O suicida acidental

As cartas de Mário de Sá-Carneiro a Fernando Pessoa, publicadas agora numa edição crítica, mostram um poeta que participou activamente nas vanguardas do seu tempo e que tinha uma energia criativa e um sentido de humor pouco compatíveis com o estereótipo do suicida predestinado.

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A correspondência com Pessoa desmente o estereótipo de um Sá-Carneiro infeliz, isolado, pouco ligado ao seu tempo, sempre enfiado num café DR
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Um dos caligramas inspirados em Apollinaire que Sá-Carneiro enviou a Pessoa DR

Antecipando as comemorações do centenário da morte de Mário de Sá-Carneiro, que se suicidou em Paris aos 25 anos, no dia 26 de Abril de 1916, a Tinta-da-China acaba de lançar Em Ouro e Alma, uma edição crítica da correspondência de Mário de Sá-Carneiro com Fernando Pessoa, organizada por Ricardo Vasconcelos e Jeronimo Pizarro. Desse mergulho

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num diálogo que em boa medida geraria o primeiro modernismo português, os dois investigadores regressam com a convicção de que é preciso desanuviar o poeta de Indícios de Oiro dessa aura trágica de poeta suicida que há cem anos ensombra o seu retrato.

“Criou-se o estereótipo de um escritor infeliz, isolado, pouco ligado ao seu tempo, sempre enfiado num café, mas esta correspondência mostra-nos que participou muitíssimo no seu tempo, que foi um artista da época das vanguardas em pleno centro cultural da Europa, que era então Paris, e que teve uma vida muito mais activa e intensa do que imaginamos”, diz o colombiano Jeronimo Pizarro, autor de inúmeras edições pessoanas e coordenador da Colecção Pessoa na Tinta-da-China.

Ricardo Vasconcelos, professor de literatura portuguesa e brasileira na Universidade de San Diego, na Califórnia, e autor de diversos trabalhos sobre as relações de Mário de Sá-Carneiro com as vanguardas europeias da época, e em particular com o cubismo, explica que não quer repisar muito o tema do suicídio, mas concorda que as cartas de Sá-Carneiro sugerem que “há muito de contingente em tudo aquilo”, e que “um dos aspectos a ter em conta é o lado financeiro, com a guerra a impossibilitar os envios de dinheiro”. Duas semanas antes de se matar num hotel de Paris, usando arseniato de estricnina, o próprio Sá-Carneiro anuncia ao seu amigo Fernando Pessoa a intenção de se suicidar e escreve: “Podia ser feliz mais tempo, tudo me corre, psicologicamente, às mil maravilhas: mas não tenho dinheiro." Observando que a imagem que nos ficou do poeta é “bem sintetizada por Fernando Cabral Martins”  organizador de várias edições de Sá-Carneiro para a Assírio & Alvim  “na imagem de uma obra literária como legenda de uma vida suicida, ou no suicídio como dramatização da obra literária”, Vasconcelos reconhece que “há um pouco de verdade nisso”, mas que também devemos ter em conta “a sua linguagem de uma vivacidade tremenda, e a sua ironia, que é realmente divertida, mesmo quando fala de problemas sérios, económicos ou emocionais”.

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E Pizarro recorda que Mário de Sá-Carneiro frequentava em Paris o teatro, o cinema, as exposições de pintura e caricatura, e que não foi menos activo do que depois seria Almada Negreiros nos seus anos de Madrid, entre 1927 e 1932. “Tornou Paris o seu endereço espiritual, como fizeram muitos artistas da época, e viveu a cidade de forma muito intensa: foi isso que fez com que o poeta explodisse e chegasse em tão pouco tempo a uma obra com tanta densidade, que tinha o seu vocabulário e encontrava as suas próprias cores." Pizarro não receia mesmo afirmar que, “depois de Camilo Pessanha, ningém conseguira colocar tanto sentido em tão poucas linhas como o fez Sá-Carneiro”, que considera “muito mais plástico e visual do que Fernando Pessoa”.   

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Uma ortografia instável
É esse Sá-Carneiro mais activo, “o escritor que naqueles anos publicou mais do que Pessoa ou Almada”, que “falta ainda resgatar”, defende o investigador. Tendemos muitas vezes a ver o poeta dos heterónimos como uma espécie de mentor de Sá-Carneiro, mas a verdade, lembra Ricardo Vasconcelos, é que o diálogo entre ambos começa com este último, na sua qualidade de autor com livros publicados, a recomendar a Pessoa que se apresse a divulgar a sua poesia, e alertando-o para o risco de o fazer demasiado tarde, quando todos já o vissem apenas como crítico.

Mas este período em que pode ainda detectar-se da parte de Sá-Carneiro a presunção de um discreto ascendente face a Pessoa dura pouco. “Começam a chegar-lhe as cartas com a poesia heterónima e ele rende-se completamente à beleza e riqueza daquilo”, diz Vasconcelos. A 30 de Junho de 1914, um dia após ter recebido pelo correio a Ode Triunfal, Sá-Carneiro escreve ao amigo, em papel timbrado do Café de France (transcrevemos com a ortografia e pontuação originais, que esta edição crítica manteve): “É uma coisa enorme, genial, das maiores entre a sua Obra – deixe-me dizer-lhe imodesta mas m[ui]to sinceramente do alto do meu orgulho, esses versos, são daqueles que me indicam bem a distancia que, em todo o caso, ha entre mim e você. E eu já me considero tão grande, já olho em desprezo tanta coisa á minha volta."

A ortografia foi um dos grandes cavalos de batalha desta edição. “É a primeira vez que se publica a correspondência de Sá-Carneiro com a ortografia original, o que é importante não apenas por esta ser uma edição crítica, mas porque a sua ortografia é bastante aleatória, é uma ortografia que irrita os editores”, diz Pizarro. “Habituado ao “português impecável” de Pessoa, confessa que ler os manuscritos das cartas de Sá-Carneiro foi uma experiência paradoxal. “Temos aqui um autor canónico, um dos maiores escritores da língua portuguesa, não tenho quanto a isso nenhuma dúvida, mas com dificuldades de ortografia e pontuação, e que tem o problema de não saber criar parágrafos." Ao contrário de Pessoa, que participou das discussões ortográficas do seu tempo e quis ser um mestre da língua, como António Vieira, Sá-Carneiro, defende Pizarro, “tinha com ela uma relação muito intuitiva, e às vezes muito auditiva, e escrevia tal qual lhe saía”. E como os sucessivos editores o foram sempre “corrigindo silenciosamente”, a sua inconsistência ortográfica “esteve sempre completamente escondida”, nota ainda Pizarro.

Outra mais-valia desta edição é a reprodução exaustiva de todos os suportes físicos desta correspondência, incluindo os envelopes, onde Fernando Pessoa anotava frequentemente os temas que pretendia abordar na reposta à carta em causa. “É verdade que se perderam as cartas de Fernando Pessoa, mas em muitos casos temos aqui as notas que ele escreveu para preparar essas cartas”, diz Jeronimo Pizarro.

Nas costas do enevelope que acompanhava uma carta que Sá-Carneiro lhe enviara de Paris no dia 7 de Janeiro de 1913, Pessoa apontou seis tópicos, e um deles fez soar os alarmes a um pessoano como Pizarro. Entre as menções “Poetry Society” e “Pawlowski”  apelido do escritor francês Gaston Pawlowski, que publicara em 1911 um livro de ficção científica, Voyage au pays de la quatrième dimension, cujo tema não poderia deixar de interessar o futuro autor de A Estranha Morte do Professor Antena , Fernando Pessoa rabiscou esta palavra: “Desassocego”. Trata-se, garante Pizarro, da mais antiga referência que se conhece ao Livro do Desassossego, e indica que “a primeira fase do livro, mais decadentista, poderia ter-se iniciado ainda em 1912”.

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“Deixe ir assim”
O investigador acha de resto que “ainda não se percebeu a importância de Sá-Carneiro para o Livro do Desassossego”, que em certa medida, diz, “nasce desta correspondência”, e lamenta igualmente que ninguém tenha até hoje comparado de forma sistemática os contos dos dois fundadores do modernismo português. “Estavam ambos a escrever contos ao mesmo tempo e influenciaram-se mutuamente”, diz Pizarro, para quem “Mário de Sá-Carneiro inventa, até certo ponto, Fernando Pessoa, como Pessoa o inventa a ele: é uma relação de uma intensidade tão forte que é essa energia que acaba por gerar o primeiro modernismo, ou pelo menos a revista Orpheu, que sem eles ficava quase vazia”. 

Outros pontos fortes desta edição é a quantidade e qualidade das notas explicativas que acompanham as cartas, e o índice onomástico final, mais completo do que os que surgiam em edições anteriores, e que mostra bem a diversidade do círculo de relações de Sá-Carneiro em Paris. O livro identifica pela primeira vez alguns nomes citados nas cartas, e noutros corrige identificações equivocadas. Um exemplo é a passagem de uma carta de Julho de 1914 em que Sá-Carneiro escreve: “Apenas lhe direi que o Cravan faz proximamente uma conferencia em seu beneficio aonde p[ara] exemplificar as suas teorias dançará e boxará." Ricardo Vasconcelos defende que este Cravan, que se presume que Pessoa saberia quem era, é Arthur Cravan, o pugilista, poeta vanguardista e editor da revista Maintenant.

As primeiras cartas de Sá-Carneiro são de Outubro de 1912, quando começa a sua primeira estada prolongada em Paris, de onde regressará em Junho de 1913, para voltar a França em Junho do ano seguinte, desta vez por poucos meses, já que o início da I Guerra o encaminha de novo para Lisboa. E só voltará a Paris, agora definitivamente, em meados de Julho de 1915, quando já saíra a Orpheu. Se o making-of da revista não está muito presente nestas cartas, isso deve-se ao facto de coincidir com um período em que os dois amigos estavam ambos em Lisboa e não necessitavam tanto de recorrer ao correio.

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Seguindo a evolução da correspondência ao longo das várias fases parisienses de Sá-Carneiro, é possível observar, defende Vasconcelos, como se vai alterando o modo como olha para as vanguardas que estavam na ordem do dia. “No início, dá a entender que desdenhava do cubismo, três meses depois, com algum cuidado para não chocar Pessoa, já diz que acredita que Picasso é um génio e não pode ser um blagueur.” E valoriza o cubismo, nota o investigador, “recorrendo aos mesmos argumentos que Apollinaire usava na imprensa do tempo para defender os pintores cubistas”. Sá-Carneiro terá tido assim um conhecimento e um grau de adesão ao movimento que não tem paralelo em Pessoa, que na época quase não distinguiria cubismo e futurismo.

Para Ricardo Vasconcelos, o célebre poema Manucure, no seu “experimentalismo cubista entre a paródia e a influência” tem de facto uma dimensão de blague, como Pessoa observou, mas que é deliberada e constitui a prova de que Sá-Carneiro já então compreendera que “a blague, a vontade de criar confusão e incompreensão, era um elemento fundamental das vanguardas parisienses”. Essa consciência terá mesmo sido uma das grandes contribuições que o autor de Indícios de Ouro trouxe ao modernismo português. É ela que leva Sá-Carneiro a travar a mão a Pessoa quando este se preparava para corrigir uma gralha de Luiz de Montalvor nas provas de Orpheu: “Deixe ir assim, deixe ir assim: assim ainda se entende menos”.

Este Em Ouro e Alma, que inclui ainda em anexo as poucas cartas de Pessoa a Sá-Carneiro que se conhecem e outra correspondência relacionada com os últimos dias do poeta em Paris, é apenas o volume inaugural de uma nova colecção, dirigida por Ricardo Vasconcelos, que a Tinta-da-China dedicará a Mário de Sá-Carneiro. Para o ano do centenário estão já previstos mais dois lançamentos: uma edição crítica da poesia, que deverá sair em Abril, e outra da prosa, prevista para o final de 2016. Projectos ainda não fechados são uma possível edição do seu teatro, e um segundo volume de correspondência, que reúna as cartas a outros destinatários. Dada a dificuldade em localizar e reunir os manuscritos de todas essas cartas, parcialmente dispersas por várias colecções particulares, Pizarro admite que elas possam ir sendo colocadas numa página da Internet a criar para o efeito. E lembrando que “estamos muito longe de ter uma correspondência completa de Sá-Carneiro”, apela aos investigadores para que assumam esse objectivo como um “projecto colectivo”.

De 1912 a 1915, entre os 22 e os 25 anos, Sá-Carneiro publicou a peça Amizade, o livro de contos Princípio, o romance A Confissão de Lúcio, o livro de poemas Dispersão, um novo e notável conjunto de novelas e contos, Céu em Fogo, e deixou ainda inédito, confiando-o ao seu executor literário Fernando Pessoa, um dos livros cimeiros da poesia portuguesa de sempre: Indícios de Oiro. A 26 de Abril de 1916 despede-se de Pessoa com um último bilhete, propriedade de um coleccionador do Porto que permitiu a sua reprodução neste volume: “Um grande, grande adeus do seu pobre Mário de Sá-Carneiro”. Não se tinham passado ainda dois anos desde que escrevera uma longa e entusiasmada carta ao amigo, em que se dizia ansioso por conhecer as novas produções de Ricardo Reis e que fechava com “mil abraços interseccionados em Ouro e Alma”. 

 

Notícia alterada a 02.01.2016 para corrigir duas datas que punham Mário de Sá-Carneiro a viajar para Paris em pleno século XXI.

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