexto" – o de ter cometido actos terroristas, quando apenas "reivindicou direitos para um povo oprimido".

As autoridades sauditas defendem-se apontando para o facto de que a maioria das 47 pessoas que foram executadas este sábado são antigos membros da Al-Qaeda (uma organização sunita), condenados por atentados terroristas na Arábia Saudita entre 2003 e 2006. Hussain al-Shobokshi, moderador de um programa de política internacional no canal Al-Arabiya, disse à Al-Jazira que as autoridades sauditas não fazem distinção entre "fontes de terror xiitas e fontes de terror sunitas".

A Arábia Saudita executou pelo menos 157 pessoas entre Janeiro e Outubro de 2015, de acordo com os números da Amnistia Internacional, o que representou um novo máximo das últimas duas décadas – e um aumento considerável em relação às 90 execuções nos 12 meses de 2014. No relatório da Amnistia Internacional relativo a esse ano, a China foi o país com mais execuções (um número não determinado mas estimado na ordem dos milhares), seguido do Irão (pelo menos 289), Arábia Saudita (pelo menos 90), Iraque (pelo menos 61) e Estados Unidos da América (35).