Torne-se perito

Rajoy será o candidato do PP, se houver novas eleições

Líder popular mantém desejo de formar Governo de “amplo espectro”. No PSOE, “barões” descontentes não estão de acordo com Sánchez para que só haja congresso do partido quando a situação política do país se clarificar.

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Líder do PP não considera “razoável” o PSOE aspirar a formar Governo PIERRE-PHILIPPE MARCOU/AFP

Mesmo com as dificuldades com que se está a deparar, Mariano Rajoy continua a apostar na formação de “uma maioria estável para toda a legislatura”, que passaria por um entendimento entre o seu PP, o PSOE e o Cidadãos. Mas se o impasse se arrastar e a Espanha voltar a ter eleições, será ele a liderar novamente os populares na corrida eleitoral.

“Se se repetirem as eleições eu serei de novo o candidato do PP”, disse, esta terça-feira, depois de ter concluído uma ronda de contactos com outras forças políticas, na sequência das eleições de 20 de Dezembro.

Rajoy não entrou em pormenores sobre os seus próximos passos, mas afirmou ter deixado claro nas reuniões dos últimos dias com outros partidos – os grandes mas também com o Partido Nacionalista Basco, que elegeu seis deputados – a intenção de formar Governo. “Ganhámos as eleições, somos a principal força política, temos legitimidade para o fazer”, declarou, citado pelo El País. O líder não exclui contactos com outros partidos, excepto com os independentistas catalães.

O desejo do dirigente popular é formar um Governo de “amplo espectro” com partidos que partilham a mesma visão de uma Espanha unida, integrada na Europa e somem mais de 200 lugares no Congresso de Deputados. Ainda que não o tenha dito explicitamente, nem respondido a uma pergunta sobre a preferência entre um governo de grande coligação com o PSOE ou por uma solução “tripartida” que incluísse também o Cidadãos, o retrato feito por Rajoy é o de uma hipotética maioria formada pelos três partidos que totalizaria 253 lugares. Uma tal solução seria, do seu ponto de vista, a que mais se aproximaria “do que os espanhóis disseram nas urnas”.

Os planos de Mariano Rajoy, chefe do executivo de Madrid desde 2011, passam por reunir condições para poder ser investido pelo Congresso de Deputados no cargo de presidente do Governo. A hipótese de ceder o lugar a outro dirigente do PP “nem sequer se põe”, afirmou.

Na campanha eleitoral, a vice-presidente do executivo cessante, Soraya Sáenz de Santamaría, assumiu grande protagonismo e substituiu mesmo Rajoy no debate televisivo com os líderes dos outros principais partidos, com o argumento de que dois deles – o Podemos e o Cidadãos – não tinham representação parlamentar.

Pablo Iglesias, líder do Podemos, chegou a acusar o PP de ter em curso o que chamou de “Operação Menina” – preparar o terreno para que Soraya Sáenz de Santamaría viesse a ser investida como chefe do Governo, “para chegar a um acordo com Albert Rivera”, líder do Cidadãos, que lhe permitisse uma maioria absoluta. Se um tal plano existia, a realidade dos votos contados alterou-o. A soma dos 123 deputados do PP com os 40 do Cidadãos não chega aos 176 necessários.

Neste quadro pós-eleitoral, e com sinais de que o Cidadãos poderia pelo menos abster-se na investidura do chefe do Governo, o PP dispôs-se a dialogar com o PSOE, que rapidamente disse “não” a Rajoy ou a qualquer outro nome indicado pelo principal partido espanhol. Na segunda-feira, o comité federal socialista decidiu o voto contra a investidura do líder popular e “mandatou” o secretário-geral, Pedro Sánchez, alvo de críticas internas, para procurar uma solução de Governo, no caso de o PP não conseguir apoios para formar executivo.

Citado pelo El País, Mariano Rajoy disse, esta quarta-feira, que não é “razoável” o PSOE aspirar a formar Governo, e menos ainda que pretenda, simultaneamente, ocupar a presidência do Congresso de Deputados. A escolha para este cargo será o primeiro episódio da luta política. O PP quer o lugar para si e invoca a tradição de ele caber ao partido mais votado, mas os seus principais adversários também o reclamam.

À esquerda o cenário de entendimento também não parece fácil. Uma das condições que os socialistas põem para um eventual compromisso com o Podemos – os 90 eleitos do PSOE e os 69 do partido de Iglesias também não chegariam para uma maioria absoluta – é que este renuncie à sua proposta de referendo sobre a independência na Catalunha, algo de que o partido anti-austeridade não está disposto a abrir mão.

No PSOE, nem a hipótese de regresso ao poder cala discordâncias. A divisão interna mais perceptível desde a eleição de Sánchez para secretário-geral, em Julho de 2014, foi a divergência, no comité federal, entre “barões” e federações que defendem que o próximo congresso para eleição do secretário-geral se realize, como estava previsto, entre Fevereiro e Março, e os que, como o líder, querem um adiamento até que a situação política espanhola se clarifique.

No fundo, como notou o El Mundo, devido aos “maus resultados” de 20 de Dezembro, um sector do partido que afastar Sánchez da liderança e da possibilidade de protagonizar uma eventual nova corrida eleitoral. Nesse cenário, os olhos de muitos socialistas virar-se-iam para a presidente da Andaluzia, Susana Días.