Torne-se perito

Se Rajoy falhar, Sánchez tentará formar Governo mas não “a qualquer preço”

PP não exclui hipótese de convidar PSOE para o executivo. Socialistas só negociam com Podemos se o partido de Iglesias deixar cair referendo na Catalunha.

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Encontro de Rajoy com Iglesias. Um diálogo entre quem “não coincide em nada sobre o futuro de Espanha” Juan Medina/REUTERS

Se Mariano Rajoy não conseguir apoios para formar um executivo liderado pelo PP (Partido Popular), o secretário-geral do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), Pedro Sánchez, deverá procurar uma solução governativa para Espanha. O “mandato” foi-lhe dado esta segunda-feira por uma larga maioria do comité federal dos socialistas. Mas nesse cenário não é certo que se chegue a uma solução que evite novas eleições legislativas.  

A decisão do órgão socialista tem, sem o nomear, uma clara mensagem para o Podemos, partido indispensável a uma tal solução. “A autodeterminação, o separatismo e as consultas que buscam o confronto só trarão maior fractura a uma sociedade já por si dividida”, diz, numa alusão ao partido de esquerda liderado por Pablo Iglesias, que defende um referendo sobre a independência da Catalunha.

O PSOE afasta qualquer posição que altere o ordenamento constitucional e “ameace a convivência conseguida pelos espanhóis nos últimos 37 anos”. “Não dialogaremos sobre a integridade territorial da Espanha”, tinha já avisado Sánchez, segundo o qual um fracasso de Rajoy na formação de um governo dará “legitimidade” aos socialistas para tentarem eles fazê-lo. Mas as posições do PSOE e do Podemos parecem dificilmente conciliáveis. Iglesias foi contundente ao dirigir-se esta segunda-feira ao PSOE, pedindo-lhe que “deixe de fazer teatro”.

Com o Podemos a pôr-se à margem de uma solução liderada pelo PP, as esperanças dos populares em governar Espanha parecem estar numa abstenção dos socialistas na votação para a investidura do futuro presidente do executivo. Pedro Sánchez, que já disse não a um novo executivo de Mariano Rajoy, ou chefiado por qualquer outro nome do PP, não exclui a possibilidade de ser ele a liderar um executivo, embora garanta que não o fará “a qualquer preço”.

Num Parlamento com 350 lugares a maioria faz-se com 176 deputados. O PP elegeu 123 e tem mantido contactos que permitam viabilizar Rajoy, líder do PP e do executivo cessante, como presidente do futuro Governo. Mas sinais de abertura só vieram até agora do Cidadãos, formação centrista, liderada por Albert Rivera. O PSOE tem 90 deputados e o Podemos 69. Como a última semana mostrou não são fáceis soluções maioritárias no quadro parlamentar saído das legislativas do dia 20 de Dezembro.

Para que Rajoy possa continuar a liderar o Governo, o PP estará mesmo disposto, segundo o diário El Mundo, a propor ao PSOE a participação no executivo. O cenário ideal para os populares seria uma abstenção dos socialistas, mas um argumentário enviado a dirigentes do partido chega a admitir uma grande coligação PP/PSOE. Os populares admitem que os ímpetos soberanistas na Catalunha possam levar Sánchez a mudar de opinião e a apoiar a posse de Rajoy.

No esforço para ultrapassar as dificuldades, o chefe cessante do Governo reuniu-se nesta segunda-feira com Albert Rivera e também com Pablo Iglesias. O primeiro disse-lhe quais são as reformas que os Cidadãos querem ver aprovadas. Não esqueceu que para isso acontecer é preciso haver maioria de Governo, o que, do seu ponto de vista, implica que “o PSOE mude de posição” e se disponha a viabilizar um executivo liderado pelos populares.

Iglesias deixou ainda mais claro o que já se sabia: o Podemos não apoiará nem viabilizará uma investidura de Rajoy, com quem “não coincide em nada sobre o futuro de Espanha”. Manifestou-se também contrário a um “bloco imobilista a três” – designação que usou para qualificar um eventual entendimento entre PP, PSOE e Cidadãos.

O processo de formação de governo promete ser lento e sem garantias de êxito. Poderão suceder-se votações para a eleição de um presidente do Governo. Se isso não acontecesse no prazo de dois meses após as eleições, os espanhóis seriam de novo chamados às urnas.