Nem com mais receitas da TV os "grandes" vão poder segurar os craques

Contratos do Benfica com a Nos e do FC Porto com a Meo reforçam peso destas receitas. Mas a venda de jogadores vai continuar a ser a receita mais importante.

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A disputa entre as operadoras de telecomunicações, fora das quatro linhas, promete ajudar as contas dos clubes João Cordeiro

O aumento das receitas com a venda das transmissões televisivas que está a ser gerado pela guerra entre as principais operadoras de telecomunicações constitui uma ajuda preciosa para as frágeis contas financeiras dos maiores clubes portugueses, mas não evita a manutenção da dependência das receitas com vendas de jogadores.

A subida dos valores conseguidos pelos clubes com a venda do direito a transmitir os jogos caseiros das suas equipas de futebol ficou clara com os contratos assinados recentemente pelo Benfica e o FC Porto com as operadoras Nos e Meo, respectivamente. No caso do Benfica, está em causa um valor que pode atingir os 400 milhões de euros no período de dez anos, a partir da próxima época, e incluindo os direitos de transmissão da BTV, o canal do clube.

No caso do FC Porto, são 457 milhões de euros, também por dez anos mas a começar em 2018, e incluindo além do canal televisivo do clube a publicidade nas camisolas da equipa de futebol e a publicidade estática no estádio.

Sejam quais forem as contas, em ambos os casos assiste-se a um reforço das receitas face ao valor actualmente conseguido. De acordo com o relatório e contas da SAD do Benfica, o clube obteve na última época uma receita com transmissões televisivas de 34,6 milhões de euros, mas a este valor têm de ser deduzidos os custos com a gestão da BTV que, de acordo com esse relatório, ascenderam a 11,8 milhões de euros. Fica-se assim, com um valor próximo dos 22,7 milhões de euros.

No relatório da SAD do FC Porto, os rendimentos registados com a venda dos direitos televisivos na época passada foram de 15,3 milhões.

No caso do Sporting, que ainda não anunciou qualquer acordo com uma operadora para um novo contrato, as receitas contabilizadas com as transmissões televisivas dos jogos do campeonato nacional e das competições europeias foram de 17,3 milhões de euros na época passada.

A venda do direito a transmitir os jogos de futebol da equipa principal de futebol constitui uma das principais receitas dos três grandes. Isto é particularmente evidente se se olhar para as receitas operacionais excluindo a alienação dos direitos desportivos sobre jogadores. No caso do Benfica, vieram da TV um quarto dessas receitas. No FCP foram 21% e no Sporting 29,7%.

Se já na época passada, as receitas dos clubes com transmissões televisivas  tivessem estado próximas de 35 milhões de euros (um valor que se pode esperar de receita anual inicial nos contratos entretanto anunciados), o peso deste tipo de receita subiria de forma significativa, para 34,1% no caso do Benfica, 37,8% no do FCP e para 46% no Sporting.

Estes são valores que se podem comparar já de forma equilibrada com os dos principais clubes de futebol europeu que, de acordo com um relatório da consultora internacional Deloitte, tiveram nas transmissões televisivas 39% do total das suas receitas na época 2013/2014.

Em Portugal contudo, para perceber verdadeiramente as contas do clubes, não se pode deixar de olhar para as receitas com as vendas dos passes dos jogadores. Este tipo de proveitos, que para os grandes clubes internacionais podem ser vistos como extraordinários, não podem ser dispensados por muito tempo pelos emblemas nacionais. E são mesmo a receita que mais peso tem nas suas contas, algo que deverá continuar a acontecer mesmo com a bonança que agora chegou das operadoras de telecomunicações.

Na época passada, os rendimentos provenientes das transacções de atletas representaram para o Benfica 46,6% do total das receitas operacionais. No Porto esse número ainda foi maior, chegando aos 54,3%. No caso do Sporting foi de 32,4%.

Juntando às contas o dinheiro da venda de passes de jogadores, o peso das transmissões televisivas, mesmo num cenário de ganho anual de 35 milhões de euros, é muito menos impressionante, ficando-se por 19% no caso de Benfica e FCP e chegando aos 33% no Sporting, o único clube que, tendo como base as contas da época passada, passaria a ser a principal fonte de receita.

Para os clubes portugueses, com um passivo extremamente elevado e um nível de despesa que a concorrência desportiva feroz não permite abater de forma radical, não serão as transmissões televisivas mais bem remuneradas que poderão permitir abdicar do dinheiro que vem da cedência das suas principais estrelas às grandes ligas europeias.