Em Público

Brincar aos futuros

Aqui há uns anos, o Altes Museum de Berlim exibia, na sua imponente fachada, uma enorme instalação em néon (do artista plástico italiano Maurizio Nannucci) onde se lia: “Toda a arte foi um dia contemporânea.” Isto, na fachada do mais importante museu de arte antiga do mundo, queria dizer apenas: o que aqui vêem não são velharias, são as coisas modernas do seu próprio tempo.

Na verdade, as noções de passado e futuro (o presente, que é já ambos, não suscita discussões) têm-se confundido ao longo de décadas. A ficção científica entretém-se a baralhá-los e até a lançar-nos à cara anos futuros que, nalguns casos, depressa se transformam em passados. O 1984 de Orwell é um dos casos mais conhecidos, tal como 2001 e 2010 de Arthur C. Clarke, o primeiro dos quais permitiu a Kubrick realizar para o cinema uma das suas obras-primas. Mas há várias datas de calendários futuros, mais ou menos explícitas, em filmes que por aí vão ficando. Eu, Robot, por exemplo, “passa-se” em 2035; já faltou mais, para lá chegarmos. O primeiro Exterminador Implacável, com Schwarzenegger, é situado num ano em que os “supercomputadores dominam o mundo”, 2029; mais perto ainda. Já o ano de Desafio Total, outro filme com Schwarzenegger como protagonista, fica um pouco mais longe: “2084 AD”. Há, em filmes de culto, datações menos exactas. Blade Runner, por exemplo, passa-se no século XXI (onde já estamos, aliás), e O Quinto Elemento algures no século XXIII. Mas a datação mais longínqua cabe a Barbarella que, na versão cinematográfica, atira Jane Fonda (junto com as ousadias da libertação sexual dos anos 60) para o ano 40.000 d.C. Tão longe e tão perto...

Já a Guerra das Estrelas, que voltou em força neste final de ano (2105, convém notar), joga com passado e futuro de uma forma propositadamente enigmática. O primeiro filme, o de 1977, começava assim: “Há muito, muito tempo, numa galáxia muito distante…” É verdade: o futuro intergaláctico de impérios e planetas fica, afinal, no mesmo passado de todas as histórias infantis.

Mas não é só em livros ou filmes que existe este jogo de datas improváveis. Em 1969, nos Estados Unidos, uma dupla de fraca história lançou no mercado uma canção que se tornou um êxito, aliás o único da sua existência: In the year 2525 (leia-se “twenty-five, twenty-five”). O duo, Zager and Evans, era composto por Denny Zager (n. 1944) e Rick Evans (n. 1943), ambos texanos, e a canção, subtitulada Exordium & Terminus, descrevia um futuro distópico. Para resumir: se em 2525 homens e mulheres ainda vivessem ou sobrevivessem, em 3535 não precisavam de pensar falar verdade ou mentir, porque os seus gestos e pensamentos estariam numa pílula que lhes era dada; em 4545 não precisariam de dentes ou olhos, porque não teriam nada para mastigar ou ver, ou sequer ser vistos; em 5555, teriam os braços caídos e as pernas inertes, porque máquinas substituiriam os movimentos humanos; em 6565 não seriam precisos maridos ou mulheres, porque as crianças seriam criadas e escolhidas em tubos de ensaio; em 7510 (deviam ter escrito 7575 para manter a lengalenga, mas estragava-lhes a rima), Deus poderia decidir que chegara a hora do Julgamento Final; em 8510, Deus escolheria então entre manter a humanidade viva ou deitar tudo abaixo e começar de novo; em 9595, o homem dar-se-ia conta de que, ainda vivo, tinha tirado tudo à Terra sem lhe devolver o que quer que fosse; e em 10.000 [muito longe do nosso 2015, mas a 30.000 anos da exuberante Barbarella], o homem ainda por aí andaria, a chorar na noite eterna por aquilo que nunca conhecera, milhões de lágrimas derramadas e ao longe o brilho de uma estrela, muito, muito distante. Ou talvez apenas no passado.

Não, a canção não era boa. Vendeu mais de um milhão de cópias, mas era até “uma das mais irritantes canções de sempre”, no dizer da sábia The Encyclopedia of Popular Music, de Colin Larkin (MacMillan, 3.ª edição, 1998). Nos EUA, esteve “congelada” no pós-11 de Setembro de 2001, integrando a lista de canções silenciadas na rádio. Mas depois regressou e ainda hoje toca, a espaços.

Pouco importa, no entanto, o fictício ano de 2525. Daqui a dias será 2016. E, glosando o néon de Nannucci, toda a vida é afinal contemporânea. Ontem foi futuro. E amanhã há-de ser passado.