Morreu Haskell Wexler, director de fotografia de Voando Sobre um Ninho de Cucos

O realizador, de 93 anos, ganhou dois Óscars e trabalhou com realizadores como Norman Jewizon, George Lucas ou Elia Kazan.

Haskell Wexler venceu por duas vezes o Óscar de melhor fotografia
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Haskell Wexler venceu por duas vezes o Óscar de melhor fotografia AFP

Haskell Wexler, um dos mais reconhecidos directores de fotografia de Hollywood e documentarista politicamente envolvido, morreu no domingo, em Santa Mónica (Califórnia), aos 93 anos. Com um percurso de mais de 50 anos no cinema, Wexler foi premiado pela Academia e tem uma estrela no Passeio da Fama.

A morte foi confirmada pelo seu filho Jeff no site oficial do director de fotografia e no Facebook : Haskell Wexler morreu “tranquilamente enquanto dormia. Uma vida maravilhosa terminou, mas o seu compromisso ao longo da vida para travar a batalha certa, pela Paz, pela humanidade, sobreviverá”, divulgou nesta rede social. 

Wexler recebeu cinco nomeações da Academia. Viria a ganhar dois Óscars: o primeiro em 1966, com a fita a preto e branco de Mike Nichols Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, protagonizada por Elizabeth Taylor e Richard Burton, e o segundo, dez anos mais tarde com Caminho da Glória, de Hal Ashby, uma biografia do cantor folk Woody Guthrie que Haskell Wexler conheceu durante a Segunda Guerra Mundial, em que participou. A fotografia do clássico Voando Sobre um Ninho de Cucos, de Milos Forman, valeu-lhe uma das nomeações para o mais relevante prémio da indústria cinematográfica.

Haskell Wexler trabalhou com realizadores como Norman Jewizon, George Lucas ou Elia Kazan, em América, América (1963), filme exibido na edição deste ano do Lisbon&Estoril Film Festival. Mas, entre ficção e documentários, também deu cartas enquanto realizador e argumentista: destaque para América, América Para Onde Vais? (1969), um filme ficcional com imagens reais, com Robert Foster no papel de um repórter de televisão que se vê envolvido na violência gerada durante a convenção nacional dos democratas de 1968, em Chicago.

Underground (1976), documentário que realizou com Emile de Antonio e Mary Lampson que inclui entrevistas a membros da organização de esquerda radical Weather Underground e filmagens dos protestos pelos direitos civis e anti-guerra, passou na última edição do Doclisboa.

Nascido em 1922, em Chicago, Wexler frequentou a Universidade da Califórnia. Um ano mais tarde, abandonou os estudos e entrou para a marinha mercante. Serviu mais de quatro anos na Segunda Guerra Mundial, durante a qual passou quase duas semanas num barco salva vidas depois de o navio onde estava ter sido afundado pelos alemães.

A sua paixão pelos filmes começou cedo, conta o The Guardian. Com 12 anos, em férias com a família em Itália, Haskell Wexler filmou alguns jovens com o uniforme fascista e cruzou essas imagens com filmes caseiros dos pais e dos dois irmãos. Depois da guerra, Haskell Wexler abriu um estúdio onde produziu filmes educativos por encomenda. Fechou o estúdio em 1947 e trabalhou, depois, com o realizador John W. Barnes – juntos, realizaram e produziram uma curta-metragem documental, The Living City (1953), nomeada para o Óscar na sua categoria.

Filmou também diversos anúncios publicitários. À revista norte-americana Variety disse, certa vez, estar preocupado com “a moralidade dos produtos”. Homem de convicções fortes, viria, por esse motivo, a deixar de gravar anúncios a tabaco muito antes de serem proibidos na televisão americana, conta a Variety.

Alguns dos seus documentários reflectem a sua faceta activista. Em 1971, foi responsável, em conjunto com Richard Pearce, pela fotografia de Interviews With My Lai Veterans (de Joseph Strick), um documentário distinguido com o Óscar de melhor documentário com relatos na primeira pessoa sobre o Massacre de My Lai, ocorrido em 1968 durante a Guerra do Vietname. Em 1974, a mesma guerra voltaria a ser tema para um outro documentário da sua autoria – Introduction to the Enemy -, que segue a actriz Jane Fonda e o marido numa visita a Hanoi, capital do Vietname, durante a guerra.

Quando o filme Dias do Paraíso (1978), de Terrence Malick, recebeu o Óscar de melhor fotografia, Wexler reclamou-o também para si - afinal, apesar de a Academia ter atribuído o prémio ao director de fotografia principal, Nestor Almendros, a verdade é que Haskell Wexler também foi responsável pela fotografia.

Entre os inúmeros prémios que recebeu, conta-se o prémio de carreira atribuído pela Associação de Directores de Fotografia dos Estados Unidos - Haskell Wexler foi, aliás, o primeiro director de fotografia em actividade a receber esta distinção.