Crítica

A aventura transformista de um casal

Tom Hooper transcende-se - e às suas habituais olimpíadas para um actor.

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A Rapariga Dinamarquesa são duas: uma mulher e o seu marido, num combate para manter a conjugalidade à tona

Tom Hooper convenceu Eddie Redmayne a interessar-se pelo argumento de A Rapariga Dinamarquesa — o filme sobre Einar Wegener, pintor dinamarquês (1882-1931) que um ano antes de morrer se tornou Lili Elbe, tornando-se uma das primeiras pessoas no mundo a submeter-se a uma intervenção cirúrgica de alteração de sexo — desta forma: em vez de imitar uma mulher, Eddie iria destapar a sua feminilidade escondida. Hooper apostava assim na capacidade de “fluidez” de Eddie — palavras do realizador numa conferência de imprensa do Festival de Veneza —, na facilidade com que poderia deixar expandir em si próprio o feminino, ir atrás dele, deixar-se ir.

O desafio foi lançado durante a rodagem de Os Miseráveis (2012), grotesco filme de Hooper. E antes de Redmayne protagonizar A Teoria de Tudo (2014), de James Marsh, em que interpretaria Stephen Hawking e receberia por esse número o Óscar. Não é de estranhar, é até compreensível, o aparecimento de urticária à simples referência do nome de Hooper (homem, também, do paroquial O Discurso do Rei — Óscar em 2011) e de uma olimpíada transformista à espera de Redmayne. Mas mais se estranham a dimensão razoavelmente modesta dos elogios (quase sempre tão fáceis) e a ausência de prémios (quase sempre a enfiar em formatos feitos à medida) que têm sido a vida pública deste filme. Como se A Rapariga Dinamarquesa se tivesse diluído numa engrenagem. Isto já foi usado, agora deita-se fora?

E, no entanto, não é mais do mesmo. Não é que Tom Hooper passe, de repente, a ser um cineasta interessante. Mas aqui transcende o provincianismo — transcende-se, portanto —, não se distrai muito com o decorativismo e concentra-se numa história de amor: um casal. Não se trata de continuar um desafio transformativo, de ir mais longe numa olimpíada de actor. A Rapariga Dinamarquesa não é um filme de um número solitário, como era o filme sobre Hawking. É um filme a três, Hooper, Eddie Redmayne e Alicia Vikander, o realizador e os intérpretes das personagens de Einar Wegener e da sua mulher, a pintora Gerda Wegener, para quem Einar começou a posar, para os seus retratos femininos — jogos caseiros esses que tiveram consequências irreversíveis, fizeram “aparecer” Lili.

Há algo de infantil — e até de feliz e de contagiante — nessa aventura de um casal. É um filme sobre uma reinvenção: a forma como uma conjugalidade se põe em movimento para lutar e se manter à tona. É esse o transformismo em acção, o de uma mulher e do seu marido — a “rapariga dinamarquesa”, repare-se num dos diálogos, é Einar/Lili e é também Gerda. Isso torna mais sereno e delicado o “espectáculo”. Mesmo sendo tão dramática a história.